Thomas Pritzker afastou-se dos comandos do grupo hoteleiro, dizendo que "uma boa gestão significa também proteger a Hyatt".
Thomas Pritzker afastou-se dos comandos do grupo hoteleiro, dizendo que "uma boa gestão significa também proteger a Hyatt".D.R. / LinkedIn

Líder dos hotéis Hyatt demite-se por ligações a Jeffrey Epstein

Thomas Pritzker renuncia à presidência da cadeia hoteleira após admitir contactos com o predador sexual americano. A saída ocorre no âmbito da divulgação de novos documentos sobre a rede.
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O presidente executivo do grupo hoteleiro Hyatt foi a mais recente cabeça a rolar devido a ligações mantidas com o predador sexual Epstein, que se suicidou na cadeia em 2019. Thomas Pritzker anunciou nesta segunda-feira, 16 de fevereiro, de acordo com uma notícia veiculada pela agência Reuters, a sua renúncia ao cargo, reconhecendo ter demonstrado um "péssimo discernimento" ao manter contactos com o casal Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell.

A decisão marca o fim de uma era na liderança da gigante hoteleira numa altura em que as ramificações do Caso Epstein continuam a atingir figuras de destaque no mundo dos negócios e da política.

Numa carta enviada ao conselho de administração da empresa, Pritzker, de 75 anos, confirmou que não irá procurar a reeleição para o conselho em 2026. "Uma boa gestão também significa proteger a Hyatt, particularmente no contexto da minha associação com Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, da qual me arrependo profundamente", afirmou o executivo em comunicado. "Exerci um péssimo discernimento ao manter contacto com eles, e não há desculpa para não me ter distanciado mais cedo."

Um legado manchado por ligações polémicas

Pritzker assumiu a presidência executiva da Hyatt em 2004. Durante o seu mandato, foi responsável por marcos significativos na história da companhia, incluindo a entrada em bolsa (IPO), a transição para uma estratégia de gestão de ativos (asset-light) e a navegação da empresa durante a crise global da pandemia de covid-19.

No entanto, a sua permanência tornou-se insustentável à medida que novos detalhes sobre a rede de contactos de Epstein surgiram. O Departamento de Justiça dos EUA libertou recentemente milhões de documentos internos que expuseram a proximidade de Epstein a diversas personalidades proeminentes nas áreas das finanças, academia e política — ligações que persistiram mesmo após Epstein se ter declarado culpado de acusações de prostituição em 2008.

O contexto do caso Epstein

Os indícios recolhidos em múltiplos processos judiciais têm lançado luz sobre como Epstein utilizava a sua rede de contactos para manter a sua influência.

Nos Estados Unidos, as repercussões do caso Epstein já tinham provocado consequências significativas anos antes, atingindo várias figuras de destaque. Entre elas, o investidor Leon Black, que se demitiu da presidência da Apollo Global Management após uma investigação interna revelar pagamentos substanciais a Epstein; o banqueiro Jes Staley, afastado do Barclays e posteriormente banido pela autoridade reguladora britânica devido à forma como descreveu a sua relação com o financeiro; e o gestor Glenn Dubin, que abandonou conselhos e fundações após o seu nome surgir repetidamente em documentos judiciais.

Também o ex‑governador e diplomata Bill Richardson se retirou de várias organizações antes de morrer, enquanto o ex‑senador George Mitchell se afastou discretamente da vida pública à medida que o escrutínio aumentava. Estas figuras norte‑americanas constituíram a primeira vaga de consequências públicas associadas ao caso, muito antes de a atenção mediática se virar para a Europa.

Nos últimos meses, também Bill e Hillary Clinton voltaram a ser mencionados na cobertura mediática sobre o Caso Epstein, sobretudo após a divulgação de novos documentos judiciais e agendas que voltaram a colocar o ex‑presidente norte‑americano entre as figuras públicas que mantiveram contactos sociais com o financista ao longo dos anos 2000. Bill Clinton já tinha reconhecido viagens em aviões associados a Epstein para iniciativas filantrópicas, mas negou qualquer envolvimento indevido; ainda assim, a reaparição do seu nome nos ficheiros recentemente tornados públicos reacendeu o escrutínio mediático.

Hillary Clinton, por sua vez, foi citada apenas de forma indireta, surgindo nas notícias por associação ao impacto político e reputacional que estas revelações têm tido no círculo próximo da família. Nenhum dos dois enfrentou consequências formais, mas a sua presença na nova vaga de documentos contribuiu para reforçar a perceção de que o caso continua a ter ramificações políticas de grande alcance.

Se do lado de lá do Atlântico o caso Epstein já tinha provocado, ao longo dos últimos anos, a queda de figuras de peso no setor financeiro e político, a vaga mais recente tem atingido sobretudo a Europa, onde as consequências se tornaram particularmente visíveis. Desde diplomatas de topo a membros de famílias reais, passando por ex‑primeiros‑ministros e altos responsáveis internacionais — como Peter Mandelson, o príncipe André, a princesa Mette‑Marit, Terje Rød‑Larsen, Mona Juul, Thorbjørn Jagland, Børge Brende, Jean‑Luc Brunel e Ehud Barak — , , as revelações sucessivas têm desencadeado demissões, afastamentos e pedidos públicos de desculpa. Na prática, as “cabeças” não têm parado de rolar.

Jeffrey Epstein foi detido novamente em 2019 por acusações federais de tráfico sexual de menores, acabando por morrer numa cela em Manhattan nesse mesmo ano, num caso declarado como suicídio pela medicina legal.

A demissão de Pritzker é mais um exemplo das repercussões corporativas que continuam a surgir anos após a morte de Epstein, à medida que empresas e líderes são forçados a prestar contas pelas suas associações históricas com o falecido financeiro.

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