Friedrich Merz quer proibir a prática, permitida desde o início da pandemia de covid-19, que permite aos alemães obter uma justificação médica de cinco dias com o salário completo, bastando para tal um telefonema para um consultório.O partido do chanceler, a União Democrata Cristã (CDU), votou unanimemente a favor do fim desta prática numa conferência partidária, tendo o líder do Governo afirmado que o absentismo, em crescimento no país, prejudica a economia.Caso a proposta da CDU seja aprovada, os trabalhadores germânicos terão de se deslocar a um consultório médico antes de serem considerados inaptos para o trabalho.Os alemães tiram, em média, 15 a 19 dias de baixa por ano. No entender da CDU, os trabalhadores são mais propensos a tomar a decisão de faltar ao trabalho por motivo de doença se for fácil obter um atestado.A Alemanha possui um dos sistemas de bem-estar social mais generosos do mundo, permitindo até 41 dias de licença remunerada pelos empregadores antes de as seguradoras começarem a pagar.Em comparação, Portugal, que tem um regime menos "generoso", fica abaixo da Alemanha em números de absentiso, com uma média que ronda os 7 a 9 dias de 'autobaixa', até porque esta pode ser solicitada apenas duas vezes por ano, e no máximo até três dias não-remunerados. Mas os números no nosso país também não deixam de ser impressionantes: segundo dados mais recentes, de 1 de maio de 2023 a 31 de dezembro de 2025, foram emitidas 1.266.354 Autodecarações de Doença. Só no ano passado, quase 540 mil, mais 77 mil do que em 2024 - uma média de aproximadamente 1480 autobaixas por dia. Um custo de 82 mil milhõesO Instituto de Economia alemão estimou que as baixas médicas custam aos empregadores alemães 82 mil milhões de euros por ano.A CDU entende que a economia alemã não pode suportar os custos atuais das baixas, dado que o crescimento económico está estagnado desde 2017 e o PIB cresceu apenas 0,3% em 2025, segundo dados recentes. "Todos nós precisamos de alcançar juntos um nível de produção económica superior ao que estamos a alcançar atualmente", afirmou o chanceler, que questionou se eram realmente necessários tantos dias de baixa médica.Contudo, a intenção do partido de Merz pode esbarrar na tensa e fragmentada coligação governamental, uma vez que os outros partidos que a compõe discordam da medida. Christos Pantazis, porta-voz da área da saúde dos parceiros sociais-democratas da CDU, frisou que a emissão de atestados médicos por telefone alivia a carga sobre os consultórios dos médicos de clínica geral e protege os doentes de riscos desnecessários de infeção. Já Yasmin Fahimi, dirigente da Confederação Alemã de Sindicatos, considerou "altamente indecente colocar os funcionários que telefonaram a dizer que estavam doentes sob suspeita generalizada, como se fossem negligentes e preguiçosos".Os líderes da área da saúde também estão divididos sobre o assunto. O presidente de uma associação médica concorda que o sistema "incentiva os abusos", enquanto outro falou em "ilusão dos empregadores".Já o presidente da seguradora Allianz alertou recentemente que a Alemanha corre o risco de voltar a ser o “país doente da Europa”. "Quando o absentismo na Alemanha chega a ser o dobro do de outros países europeus, isso tem consequências para os negócios", argumentou, por sua vez, o presidente da Mercedes-Benz, Ola Kallenius.Os empregadores têm recorrido até a detetives privados para ajudar a expor pessoas que possam estar a tirar partido das políticas pouco fiscalizadas de baixa médica na Alemanha.Estamos a ser cada vez mais contactados por empregadores que suspeitam que um funcionário está a faltar ao trabalho repetidamente ou por longos períodos, alegando estar doente, enquanto trabalha simultaneamente para a concorrência ou desenvolve projetos privados”, disse Paul Katz, um detetive privado, disse à emissora Rbb.O número de dias de baixa por motivos de saúde mental é apontado como um dos princiais fatores que impulsionam as elevadas taxas de absentismo, assim como o envelhecimento da força de trabalho alemã, as mudanças comportamentais desde a pandemia e a escassez de mão-de-obra. .Em 2025, portugueses entregaram cerca de 1470 autodeclarações de doença por dia