Macron prossegue política de estender a mão aos "adversários políticos"

Depois de ter reunido com o príncipe saudita bin Salman, presidente francês encontra-se com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Mas desta vez também se encontrou com os opositores do nacionalista magiar.

A presidência rotativa do Conselho da União Europeia está à porta, decorria uma cimeira do grupo de Visegrado (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria) e as eleições presidenciais francesas e legislativas húngaras decorrem em abril. Tudo somado, o europeísta e centrista Emmanuel Macron viu numa visita a Budapeste - a primeira de um presidente francês em 14 anos - uma ocasião onde haveria mais a ganhar do que a perder, ainda que tendo na agenda um encontro com o nacionalista Viktor Orbán. A mesma lógica que o levou há dias a apertar a mão ao príncipe saudita Mohammed bin Salman, ostracizado pelos Estados Unidos na sequência do assassínio de Jamal Khashoggi.

Também com Viktor Orbán foi trocado um vigoroso aperto de mão. "Temos divergências políticas que são conhecidas, mas temos a vontade de trabalhar em conjunto pela Europa e de sermos parceiros leais", disse o chefe de Estado francês após o cumprimento. "Adversários políticos e parceiros europeus ao mesmo tempo: aceitamos a definição de França, lar dos enciclopedistas", disse depois Orbán, que se referiu a "uma relação marcada pelo respeito".

Essa parceria e respeito traduziram-se, na prática, no agradecimento de Macron pela participação húngara na missão militar europeia Takuba, no Sahel, que sucede à operação francesa Barkhane. Mas também a um campo comum em temas europeus. Orbán destacou a política de defesa europeia comum, a energia nuclear, e a agricultura. "Concordaremos certamente em três coisas: primeiro, que ambos amamos os nossos países; segundo, que estamos ambos a trabalhar para tornar a Europa mais forte; e por fim também concordamos que a Europa precisa de autonomia estratégica", disse o primeiro-ministro húngaro. Ambos já tinham mostrado coincidência de pontos de vista antes, na política de proteção das fronteiras e na defesa da UE, quando Orbán visitou o Eliseu em 2019.

É com redobrada ambição que Macron vê a presidência do Conselho da UE, num espaço que perdeu o peso da mais antiga governante em funções, Angela Merkel, e no qual este quererá tirar dividendos eleitorais. Entre os temas referidos por Orbán, já se sabe que a "autonomia estratégica" em relação aos Estados Unidos é um ponto crucial na política do chefe de Estado francês. Uma autonomia que terá como meta uma "soberania europeia" baseada na defesa, na proteção das fronteiras, nas relações internacionais, mas também na economia, na transição digital e no ambiente.

Na energia nuclear, Macron ambiciona manter esta fonte energética e pressionar Bruxelas a aceitá-la como limpa para as contas das metas da descarbonização. Ambas as propostas são bem-vindas em Budapeste, até porque o governo húngaro autorizou a construção de dois novos reatores.

Macron levou na mala outros temas, sendo o da imigração outro que terá o apoio da Hungria. O francês quer reformar o direito de asilo e em especial reforçar os controlos fronteiriços europeus.

Ao encontrar-se com o homem forte da Hungria, o antigo ministro da Economia de François Hollande segue os passos de Marine Le Pen e de Éric Zemmour, os candidatos da extrema-direita. Uma abordagem arriscada, tendo em conta que os tiques autoritários e extremistas de Orbán não serão um ponto a favor para o eleitor moderado, que poderá identificar-se mais com o desprezo a que foi votado recentemente por Joe Biden, ao deixar a Hungria de fora da recente cimeira da democracia. Mas, por outro lado, os eleitores franceses são sensíveis às questões da soberania e da imigração.

A visita, que coincide com a cimeira de Visegrado, esteve longe de se resumir ao encontro com os chefes de governo dos países do leste europeu. Emmanuel Macron deu muitos outros sinais, a começar pela primeira visita: ao cemitério judaico, onde foi prestar homenagem à filósofa Agnes Heller, opositora de Orbán morta há dois anos, e com a qual tivera uma audiência. Além da reunião institucional com o presidente Janos Ader, Macron reuniu-se com o presidente da câmara da capital, o liberal Gergely Karacsony, e com Peter Marki-Zay, o candidato único da oposição nas eleições de abril.

Estratégia sob críticas

Do outro lado, "Viktor Orbán pode demonstrar a sua importância europeia" muito além do peso do seu país de 9,8 milhões de habitantes, disse à AFP a cientista política húngara Eszter Petronella Soos.

No início do mês a sua visita ao Golfo Pérsico também foi alvo de críticas. Depois de ter selado a venda de 80 aviões de caça Rafale aos Emirados, e passado pelo Qatar, o presidente francês foi a Jidá encontrar-se com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, tornando-se num dos primeiros líderes ocidentais a fazê-lo após a revelação da liquidação do opositor Jamal Kashoggi. Macron insistiu que não tinha esquecido o sucedido, e que era impossível ignorar os sauditas. "Quem pode pensar por um segundo que podemos ajudar o Líbano e preservar a paz e estabilidade no Médio Oriente se dissermos: 'Não vamos falar com a Arábia Saudita, o país mais populoso e mais poderoso do Golfo'?"

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG