Keir Starmer enfrentou esta quarta-feira, 11 de fevereiro, as perguntas dos deputados britânicos, ainda a tentar recuperar da perda do seu chefe de gabinete e do seu diretor de comunicação - por causa da nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos Estados Unidos apesar das suas ligações a Jeffrey Epstein - e consequentes pedidos para que se demitisse da liderança do governo, vindos da oposição, mas também de dentro do seu próprio partido. Mas a verdadeira prova de fogo foi o encontro que teve depois com deputadas trabalhistas, segundo os media britânicos “furiosas”, e que exigiram ao primeiro-ministro para que nomeie uma mulher como sua vice de facto, para que esta supervisione uma “mudança cultural completa” em Downing Street, após uma série de escândalos que, segundo elas, expuseram um “clube dos rapazes”. Harriet Harman, uma das figuras mais importantes do partido, instou Starmer a reavivar o cargo de primeiro-secretário de Estado, ocupado por Peter Mandelson na administração de Gordon Brown e que este deveria ser ocupado por uma mulher para “transformar a cultura política no governo em relação às mulheres e às raparigas”. A deputada trabalhista Natalie Fleet, que engravidou após ter sido violada na adolescência, pediu a Starmer para que inicie uma investigação nacional sobre os crimes do antigo dono do Harrods, Mohamed Al Fayed, relatando que as vítimas escreveram para Downing Street, mas não obtiveram resposta. “Estas são as nossas vítimas, este é o nosso Epstein”, disse Fleet. “Sei, como sobrevivente, que ninguém se importa. (...) É preciso aproveitar o momento agora, com pessoas por todo o país a dizer que se preocupam.”O debate desta quarta-feira no Parlamento foi o primeiro desde o pico da crise que colocou em risco a continuidade de Starmer à frente do governo e realizou-se no dia em uma sondagem do Politico mostrou que 52% dos britânicos acham que o primeiro-ministro deveria demitir-se, enquanto 19% disseram que deveria manter-se no cargo, mas que os seus conselheiros deveriam demitir-se.Starmer apresentou-se no Parlamento “mais irritado e combativo do que o habitual”, “um pouco mais implacável”, “em pleno modo tribalismo trabalhista”, e também “um pouco mais egocêntrico”, como foi descrito numa análise feita pelo Guardian.Keir Starmer aproveitou para recordar que pediu desculpa pelos “erros que cometi” em relação à nomeação de Peter Mandelson, sublinhando que o seu legado é mudar o Partido Trabalhista e ganhar uma eleição geral, com Kemi Badenoch, a líder dos conservadores, a acusar o primeiro-ministro de encher Downing Street de “hipócritas e apologistas de pedófilos”.O espírito combativo de Starmer parece ter fraquejado quando Badenoch, e depois outros líderes da oposição, trouxeram para o debate a seleção de Matthew Doyle, antigo conselheiro de Tony Blair e Gordon Brown, para a Câmara dos Lordes depois de lhe ter atribuído em dezembro um título nobiliárquico. Doyle, que também foi diretor de comunicação de Starmer, foi suspenso na terça-feira, após ter sido revelado que fez campanha por Sean Morton em 2017, já este tinha sido acusado de posse de imagens indecentes de crianças (que acabou por confessar e depois ser condenado). Doyle pediu esta semana desculpa, dizendo que se tratou de um “erro de julgamento”.Starmer tentou distanciar-se de mais este caso, dizendo que o seu antigo diretor de comunicação “não prestou contas completas das suas ações” e sublinhando que “na segunda-feira, prometi ao meu partido e ao meu país que iriam mudar e, ontem [terça-feira], retirei o apoio do partido a Matthew Doyle.”Falando após o debate, Lucy Powell, vice-líder dos trabalhistas, afirmou que Starmer está agora numa posição “muito mais forte” do que quando a semana começou, mas admitiu que o governo precisa de melhorar o seu funcionamento. “Já passámos por este teste específico, mas precisamos de garantir que estamos a trabalhar de uma forma mais inclusiva, mais plural, trazendo todos os talentos para o governo e envolvendo as pessoas connosco. Além disso, acredito que precisamos de mostrar ao público que estamos do lado deles, que estamos a cumprir as nossas promessas e que estamos realmente focados no trabalho em questão, sem nos distrairmos com os nossos próprios interesses.”.Starmer promete não desistir e uma revolta interna é difícil antes de eleições de maio.Depressão Epstein empurra Starmer para as cordas