Nikita Melnikov: "Repressão das gangues salvadorenhas é hoje tema de debate político em toda a América Latina"
Como surgiu o seu interesse pelas gangues de El Salvador?
O interesse começou durante o doutoramento. Estava no segundo ano quando Maria Micaela Sviatschi entrou em Princeton como professora auxiliar. Começámos a conversar, ela trabalhava sobre crime organizado na América Latina e foi quem me falou da situação das gangues em El Salvador. Pensei: porque não estudamos isto? Porque não analisamos os efeitos das gangues nos indicadores socioeconómicos? Juntámo-nos a Carlos Schmidt-Padilla, que é salvadorenho e coautor deste e de outros projetos sobre o país. Trabalhamos juntos há oito anos.
O interesse que levou a esta bolsa não é, portanto, recente. Surgiu quando estava ainda nos Estados Unidos.
Surgiu. A pergunta inicial era: que efeito estavam as gangues, que ainda controlavam partes de El Salvador, a ter no desenvolvimento socioeconómico? Escrevemos um artigo sobre isso, já publicado. E quando estávamos a fechar esse projeto deu-se aquela transformação enorme, em 2022, com o governo a decretar o Estado de Exceção e a lançar a repressão em larga escala. Como já tínhamos toda a infraestrutura montada, decidimos que tínhamos mesmo de estudar como o país vai mudar — está a mudar agora — depois da repressão.
A equipa quem é?
Além de mim, inclui Maria Micaela Sviatschi, hoje professora associada em Princeton, e Carlos Schmidt-Padilla, professor auxiliar em Berkeley. É ele quem traz o conhecimento institucional do país, embora a esta altura estejamos todos muito familiarizados com o contexto.
O que significava exatamente esse controlo territorial das gangues?
Quando digo que controlavam, não quero dizer que estavam apenas presentes. Determinavam literalmente muitas facetas da vida das pessoas. Criavam postos de bloqueio: para entrar ou sair de um bairro era preciso autorização da gangue. Simplesmente não deixavam as pessoas atravessar livremente as fronteiras do seu território.
Com que consequências?
Nos nossos projetos anteriores mostrámos que esse controlo tinha custos socioeconómicos enormes. Como as pessoas não podiam circular livremente, quem vivia num bairro controlado não podia trabalhar fora dele. Ficava obrigado a viver e a trabalhar dentro do território da gangue. Isso limitava muito as oportunidades no mercado de trabalho e traduzia-se em pior emprego, rendimentos mais baixos e piores condições socioeconómicas.
Não havia presença do Estado nesses territórios? Escolas, hospitais?
Havia escolas, havia hospitais, sim. Nas escolas o abandono era muito mais alto, em parte porque as gangues visavam precisamente essas crianças para as recrutar. Mas não é que o Estado estivesse totalmente ausente. Se uma equipa de reparação de estradas quisesse entrar, as gangues deixavam, porque também beneficiavam de melhores estradas nas suas comunidades. E o Estado fazia-o porque não queria abandonar aquelas pessoas.
Então o problema não eram os serviços públicos.
Não era tanto isso. Imagine duas pessoas a viver em lados opostos da mesma rua. De um dos lados, a gangue controla tudo. Para atravessar aquela rua é preciso que a gangue dê autorização. Torna-se muito difícil atravessar todos os dias para trabalhar noutro sítio, mesmo que haja um emprego melhor disponível.
E para atravessar era preciso pagar?
Pense nisto como um visto. Primeiro, é preciso autorização, é preciso que eles deixem passar. Muitas vezes era também preciso um pequeno pagamento. Não era necessariamente grande, um ou dois dólares por travessia. Mas como tinham de o fazer todos os dias para trabalhar noutro lado, tornava-se uma barreira substancial ao emprego.
E depois da repressão lançada em 2022 pelo presidente Nayib Bukele, com a detenção maciça de criminosos na famosa prisão de alta segurança, o CECOT ?
Quando o governo desmantelou o controlo territorial e deteve todos os suspeitos, esperávamos que essas restrições à mobilidade caíssem. É algo para que já temos evidência. A liberdade de circulação melhorou tremendamente. Perguntámos às pessoas se diriam que havia liberdade de movimento onde viviam: antes, cerca de um terço respondia que sim; depois, 95%. Uma mudança enorme. E vemos também que, removidas as restrições, as pessoas dos antigos bairros das gangues passaram a trabalhar mais em empresas maiores, com melhores empregos e melhores salários.
O fenómeno Bukele foi uma surpresa para si?
Não foi surpresa que houvesse procura de mudança no país. As gangues controlavam bairros há mais de duas décadas. A população sentia o peso desse controlo e exigia que alguma coisa fosse feita.
Exigia estas medidas de mão duríssima em concreto?
Não necessariamente. Não creio que a população pudesse dizer exatamente o que era preciso acontecer, mas queria que acontecesse alguma coisa. Isso não nos surpreendeu. Os acontecimentos em si, e a forma como a repressão foi executada, esses sim foram uma surpresa. Não estávamos à espera.
Surpreendeu-o a determinação de Bukele ou os resultados?
Ambos. Quando Bukele chegou ao poder não começou logo por ser duro com as gangues. A retórica era dura, mas alegadamente tentou negociar com elas para reduzir o nível de violência, para que se comportassem.
E o que mudou?
Em março de 2022, durante três dias, as gangues mataram 87 pessoas. Foi isso que mudou tudo. Foi isso que levou Bukele a declarar o Estado de Exceção e a suspender certas garantias constitucionais, como o processo devido na detenção de suspeitos de pertencerem às gangues. Foi assim que começou.
A ideia agora, com esta bolsa, é ir para o terreno?
Sim. O projeto está centrado em El Salvador e tem várias subquestões. A primeira é perceber o que aconteceu às crianças.
Em que sentido?
Os efeitos podem ir nos dois sentidos. Por um lado, as gangues recrutavam crianças e o abandono escolar era muito maior nos bairros controlados, por causa da insegurança e do recrutamento. Sem as gangues, isso pode traduzir-se em melhorias significativas. Por outro lado, uma parte substancial da população foi detida. As detenções de pais e a rutura dos agregados familiares podem levar crianças a abandonar a escola, porque os pais não as podem ajudar ou porque têm de trabalhar. Queremos perceber qual dos efeitos domina e o que pode ser feito se as coisas não estiverem a melhorar. Por exemplo, o investimento. Antes era muito arriscado investir onde as gangues operavam — pequenos negócios, novas empresas, imobiliário, renovar ou construir casas. Também aqui não sabemos em que direção vai o efeito. Por um lado, há muitas propriedades baratas que podem atrair investimento. Por outro, pode haver efeitos de aglomeração, com as empresas a quererem concentrar-se nas zonas já desenvolvidas e a não irem para as outras. Queremos ver se o investimento aumenta quando as gangues saem ou se é preciso um empurrão adicional do governo, com incentivos à criação de emprego nessas áreas. E há a questão da discriminação. Tem a ver com algo que já observámos no projeto-piloto. A mobilidade melhorou e o acesso a empregos antes indisponíveis melhorou de facto. Mas nos inquéritos começámos a ver que as pessoas dos antigos bairros das gangues passaram a dizer muito mais que são discriminadas por causa do sítio onde vivem.
E investigaram isso.
Fizemos uma experiência com 450 empresas salvadorenhas situadas fora dos antigos territórios das gangues. Dissemos-lhes apenas que queríamos perceber as suas preferências: que tipo de trabalhadores preferiam. Mostrámos-lhes pares de currículos e pedimos que escolhessem. Variámos muitas características, mas as comparações que nos interessavam eram aquelas em que a única diferença entre os dois currículos era a morada: num caso, uma pessoa de um antigo bairro de gangue; no outro, de uma zona que nunca o foi.
E o resultado?
Em 60% dos casos os empregadores preferiram a pessoa da zona que não era controlada pelas gangues. Só em 40% escolheram a pessoa do antigo bairro. Confirmou a evidência de que os empregadores têm, de facto, essa preferência.
Como explica que El Salvador, um pequeno país, atraia tanta atenção?
É pequeno, sim. Mas penso que a razão por que me foi atribuída esta bolsa é permitir estudar uma questão que raramente é possível estudar. O crime organizado é um problema enorme em muitas partes do mundo — não tanto na Europa, mas muito na América Latina. E não sabemos como seriam as coisas se, de algum modo, o problema fosse resolvido. Esta proposta quer precisamente dar esse tipo de evidência: quais são os efeitos de remover o crime organizado de uma sociedade. Algumas coisas mudam muito depressa. A mobilidade melhorou quase imediatamente a seguir à repressão, porque as pessoas começaram a circular livremente. Outras podem demorar muito mais. Os empregadores ainda hesitam em contratar pessoas das antigas zonas das gangues, mesmo com os suspeitos na prisão. Isso sugere que alguns legados levam mais tempo a ultrapassar. Queremos perceber quais são e o que se pode fazer.
As conclusões podem aplicar-se a países de grande dimensão da América Latina como o México ou o Brasil?
Queremos informar decisões políticas noutros países. Os dois onde esta investigação seria mais aplicável são os vizinhos: Honduras e Guatemala. Mas a repressão das gangues salvadorenhas é hoje tema de debate político em toda a América Latina. O Equador está a considerar medidas semelhantes e há claramente problemas de crime organizado no México, no Brasil, na Colômbia.
E muitos políticos a falar de medidas à Bukele.
Exatamente. Acreditamos que é preciso mais investigação antes de tirarmos conclusões, mas queremos contribuir para esses debates e poder dizer: estas medidas podem funcionar noutros contextos, estas são menos prováveis de funcionar.
