A paquistanesa Jalila Hader, primeira mulher da comunidade hazara e tornar-se advogada.
A paquistanesa Jalila Hader, primeira mulher da comunidade hazara e tornar-se advogada.Foto: Right Livelihood

"Nobel Alternativo" distingue luta de mulheres contra a violência patriarcal e trabalho pelo uso ético da IA

Os prémios Right Livelihood distinguem, desde 1980, quem promove justiça, direitos humanos e trabalho social, e, nesta edição, teve mulheres e organizações com lideranças femininas como laureadas.
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A Right Livelihood Award distinguiu esta quarta-feira, 30 de setembro, com o "Nobel Alternativo", a paquistanesa Jalila Haider e uma organização sul-africana pela luta contra a violência patriarcal, e a norte-americana Timnit Gebru pela defesa do uso ético da inteligência artificial.

O prémio da fundação sueca, que ficou popularmente conhecido como um "Nobel alternativo", distingue o trabalho social, e nesta edição também premiou os esforços contra o autoritarismo da Associação de Jovens Advogados da Geórgia (GYLA, na sigla em inglês).

O júri reconheceu Jalila Haider, a primeira mulher da comunidade hazara a tornar-se advogada, por "desafiar a perseguição étnica, estatal e patriarcal, guiada pela convicção de que nenhum ser humano é ilegal". O veredicto também destacou que a paquistanesa combina "o trabalho jurídico com o ativismo de rua e o empoderamento comunitário", dessa forma conseguindo "justiça para milhares de pessoas perseguidas ou ignoradas pelo poder, especialmente minorias étnicas, de género e religiosas, bem como refugiados".

Haider, nascida em Quetta, Paquistão, em 1984, liderou, em 2018, uma greve de fome contra o assassinato de pessoas da etnia hazara, o que levou a uma negociação e reduziu os ataques contra esta comunidade. Como cofundadora da Frente Democrática das Mulheres, impulsionou a primeira marcha de mulheres do Baluchistão. A advogada paquistanesa ajudou mais de 400 viúvas de vítimas do terrorismo a alcançar a independência financeira através da sua organização "Nós, os Humanos" e conseguiu que mais de 600 ativistas políticos e defensores dos direitos humanos recuperassem a liberdade de circulação.

Zakithi Sibandze, liderança regional na Assembleia das Mulheres Rurais (RWA), e Nona Kurdovanidze, presidente da Associação de Jovens Advogados da Geórgia (GYLA).
Zakithi Sibandze, liderança regional na Assembleia das Mulheres Rurais (RWA), e Nona Kurdovanidze, presidente da Associação de Jovens Advogados da Geórgia (GYLA).Fotos: Right Livelihood

Já a organização sul-africana Assembleia das Mulheres Rurais (RWA, na sigla em inglês) recebeu o prémio por transformar as camponesas sul-africanas "numa força unida em defesa da terra, das sementes e da autonomia corporal contra a espoliação corporativa e patriarcal".

O júri destacou que a organização transnacional, fundada em 2009 na Cidade do Cabo, África do Sul, reúne mais de 178.000 agricultoras de pequena escala em 11 países que, em oposição ao modelo das ONG, aposta numa estrutura horizontal dirigida por voluntários, construindo uma das maiores plataformas para mulheres rurais da região.

A RWA documentou centenas de variedades de sementes indígenas e defendeu os sistemas tradicionais de comercialização. Além disso, transformou mulheres excluídas da propriedade da terra numa voz política que ajudou a impulsionar uma lei na Zâmbia para a distribuição equitativa de terras às mulheres (2016) e outra na Suazilândia contra os abusos sexuais e a violência doméstica (2018).

Norte-americana de origem eritreia, Timnit Gebru é ex-diretora da equipa de ética da Google e fundou o Instituto de Investigação em Inteligência Artificial Distribuída.
Norte-americana de origem eritreia, Timnit Gebru é ex-diretora da equipa de ética da Google e fundou o Instituto de Investigação em Inteligência Artificial Distribuída.Foto: Right Livelihood

A norte-americana de origem eritreia Timnit Gebru foi premiada "por desafiar o poder concentrado na inteligência artificial (IA) e por ser pioneira na tecnologia digital enraizada na justiça, na experiência vivida e na ação humana".

Através do Instituto de Investigação em Inteligência Artificial Distribuída, Gebru chamou a atenção para a concentração de poder no setor tecnológico e para os danos causados pela IA a comunidades discriminadas, bem como para a forma e os objetivos com que esta nova tecnologia é desenvolvida.

A ex-diretora da equipa de ética da Google criou também a Black in AI, uma organização destinada a aumentar a presença da população negra neste campo. "O seu modelo distributivo reúne investigadores e colaboradores de vários países e continentes, desafiando os conceitos centralizados e impulsionados pelas grandes empresas que a IA convencional acarreta", salientou o júri.

A Associação de Jovens Advogados da Geórgia foi distinguida "por construir e salvaguardar a democracia georgiana e por sustentar o poder civil face à repressão autocrática". Fundada em 1994, a GYLA é a organização de direitos humanos mais antiga da Geórgia: os seus membros ajudaram a redigir a primeira Constituição deste país do Cáucaso após a queda da União Soviética em 1991 e desempenharam um papel essencial na sua democratização, salienta o júri, que a denomina como "espinha dorsal" da sociedade civil.

A organização prestou cerca de 1,5 milhões de consultas jurídicas gratuitas num país com 3,7 milhões de habitantes e contribuiu para assegurar os direitos das pessoas com deficiência e garantir o direito à educação infantil. O veredicto salienta ainda que a GYLA decidiu permanecer na Geórgia, "apesar de sofrer uma dura repressão ao abrigo da nova lei contra agentes estrangeiros".

"Nobel alternativo"

O Prémio para o Modo de Vida Correto (Right Livelihood Award), como é realmente denominado, ainda que seja conhecido como "Nobel Alternativo", já distinguiu cerca de duzentas pessoas e organizações desde que foi instituído em 1980 pelo escritor e ex-deputado europeu sueco-alemão Jakob von Uexküll.

Os prémios deste ano — cada um no valor de um milhão de coroas suecas (88.000 euros) — serão entregues em Estocolmo no próximo dia 01 de dezembro.

Já os anúncios dos laureados com os Prémios Nobel originais vão começar a ser feitos na próxima segunda-feira, 5 de outubro, e decorrem até ao dia 12, com emissão em direto pelo site oficial.

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