Lula da Silva promete "o melhor mandato da história" e agradece aos jovens
Lula da Silva, que completa 81 anos na terça-feira, foi reeleito presidente da República do Brasil e vai exercer a chefia de estado do quinto maior país do mundo pelo quarto mandato, segundo consecutivo. Foi a primeira vez que um candidato batido no primeiro turno conseguiu virar o jogo no segundo: o histórico líder brasileiro sul-americano e mundial de esquerda somou mais cinco milhões de votos do que dia 4 de outubro.
Horas depois da confirmação da vitória, Lula agradeceu primeiro ao vice-presidente Geraldo Alckmin, aos coordenadores de campanha e ao povo brasileiro “pela generosidade, sobretudo aos jovens e aos idosos”. “Estas eleições me ensinaram muitas lições, vamos mudar a forma de governar este país, com mais participação do povo e mais acesso ao mundo digital”, continuou. "Vou dedicar 24 horas por dia para fazer deste país o país que todos sonham, o melhor mandato da história".
“A partir do momento em que ganhamos as eleições já não temos mais adversários, tenho que governar para 215 milhões de brasileiros”.
Lula falou ainda em respeito pelas mulheres e pelas religiões e em aposta na educação. Criticou o rival, “representante do milicianismo desse país”, e o “crime no mundo digital porque não podemos ter empresas ganhando milhões tentando direcionar o resultado eleitoral”. Sobre o Congresso, disse que “foi o povo brasileiro que o elegeu, é com ele que eu vou trabalhar”. “Não vou concorrer mais nenhum vez mas vou acabar o mandato inteiraço e a correr mais do que vocês”.
No total, foram 64,241 milhões de votos para Lula – mais quase 11 milhões do que no primeiro turno – contra 59,818 de Flávio – mais cerca de 3,5 milhões do que há três semanas. A abstenção, um dos alvos do PT para virar a eleição, caiu para 19,22%, o número mais baixo em 20 anos.
Numa das eleições mais apertadas da história democrática brasileira, o presidente da República festeja uma vitória conquistada nas ruas – depois de muitos anos, a juventude de esquerda saiu de forma espontânea em manifestações Brasil afora – e nas redes – onde, via ação do deputado especialista em engajamento André Janones, o campo progressista empatou o jogo com o campo conservador.
Desafios
Lula terá agora de enfrentar um Congresso Nacional ainda mais hostil e uma maioria de governos estaduais alinhados à direita – e juros estratosféricos, a oportunidade e os perigos das terras raras, uma posição na disputa entre Washington e Pequim e o combate a PCC e outras organizações na agenda até 2030.
À direita, há quem veja na vitória de Lula o canto do cisne de Flávio, Jair e demais família Bolsonaro no comando da direita brasileira. Nesse caso, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, um ex-ministro visto como técnico e moderado e recém reeleito governador de São Paulo, é o nome natural para unificar o campo.
Em 2030, sem a sombra de Lula como candidato à reeleição – segundo a Constituição, os presidentes só podem se reeleger uma vez –, Tarcísio, 51 anos, despontaria como uma alternativa de centro-direita focada em gestão e economia, atraindo o mercado e a classe média.
Na noite eleitoral, Lula começou na frente as primeiras projeções mas Flávio ultrapassou-o às 19:47 locais, 22:47 em Lisboa, com cerca de 15% das urnas apuradas, e o slogan bolsonarista “Lula ladrão, teu lugar é na prisão” começou a ouvir-se das janelas dos apartamentos. Às 20:25 (23:25 em Lisboa), Lula volta a ficar na frente e é a vez de gritos “Lula, Lula” soarem das varandas dos prédios.
O dia eleitoral
Já a tarde eleitoral ficou marcada pela controvérsia em torno dos ônibus na Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará, Paraná e Rio de Janeiro. Ao início da tarde, o PT denunciou uma redução superior a 50% na oferta de ônibus em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, cidades baianas, apesar de a Justiça Eleitoral ter determinado transporte gratuito e uma operação equivalente à dos dias úteis neste domingo, 25.
Na sequência, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ordenou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento integral da frota, sob pena de multa de um milhão de reais por hora.
A prefeitura soteropolitana, liderada por um bolsonarista como a das outras duas cidades baianas em causa, argumentou que o serviço estava a ser normalizado e justificou as interrupções iniciais com problemas relacionados a veículos que tinham sido adesivados com propaganda eleitoral, o que é proibido.
Em São Paulo, o PT alegou que apenas cerca de 60% da frota municipal estava em circulação, apesar de uma determinação judicial para garantir o serviço integral e gratuito. O partido pediu a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana local também.
A empresa de transportes atribuiu as dificuldades a problemas operacionais na reorganização das escalas de trabalho e das jornadas dos motoristas. O prefeito paulistano, Ricardo Nunes, também é apoiador de Flávio. “É uma coisa abominável, não vamos permitir que haja roubalheira e prefeito bandido”, reagia Lula por volta das 16 horas [20 em Lisboa]”.
Antes, o PT pedira o prolongamento da votação até às 19 horas [01:00 em Lisboa] naqueles estados, solicitação a que Kássio Nunes Marques, o presidente do TSE, não deu seguimento por duas horas, o que obrigou o STF a ter de resolver o caso em cima do horário do fecho das urnas. O juiz Cristiano Zanin, sorteado para decidir, optou pelo prolongamento por duas horas, tendo em conta não apenas as queixas do PT mas também pedidos do PL por atraso de eleitores por causa de chuvas no Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
No entanto, milhares de urnas eletrónicas já tinham sido fechadas, o que gerou caos em muitos colégios eleitorais. Zanin informou posteriormente que a decisão da prorrogação por duas horas só valia para secções de votação ainda abertas.
Denúncias
Em paralelo, circularam nas redes sociais denúncias de cancelamentos em massa de voos que poderiam impedir eleitores de chegar a tempo às urnas, sobretudo em ligações entre o Sul e o Nordeste. A informação, confirmada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) até à tarde deste domingo, era de quatro voos das companhias Gol, Azul e Latam com destino ao Nordeste cancelados entre sábado e domingo:
A Gol atribuiu o cancelamento da ligação Porto Alegre–Salvador a problemas técnicos no avião e afirmou ter reacomodado os passageiros, além de organizar um voo adicional. As companhias Azul e Latam apontaram questões operacionais e condições meteorológicas.
O Ministério de Portos e Aeroportos acionou a ANAC para acompanhar as operações e a agência afirmou não ter identificado uma operação coordenada para prejudicar eleitores no tráfego aéreo nacional.
Como é costume nas eleições no país continental, registaram-se outros incidentes. As chuvas intensas obrigaram a mudar locais de votação em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, e em Curitiba e Guaratuba, no Paraná, estado em que três troços de rodovias federais foram bloqueados devido à acumulação de água, e em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os pontos de que se queixou a campanha de Flávio.
No Rio de Janeiro, cerca de 3000 eleitores de Jardim Sulacap, na zona oeste do Rio, tiveram de votar noutro estabelecimento depois de ser identificada uma infestação de pulgas durante a preparação das urnas.
Entretanto, os dois candidatos votaram de manhã. Flávio Bolsonaro, logo após a abertura das urnas, às 08:20 (12:20 em Lisboa) na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro.
“A esperança virou medo”, afirmou o candidato, referindo-se ao receio de assaltos, à dificuldade de pagar as contas e à possibilidade de faltar comida em casa. Rodeado da mulher, Fernanda, da mãe, Rogéria Nantes Bolsonaro, ela própria com carreira política no Rio de Janeiro, e do governador eleito do estado, Douglas Ruas, classificou a campanha como “alegre e limpa”.
Lula votou cerca de uma hora depois na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, ao lado da primeira-dama, Janja da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de apoiantes como Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet.
Depois de agradecer a mobilização dos seus apoiantes durante a campanha – “disputo eleições desde 1989 e nunca vi nada assim” – afirmou que a disputa era contra a “mentira” e que os brasileiros não aceitariam um “miliciano” no Palácio do Planalto.
Num balanço parcial, o TSE divulgou que 114 urnas eletrónicas tinham sido substituídas por problemas técnicos, num universo de 114.605 equipamentos preparados para a votação. Em Valinhos, estado de São Paulo, um eleitor foi levado à esquadra por utilizar um telemóvel na cabine, prática proibida.
Campanha acirrada
No primeiro turno, a 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de cerca de 2,23 milhões de votos, insuficiente para evitar a segunda volta, mas dando ao candidato do PL um impulso político para a fase decisiva da campanha.
Na sequência, o candidato do PL recebeu o apoio de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e candidato do PSD na primeira volta, e de Romeu Zema, antigo governador de Minas Gerais e candidato do Novo. Mais tarde, Augusto Cury, do Avante, também assumiu voto em Flávio.
Finalmente, os partidos de centro-direita e do chamado centrão, com vista a construir uma base parlamentar para um eventual governo, também se aliaram à candidatura do filho de Jair Bolsonaro.
Lula, por sua vez, procurou mobilizar os eleitores de esquerda, os movimentos sociais e os setores democráticos que receavam uma vitória do bolsonarismo. A campanha reforçou a comunicação digital e procurou apresentar a eleição como uma escolha entre dois projetos políticos para o futuro do país.
Para tanto, fez uma ofensiva nas redes sociais, em torno de um canal de Whatsapp chamado “Exército do Lula”, associado ao deputado André Janones, para influenciar a circulação de conteúdos nas plataformas digitais.
Flávio procurou contrariar a iniciativa com a «Tropa do Flávio», numa disputa que chegou ao TSE. Os candidatos disputaram dois debates televisivos, na TV Bandeirantes e na TV Globo, e intensificaram atos nas ruas. Esta foi a 10ª eleição desde a redemocratização em 1989, a oitava decidida em segunda volta.

