O espaço aéreo em torno de Taiwan registou, nas últimas duas semanas, um período de calmaria sem paralelo desde que há registos. Durante 13 dias consecutivos, o Exército de Libertação Popular (PLA) da China interrompeu as suas habituais incursões na Zona de Identificação de Defesa Aérea (ADIZ) da ilha, quebrando um ciclo de pressão militar que se tinha tornado quase diário e rotineiro.Esta interrupção, que segundo a CNN surpreendeu analistas internacionais, terminou esta quinta-feira, 12 de março. De acordo com o Ministério da Defesa Nacional de Taiwan, neste dia foram detetadas cinco aeronaves e seis navios militares chineses a operar nas proximidades do território. Mas o interregno de quase duas semanas constitui o hiato mais longo desde que Taipé iniciou a publicação sistemática de dados sobre estas movimentações, em setembro de 2020.Para a comunidade de defesa, a ausência de atividade aérea chinesa representa uma enorme anomalia estatística. Ben Lewis, analista de defesa e fundador do portal de monitorização PLATracker, descreveu mesmo o fenómeno como "sem precedentes", sublinhando que as incursões têm servido historicamente tanto para o treino de pilotos como para exercer coação psicológica e diplomática sobre o governo de Taiwan. A suspensão total de voos durante 13 dias foge ao padrão de agressividade crescente que Pequim tem demonstrado na região.Perante o silêncio oficial do governo chinês, os especialistas dividem-se em várias frentes de análise para explicar o súbito recuo. Uma das hipóteses mais pragmáticas, segundo a CNN, aponta para questões de ordem logística e operacional, sugerindo que o PLA poderá ter aproveitado o período para realizar manutenção profunda e simultânea de uma fatia considerável da sua frota. Também não se descarta que condições meteorológicas adversas em bases costeiras específicas tenham condicionado as operações de descolagem.Numa vertente mais política, a pausa é interpretada por alguns observadores ouvidos pelo canal norte-americano como uma possível manobra de sinalização diplomática discreta, servindo como um "teste" para avaliar a reação de Taipé e dos seus aliados internacionais perante a ausência de pressão direta. Existe ainda a possibilidade de Pequim estar a preparar uma mudança tática a longo prazo, substituindo o assédio diário por operações de maior envergadura e complexidade, embora menos frequentes, com o intuito de manter o fator surpresa.Apesar deste período de silêncio, as forças armadas de Taiwan mantêm um estado de prontidão elevado. As autoridades de Taipé reiteraram que a estabilidade regional depende da manutenção do status quo e que os sistemas de defesa antiaérea continuam a monitorizar qualquer atividade que cruze a linha média do Estreito -- uma fronteira informal que separa as duas partes e cuja integridade é considerada fundamental para a segurança do comércio global.