O chefe das Forças Armadas do Paquistão foi recebido em Teerão para entregar uma mensagem dos Estados Unidos de forma a materializar o interesse manifestado pelas duas partes em voltar à mesa de negociações. Mas, segundo a Al Jazeera, a deslocação do poderoso marechal à capital iraniana está sobretudo relacionada com um possível avanço no tema que separa — para já — as duas partes, o programa nuclear. Em Washington, a ideia subscrita pelo secretário-geral das Nações Unidas de prolongar o cessar-fogo não foi aceite, mas também não foi rejeitada, embora o presidente tenha afirmado que tal não será necessário. “Penso que vão presenciar dois dias incríveis”, disse Donald Trump à ABC News. Em Israel, o gabinete de segurança do primeiro-ministro reuniu-se para discutir a hipótese de um cessar-fogo com o Líbano, enquanto os militares disseram ter aprovado planos para continuar a guerra quer no Irão, quer no Líbano. Em confirmação das indicações dadas na véspera por vários intervenientes, os Estados Unidos e o Irão concordaram na quarta-feira sobre o princípio de um novo encontro. Data e local ainda estaria por definir antes da delegação paquistanesa aterrar no Irão, segundo o Wall Street Journal. Mais tarde, a Sky News avançou com o “provável” regresso das negociações a Islamabad na próxima semana. Na mala do marechal Asim Munir estava uma mensagem dos Estados Unidos e a preparação de um segundo ciclo de negociações, segundo os meios de comunicação iranianos. Munir reuniu-se com o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi. A explicação de uma fonte da Al Jazeera para uma rara deslocação pública ao estrangeiro do militar reside na hipótese de um avanço significativo na frente nuclear. Durante as negociações de 21 horas protagonizadas pelo vice-presidente dos EUA J.D. Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano Bagher Ghalibaf, a parte norte-americana terá exigido o congelamento do programa nuclear iraniano por 20 anos, ao que terá havido uma contraproposta de suspensão de até cinco anos, o que foi rejeitado. De acordo com o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmail Baghaei, o seu país está aberto a discutir o tipo e o nível do enriquecimento de urânio, mas que, “com base nas suas necessidades, deve ser capaz de continuar o enriquecimento”. Essa ideia foi defendida com unhas e dentes pelo chefe da diplomacia da Rússia. Em visita a Pequim, Sergei Lavrov declarou que “o enriquecimento de urânio para fins civis é um direito inalienável da República Islâmica do Irão”. O ministro disse ainda que Moscovo aceita qualquer decisão de Teerão, seja “uma pausa”, seja “insistir em preservar este direito” durante as negociações com os Estados Unidos, desde que “baseada no princípio da universalidade do direito ao enriquecimento”. A decisão afeta diretamente os interesses russos. Nos últimos dias, a empresa Rosatom retirou da central nuclear de Busheshr — construída pela Rússia — cerca de 100 funcionários..Nova ronda de negociações a caminho um dia após início do bloqueio naval.O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) aproveitou para dar o seu parecer sobre o tema. Para o argentino Rafael Grossi, um acordo que mantenha o programa nuclear iraniano terá de incluir medidas “muito pormenorizadas” para inspecionar as atividades. “O Irão tem um programa nuclear muito ambicioso e abrangente, pelo que tudo isso exigirá a presença de inspetores da AIEA. Caso contrário, não haverá um acordo. Será apenas a ilusão de um acordo”, disse Grossi em Seul. Segundo um relatório confidencial distribuído aos estados-membros da agência da ONU, o Irão não permitiu o acesso da AIEA às suas instalações nucleares bombardeadas por Israel e pelos EUA em junho passado, segundo a Associated Press. À mesma agência, fontes envolvidas nos esforços de mediação afirmaram estar a trabalhar num compromisso para os três principais pontos em disputa: o programa nuclear, o estreito de Ormuz e as compensações de guerra. Disseram também estar a trabalhar na extensão do cessar-fogo por pelo menos mais duas semanas, tendo ambos os lados concordado em princípio com a ideia. O cessar-fogo deverá expirar no dia 22 e Trump disse à ABC News não estar nos seus planos que este seja prorrogado. Isto porque crê que até lá se chegue a um acordo. Noutra frente da diplomacia do Paquistão, o primeiro-ministro Shehbaz Sharif viajou para a Arábia Saudita, primeira paragem de uma iniciativa que o vai levar também ao Qatar e Turquia para assegurar uma nova ronda de negociações entre os Estados Unidos e o Irão. O Paquistão e a Arábia Saudita assinaram no ano passado um acordo mútuo de defesa, o que de alguma forma pode limitar o raio de ação diplomática enquanto mediador — o Irão retaliou contra o reino da Casa de Saud e há dias Islamabad enviou uma força militar que inclui aviões de caça para uma base aérea saudita.Não aos punhos cerradosNa Turquia, o seu presidente fez um apelo para o reatar do diálogo. “As negociações não podem ser conduzidas com os punhos cerrados. Não se deve permitir que as armas voltem a falar em vez das palavras”, disse Recep Tayyip Erdogan, enquanto advertiu para o alegado papel desestabilizador de Israel. “O governo israelita, que é conhecido por estar descontente com o cessar-fogo, não deve ser autorizado a sabotar o processo.”Noutro processo que envolve Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reuniu o gabinete de segurança — uma reunião que inclui ministros e outras figuras como o procurador-geral ou o diretor do Conselho de Segurança Nacional — para avaliar a hipótese de um cessar-fogo com o Líbano, um dia depois da reunião entre embaixadores em Washington. Segundo o Canal 12 israelita, a administração Trump estão a exercer pressão nesse sentido, até para melhorar o quadro de negociações entre EUA e Irão. “A nossa avaliação é que, dentro de poucos dias, não teremos outra opção senão o cessar-fogo total no Líbano”, disse um político àquele canal, citado pelo Times of Israel.À margemEUA enviam militaresOs Estados Unidos preparam-se para reforçar nos próximos dias o seu contigente no Médio Oriente com mais de 10 mil militares, segundo o Washington Post. Pelo menos 6 mil militares viajam a bordo do porta-aviões USS George H.W. Bush e dos demais navios de guerra que o acompanham, enquanto outros 4200 seguem em três navios do grupo anfíbio Boxer, incluindo um batalhão de infantaria dos Marines. Irão usa satélite chinês A Força Aeroespacial dos Guardas da Revolução está a usar um satélite chinês, adquirido em segredo em 2024, para vigiar as bases militares dos EUA no Médio Oriente. A informação foi publicada pelo Financial Times.Starmer inflexívelO primeiro-ministro britânico reafirmou perante os deputados que o seu país não participará na guerra contra o Irão, depois de novas críticas e a sugestão de Trump de que o acordo comercial bilateral poderá ser posto em causa. “Não é a nossa guerra, e sofri muita pressão para tomar um rumo diferente (...) Não vou ceder”, disse Keir Starmer. Socorristas alvejados O Ministério da Saúde do Líbano acusou Israel de ter alvejado por três vezes consecutivas socorristas em missão de salvamento na região de Nabatieh, no sul do Líbano, tendo matado quatro e ferido seis. Pelo menos 2167 pessoas, entre as quais 120 crianças, morreram no Líbano desde 2 de março, vítimas dos ataques de Israel. Registam-se ainda mais de 7 mil feridos. Face aos continuados ataques a zonas residenciais, Beirute apresentou uma queixa na ONU.