O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, chefe do Pentágono nesta administração Trump
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, chefe do Pentágono nesta administração TrumpYURI GRIPAS/EPA

Nova estratégia de defesa dos Estados Unidos limita apoio militar aos aliados europeus

O documento de 34 páginas deixa claro que a principal prioridade de Washington passa a ser a defesa do território nacional e do hemisfério ocidental, bem como a dissuasão da China.
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Os Estados Unidos preparam-se para alterar de forma significativa a sua estratégia de defesa, reduzindo o apoio militar aos aliados europeus e exigindo que estes assumam um papel mais ativo na sua própria segurança. A mudança consta da nova Estratégia de Defesa Nacional para 2026, divulgada pelo Pentágono na sexta-feira (23), e está alinhada com a doutrina política de Donald Trump, centrada no princípio de America First.

O documento de 34 páginas deixa claro que a principal prioridade de Washington passa a ser a defesa do território nacional e do hemisfério ocidental, bem como a dissuasão da China. Nesse contexto, a Europa deixa de estar no centro das preocupações estratégicas dos EUA. “Os aliados tomarão a iniciativa face a ameaças que são menos graves para nós, mas mais relevantes para eles, com um apoio crucial, embora mais limitado, por parte dos Estados Unidos”, lê-se no relatório.

Trata-se de uma rutura com a linha seguida em anos anteriores. A anterior estratégia, publicada durante a presidência de Joe Biden, classificava a China como o maior desafio estratégico e a Rússia como uma ameaça “aguda”. Agora, Moscovo é descrita como uma ameaça “persistente, mas gerível” para os países da ala oriental da NATO, enquanto Pequim surge num tom mais contido, com apelos a relações “respeitosas”.

Apesar de sublinhar que os Estados Unidos continuarão comprometidos com a Europa, o Pentágono é claro ao afirmar que esse envolvimento será condicionado. A administração Trump tem vindo a pressionar os países europeus para aumentarem o investimento em defesa e já admitiu, em várias ocasiões, a possibilidade de reduzir o papel americano na NATO. Esta nova estratégia parece confirmar essa intenção.

A mudança está a ser acompanhada com apreensão em várias capitais europeias, sobretudo num contexto de guerra na Ucrânia. Washington tem intensificado a pressão sobre Kiev para alcançar um acordo de paz com Moscovo, mesmo com exigências territoriais russas ainda em cima da mesa, tendo decorrido nos últimos dois dias uma reunião tripartida entre delegações dos EUA, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi.

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A Estratégia de Defesa divulgada pelo Pentágono vem na sequência da Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro pela administração Trump, que provocou indignação entre aliados europeus por afirmar que a Europa enfrenta uma “desaparição civilizacional” e manifestar simpatia por forças políticas de extrema-direita no continente.

Das Coreias à Gronelândia, passando pela “paz estável” com a China

No Indo-Pacífico, o foco da nova estratégia de defesa norte-americana é impedir que a China imponha um domínio regional, sem referência direta a Taiwan. Segundo a Associated Press, o novo documento político considera a China como uma força consolidada na região do Indo-Pacífico, que só precisa ser dissuadida de dominar os EUA ou seus aliados.

O objetivo “não é dominar a China; nem estrangulá-la ou humilhá-la”, afirma o documento, que acrescenta: “Isso não exige mudança de regime nem qualquer outra luta existencial”. “O presidente Trump procura uma paz estável, comércio justo e relações respeitosas com a China”, afirma o documento. 

Na península coreana, os EUA admitem também um papel mais limitado na dissuasão da Coreia do Norte, transferindo para Seul a responsabilidade principal

Já na América Latina, a estratégia é assertiva: Washington pretende “restaurar o domínio militar” no hemisfério ocidental, evocando uma atualização da histórica Doutrina Monroe.

O documento menciona também especificamente o acesso ao Canal do Panamá e à Gronelândia, na semana em que Trump afirmou ter chegado a um "entendimento para um futuro acordo" sobre segurança no Ártico com o líder da NATO, Mark Rutte, que ofereceria aos EUA "acesso total" à Gronelândia, território da Dinamarca, membro da aliança atlântica.

O documento, com o subtítulo “Restaurar a paz através da força”, reflete uma visão fortemente nacionalista e uma redefinição das alianças tradicionais. E, para os velhos aliados europeus, a mensagem é inequívoca: os Estados Unidos continuarão presentes, mas já não como garante central da segurança do continente. A responsabilidade, avisa Washington, passa agora a ser sobretudo europeia.

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