"Estamos a viver um momento decisivo para a Ucrânia e para a segurança europeia”, escreveu António Costa no X a 23 de fevereiro - no rescaldo das primeiras reuniões de alto nível entre Rússia e Estados Unidos e que levantaram preocupações quanto à possibilidade de serem celebrados acordos de paz sem a participação de Kiev -, anunciando que iria convocar um Conselho Europeu especial dedicado à Defesa europeia e à Ucrânia. Este realiza-se esta quinta-feira, em Bruxelas, e contará com a participação de Volodymyr Zelensky.As discussões em torno da segurança e defesa europeias têm vindo a suceder-se desde a invasão russa da Ucrânia, mas o regresso de Donald Trump ao poder deu uma nova urgência a este tema e à necessidade de passar das palavras à ação. O presidente francês, Emmanuel Macron, tem defendido que é preciso “um incrível despertar” por parte da Europa, enquanto que o conservador Friedrich Merz, presumível próximo chanceler da Alemanha, alertou logo na noite das eleições que a Europa está a “cinco minutos da meia noite” e que deve agir rapidamente para aumentar a sua capacidade de defesa face a uma Casa Branca com o lema “a América sozinha”.De acordo com informações do Conselho Europeu, na reunião extraordinária desta quinta-feira os líderes dos 27 “debaterão a forma como a UE pode continuar a apoiar a Ucrânia e os princípios que devem ser respeitados no futuro”, o que envolverá discussões sobre “as contribuições europeias para as garantias de segurança necessárias para assegurar uma paz duradoura”. Um debate que contará com os entraves a uma posição comum do grupo de líderes pró-russos encabeçados pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e entre os quais está também o líder do governo da Eslováquia, Robert Fico. Para tentar amenizar as discussões previstas para esta quinta-feira em Bruxelas, Macron jantou esta quarta-feira em Paris com Orbán, esperando-se para ver se o francês foi bem sucedido.“A UE e os seus Estados-membros estão dispostos a assumir uma maior responsabilidade pela segurança da Europa. Por conseguinte, devemos estar preparados para uma eventual contribuição europeia para as garantias de segurança que serão necessárias para assegurar uma paz duradoura na Ucrânia”, notou António Costa na carta-convite para a reunião desta quinta-feira que enviou aos líderes dos 27.Volodymyr Zelensky afirmou esta quarta-feira que “muito trabalho internacional” tinha sido feito durante o dia, o que incluiu conversas com os líderes dos Países Baixos, Portugal, Eslovénia e Alemanha. “Obrigado por todo o apoio”, afirmou o presidente ucraniano, adiantando ainda que estava a preparar a sua intervenção no Conselho Europeu especial. “Todos podem ver a rapidez com que os acontecimentos diplomáticos se estão a desenrolar”, escreveu no X.Uma era de rearmamentoMas um dos primeiros temas a ser discutido é o plano apresentado na terça-feira por Ursula von der Leyen que pretende desbloquear cerca de 800 mil milhões de euros adicionais de gastos em Defesa nos próximos anos e que inclui 150 mil milhões de empréstimos aos governos dos 27 para “gastarem melhor e gastarem em conjunto” em domínios como “defesa aérea e antimísseis, sistemas de artilharia, mísseis e munições, drones e sistemas anti-drone; mas também para responder a outras necessidades, desde a cibernética à mobilidade militar, por exemplo”. Paralelamente, Bruxelas compromete-se a libertar a utilização do financiamento público da Defesa a nível nacional, com a ativação da cláusula de salvaguarda nacional do Pacto de Estabilidade e Crescimento, o que permitirá aos 27 aumentar significativamente estas despesas sem acionar o procedimento relativo aos défices excessivos.Dados oficiais mostram que, entre 2021 e 2024, a despesa total dos Estados-membros com a Defesa aumentou mais de 30%, ascendendo a um valor estimado de 326 mil milhões de euros, o que representa cerca de 1,9% do PIB da UE.“Estamos a viver os tempos mais importantes e perigosos. Não preciso de descrever a natureza grave das ameaças que enfrentamos. Ou as consequências devastadoras que teremos de suportar se essas ameaças se concretizarem”, sublinhou a presidente da Comissão Europeia na terça-feira, notando que a resposta que tem recebido nas últimas semanas dos 27 é que “estamos numa era de rearmamento”.O primeiro grande sinal positivo quanto à implementação deste plano europeu veio da sua maior economia, a Alemanha. Na terça-feira à noite, CDU e SPD, no âmbito das suas negociações para uma coligação governamental, chegaram a um acordo para tentar reduzir o travão da dívida, que é de 0,35% do PIB e está inscrito na Constituição, e assim permitir maiores gastos em Defesa. Esta proposta será apresentada ao Parlamento alemão na próxima semana. “Tendo em conta a situação de ameaça crescente, é claro para nós que a Europa - e com a Europa, a República Federal da Alemanha - deve agora, muito rapidamente, fazer grandes esforços para reforçar a capacidade de defesa do nosso país e do continente europeu”, explicou Merz na terça-feira, citando “as decisões mais recentes do governo americano” como um dos fatores para esta decisão, mas sem dar mais pormenores. De Paris, a outra grande potência europeia, veio também um sinal claro, com Emmanuel Macron a garantir na quarta-feira à noite que, no setor da defesa, “teremos de fazer investimentos adicionais sem aumentar os impostos”. “A nossa capacidade de dissuasão nuclear ajuda-nos”, prosseguiu Macron, acrescentando que vai abrir o debate sobre o alargamento do “guarda-chuva” nuclear francês aos parceiros europeus.“Estamos a entrar numa nova era”, afirmou o presidente francês numa declaração ao país, referindo que França fez a “escolha certa” ao apoiar a Ucrânia nos últimos três anos. “Não é apenas o povo da Ucrânia que está a lutar pela sua liberdade. É também a nossa segurança que está ameaçada. Se um país pode invadir o seu vizinho na Europa e ficar impune, a paz já não pode ser garantida no nosso continente”.Macron declarou também que a paz na Ucrânia “pode exigir o envio de forças europeias” para o país, que “não iriam combater na linha da frente, mas estariam lá, depois de a paz ter sido assinada, para garantir que é plenamente respeitada”. E anunciou a convocação de uma reunião em Paris, na próxima semana, com “os chefes de Estado-Maior dos países que desejem assumir as suas responsabilidades nesta matéria”. “Quero acreditar que os EUA estarão ao nosso lado, mas temos de estar preparados para que não seja esse o caso”.De volta às negociaçõesA Ucrânia e os Estados Unidos concordaram em continuar as negociações “num futuro próximo”, informou esta quarta-feira o chefe de gabinete da presidência ucraniana, Andriy Yermak, após um telefonema com o conselheiro de Segurança Nacional norte-americano, Mike Waltz. Segundo Yermak, os dois “discutiram novas medidas para alcançar uma paz justa e duradoura” na Ucrânia, acrescentando que concordaram “que as equipas se reunirão num futuro próximo para continuar este importante trabalho”. Uma informação depois confirmada por Volodymyr Zelensky, ao declarar que se registou uma “evolução positiva” nas relações com os Estados Unidos, o que poderá levar a uma nova reunião entre as duas partes em breve, possivelmente na próxima semana.Dos Estados Unidos, menos de 48 horas depois da suspensão da ajuda militar, veio também a notícia de que Washington decidiu também interromper a partilha de algumas informações com Kiev, como parte de uma estratégia de pressão da Casa Branca para obrigar a Ucrânia a negociar com a Rússia. Sobre este tema, a porta-voz da Casa Branca disse ontem ter sido informada pelo Conselho de Segurança Nacional que “fizeram uma pausa ou estão a reconsiderar o financiamento para a Ucrânia”. Karoline Leavitt considerou ainda um “passo positivo” a declaração de Zelensky de que Kiev está “pronta a sentar-se à mesa das negociações o mais rapidamente possível”. .Ucrânia: Pelo menos quatro mortos em ataques russos com mísseis durante a noite