Khamenei morto por Israel. Golpe de mestre ou sucesso fácil?
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Khamenei morto por Israel. Golpe de mestre ou sucesso fácil?

Segundo meios de comunicação israelitas, uma fotografia do corpo foi mostrada aBenjamin Netanyahu e a Donald Trump, que pôde assim anunciar a morte do “diabólico Khamenei”.
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Em Israel, alguns prometem já que a operação militar no Irão que levou à eliminação do ‘ayatollah’ Ali Khamenei, o líder supremo iraniano, será em breve “ensinada nas escolas militares de todo o mundo”. A operação foi aparentemente realizada graças à pirataria de câmaras urbanas em Teerão, pelo que a morte de Khamenei, a 29 de fevereiro, surge como um novo golpe de mestre do Estado hebraico. Contudo, Khamenei não se escondia e era um alvo fácil, recordam vozes mais críticas. 

Há oito dias, um ataque aéreo israelita surpresa teve como alvo o complexo residencial do ‘ayatollah’ em Teerão, onde estava prestes a realizar-se uma reunião de altos responsáveis da segurança.

O bombardeamento marcou o início da guerra israelo-americana contra o Irão. O ataque decapitou o poder iraniano, matando Khamenei e um número indeterminado de generais e outros responsáveis do aparelho militar e de segurança.

Desde então, os meios de comunicação iranianos confirmaram a morte do chefe do Estado-Maior, do comandante da Guarda Revolucionária, do ministro da Defesa e do chefe dos serviços de informação da polícia, entre outros.

Na longa lista de sucessos que alimentam o mito do Mossad, os serviços secretos israelitas, a “neutralização” de Khamenei surge como mais um golpe de mestre de Israel na sua tradição consolidada de assassínios seletivos dos seus inimigos, embora os pormenores da operação ainda sejam desconhecidos.

A lista aumenta

O assassínio de Khamenei “no seu bunker em Teerão [...] coloca Israel numa posição de superioridade sem precedentes”, considerou Yossi Yehoshua, especialista em assuntos militares do diário mais vendido em Israel, o Yedioth Ahronoth.

Nos últimos meses, “os serviços de informação militares melhoraram as suas capacidades para realizar decapitações seletivas”, sublinhou Yehoshua.

Desde o início da guerra desencadeada pelo ataque sangrento de 07 de outubro de 2023 do movimento islamita palestiniano Hamas contra Israel, a lista de alvos de alto valor eliminados tem aumentado constantemente: Hamas (Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar, Mohammed Deif...), o chefe do Governo dos rebeldes Huthis no Iémen, o Hezbollah libanês (Hassan Nasrallah e centenas de combatentes atingidos por ‘pagers’ armadilhados) e já anteriormente o Estado-Maior iraniano durante os bombardeamentos contra o Irão em junho de 2025.

“Isto começou no Líbano, continuou com a guerra contra o Irão em junho de 2025, melhorou no Iémen e atingiu”, com o ataque de 28 de fevereiro, “um nível de excelência” nunca antes alcançado, afirmou Yehoshua, considerando tratar-se de uma “arte do assassínio seletivo” a um nível “sem precedentes”.

Demasiado cedo para falar

“Quando os pormenores da neutralização forem conhecidos, o mundo inteiro ficará boquiaberto”, acredita o colunista Ben Caspit, nas páginas do diário israelita Maariv.

“O facto de Israel ter obtido uma fotografia do corpo de Khamenei é simplesmente inconcebível. [...] Este primeiro ataque será estudado durante anos nas escolas militares de todo o mundo”, afirmou.

Segundo meios de comunicação israelitas, uma fotografia do corpo foi mostrada ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e ao Presidente norte-americano, Donald Trump, que pôde assim anunciar a morte do “diabólico Khamenei”.

Enquanto as operações continuam, “ainda é demasiado cedo para falar do que fizeram os agentes do Mossad no Irão”, insistem os meios de comunicação israelitas.

Os primeiros pormenores começaram a surgir esta semana, com dois artigos do New York Times (NYT) e do Financial Times (FT).

Segundo o New York Times, que cita “fontes informadas” anónimas, a CIA norte-americana transmitiu a Israel informações de “grande fiabilidade” sobre a localização de Khamenei na madrugada do ataque.

Israel “baseou-se tanto nas informações norte-americanas como nos seus próprios dados para levar a cabo esta operação, preparada há vários meses”, acrescenta o jornal.

No momento do ataque, por volta das 09:40 locais no Irão, generais e responsáveis da segurança encontravam-se num dos edifícios do complexo e Khamenei num edifício vizinho, ainda segundo o New York Times, que considera que Israel conseguiu assim criar uma “surpresa tática”.

Encontro na rua Pasteur

Citando duas fontes próximas do processo, o Financial Times (FT) avança mais pormenores: quase todas as câmaras de vigilância rodoviária de Teerão terão sido pirateadas durante anos, com as imagens transmitidas para servidores em Israel.

Segundo uma dessas fontes, uma câmara tinha um ângulo particularmente útil sobre o complexo do líder supremo na rua (Louis) Pasteur, no coração de Teerão, permitindo determinar identidades, hábitos e deslocações dos guarda-costas. 

Esta câmara “ofereceu uma visão do funcionamento de uma parte banal do complexo fortemente vigiado” e das “personalidades que eles [os guardas] eram geralmente encarregados de proteger e transportar”.

De forma mais geral, os serviços de informação israelitas terão assim obtido “uma imagem densa e precisa da capital do inimigo jurado”, resultado de um “trabalho laborioso de recolha de dados”, nomeadamente pela unidade 8200, responsável por informação eletrónica sofisticada, ainda segundo o diário britânico.

“Conhecíamos Teerão como conhecemos Jerusalém”, comentou ao FT um responsável dos serviços israelitas.

O jornal refere ainda a tomada de controlo remoto de dezenas de telemóveis no setor, nos minutos que antecederam o ataque, para cegar melhor e impedir qualquer reação preventiva da segurança de Khamenei.

O Financial Times menciona também, sem mais pormenores, uma misteriosa “fonte humana”, informada da reunião prevista para aquela manhã.

Happy Khamenei family

Como acontece em cada operação deste tipo, as fontes citadas pela imprensa são anónimas, exclusivamente israelitas e norte-americanas. Contam-se pelos dedos de uma mão e reproduzem a narrativa tradicional de uma Mossad audaciosa e temível.

“Khamenei, ao contrário de Hassan Nasrallah, não se escondia (...) embora tomasse precauções”, recorda o Financial Times.

“É como ter um letreiro na porta a dizer: aqui vive a feliz família Khamenei”, ironizou nas redes sociais o jornalista de investigação israelita Ronen Bergman, autor da obra de referência sobre assassínios seletivos da Mossad Levanta-te e Mata Primeiro.

No catálogo xiita dos mártires da República Islâmica, um sacrifício consentido do líder, de 86 anos, de quem Trump afirmava que os norte-americanos conheciam todos os movimentos desde junho passado, é perfeitamente concebível.

“A minha vida vale pouco”, dizia publicamente, evocando com frequência o “sacrifício” pela revolução. “O líder supremo permaneceu no seu posto, no coração de Teerão, mesmo quando todos diziam que um ataque era iminente. Sacrificou-se pelo Irão”, comentou após a sua morte o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaïl Baghaï.

“Os detalhes das operações secretas, ao contrário das campanhas de bombardeamentos, são, por definição, muito difíceis de conhecer e constituem um importante instrumento de comunicação”, contextualiza um analista francês especializado nas guerras da Ucrânia e do Afeganistão.

Segundo o especialista, a mensagem seria a de uma operação “limpa, clara e sem falhas”, que decapita um regime num instante e reorganiza o jogo para um novo cenário.

Tudo na linha da “habitual metáfora norte-americana do jogo de cartas” [como no Iraque em 2003, quando Saddam Hussein foi representado como o ás de espadas], observa a mesma fonte, sob anonimato.

“Mas, do outro lado, não se joga póquer. Não estamos em Las Vegas. Joga-se xadrez e a perda de uma peça importante não significa o fim da partida”, adverte o analista francês.

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