Benjamin Netanyahu encontra-se esta quarta-feira com Donald Trump no que é a sua sétima viagem aos Estados Unidos desde que o republicano foi eleito em novembro de 2024. Na agenda está Gaza, mas sobretudo o Irão: o primeiro-ministro israelita teme que o nova-iorquino seja tentado a chegar a um acordo de mínimos, contrário aos seus interesses.Segundo o canal israelita i24 News, o chefe do governo de coligação vai mostrar a mais recente avaliação dos serviços de informações que “aponta para uma aceleração rápida e alarmante do programa de mísseis balísticos do Irão”. Na guerra de 12 dias com Israel, em junho passado, terão sido destruídos até um terço dos lançadores dos mísseis. Mas o Irão continua a ser o país dotado de mais mísseis balísticos na região — terá até 2 mil com alcance para atingir o país que não reconhece. Segundo um gráfico reproduzido no ano passado pelo portal noticioso iraniano ISNA, o país está dotado de nove mísseis diferentes com capacidade para levar a destruição a Israel. Um deles, o Fattah-1, é descrito como hipersónico, ou seja, capaz de viajar cinco vezes mais rápido do que o som. Além disso, a cooperação militar com a Rússia não se limitou à venda de drones de ataque, mas também se materializou na aquisição de mísseis de cruzeiro Kh-55.A visita de Netanyahu decorre depois de negociações indiretas que tiveram lugar na sexta-feira em Omã entre os enviados dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Abbas Araghchi. Uma abertura de ambas as partes na sequência da revolta esmagada pelas autoridades iranianas, e que se saldou em milhares de mortos, e das ameaças entre as lideranças de ambos os países, em especial por parte de Donald Trump, que deu ordens para forças navais se deslocarem para a região e deixou no ar uma intervenção ao estilo do efetuado ao venezuelano Nicolás Maduro. .Irão detém líderes reformistas que acusa de ligações com os EUA e Israel.No fim de semana, o gabinete de Netanyahu disse que “o primeiro-ministro acredita que quaisquer negociações devem incluir a limitação de mísseis balísticos e o fim do apoio ao eixo iraniano”, referência ao Hamas em Gaza, ao Hezbollah no Líbano e aos houthis no Iémen. No entanto, o regime teocrático tem mostrado apenas flexibilidade para negociar no que respeita ao programa nuclear, não abrindo mão nem do programa de mísseis, que considera ser um dissuasor essencial para a sua sobrevivência, nem do apoio aos grupos armados da região. À Associated Press, a ex-agente da Mossad Sima Shine disse que Israel receia que Trump se sinta tentado a fazer um acordo com o Irão apenas sobre a suspensão do enriquecimento do urânio, mas que não acabe com o programa nuclear nem limite o arsenal de mísseis balísticos. Nesse cenário, disse Shine, as autoridades israelitas estão tentadas a atacar de novo o Irão.Cisjordânia divideBenjamin Netanyahu e Donald Trump têm mantido uma relação próxima e de entendimento na generalidade dos temas, mas não desprovida de tensão. Por exemplo, o israelita mostrou-se contrário à inclusão da Turquia e do Qatar, dois países apoiantes do Hamas, no Conselho da Paz, o órgão criado por Washington para supervisionar o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, mas que poderá vir a desempenhar outros papéis.A mais recente divergência pública entre ambos resultou da aprovação, no domingo, de medidas pelo governo israelita que amplificam ainda mais o controlo da Cisjordânia. Em particular, prevê-se facilitar o registo de terras e a aquisição de propriedades naquele território ocupado por parte de judeus, de forma a expandir os colonatos. Além disso, Telavive riscou mais uma peça dos acordos de Oslo. Estes, assinados em 1993, dividiam a Cisjordânia em três níveis de controlo (zona A para a Autoridade Palestiniana, zona B sob tutela de segurança de Israel, zona C sob autoridade total de Israel). A administração israelita poderá agora intervir nas zonas A e B nos domínios da arqueologia e do ambiente, o que na prática irá permitir limitar as construções palestinianas e demolir habitações. O ministro das Finanças israelita Bezalel Smotrich regozijou-se com a ideia de este plano “matar a ideia de um Estado palestiniano”. A ONG israelita Peace Now disse que “esta medida dará a um pequeno número de colonos o poder de determinar as realidades políticas no terreno sem intervenção do governo”. Muitos países muçulmanos, mas também a União Europeia e o Reino Unido de pronto condenaram a ideia. Na segunda-feira, a Casa Branca juntou-se ao coro. “O presidente Trump afirmou claramente que não apoia a anexação da Cisjordânia por Israel”, foi a declaração de um funcionário da Casa Branca a jornalistas. “Uma Cisjordânia estável mantém Israel seguro e está em linha com o objetivo desta administração de alcançar a paz na região”, concluiu.. A Cisjordânia e Gaza também devem fazer parte da reunião à porta fechada entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro israelita. O primeiro como presidente do Conselho da Paz, o segundo como integrante daquele órgão, ambos poderiam encontrar-se na sua primeira reunião, agendada para a próxima semana. Mas se para Netanyahu a ideia de se sentar à mesma mesa de alguns dos integrantes do Conselho da Paz já era indigerível, mais será quando as eleições parlamentares se aproximam. Além disso, a segunda fase do plano de paz, que assenta na reconstrução, governança e desmilitarização do enclave, depende desta última. Nem o Hamas perdeu o seu braço armado, nem Israel deu sinais de começar a sair de forma gradual do território. O ministro da Defesa Israel Katz disse que, caso o grupo islamista não concorde em desarmar, o seu país está “determinado” a fazê-lo e, de caminho, ameaçou “desmantelar” o Hamas. Segundo o Times of Israel, o Comando do Sul das forças israelitas planeou nas últimas semanas uma série de operações militares com esse objetivo. .Um confronto profundamente perigoso e complexo: os EUA e o Irão