A tomada de posse de Keiko Fujimori como presidente do Peru, esta terça-feira (28 de julho), assinala mais do que a chegada ao poder da filha do ex-ditador Alberto Fujimori - que à quarta tentativa conseguiu finalmente ser eleita, ultrapassando o adversário de esquerda por menos de 50 mil votos na segunda volta. É mais uma peça de um puzzle continental formado cada vez mais por governos posicionados à direita, com 12 vitórias em 16 eleições presidenciais nos últimos três anos. Mas estamos a falar de uma nova onda ideológica de direita?À primeira vista, a resposta parece evidente, tendo em conta a eleição de Javier Milei na Argentina ou a de José António Kast no Chile, a reeleição de Nayib Bukele em El Salvador ou Daniel Noboa no Equador, culminando na chegada ao poder de Abelardo de la Espriella na Colômbia (tomará posse a 7 de agosto). A paisagem política latino-americana é hoje muito diferente daquela que existia há poucos anos, quando o regresso da esquerda ao poder em vários países levou muitos observadores a falarem de uma segunda “maré rosa” que chegava ao continente. Mas será isto realmente uma vaga ideológica comparável à que marcou o início do século XXI, quando a América Latina virou à esquerda - sendo que esta não desapareceu, com vitórias nomeadamente no México ou na Guatemala. O historiador e analista Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano de Madrid, recomenda prudência. Num artigo de opinião publicado no jornal espanhol El Mundo, lembra que “ainda é muito cedo para responder afirmativamente à questão de saber se estamos perante uma onda conservadora imparável”.Malamud assinala que entre 2015 e 2026 realizaram-se 46 eleições presidenciais na América Latina, das quais apenas 16 foram ganhas pelos partidos no poder. As restantes 30 foram vencidas pela oposição. As próximas serão as presidenciais brasileiras, em outubro. Mais do que uma adesão consistente a uma determinada ideologia, os eleitores parecem estar a castigar quem está no poder.A eleição de Keiko Fujimori encaixa nesta lógica, após uma década de instabilidade política no país. Desde 2016, o Peru passou por uma sucessão vertiginosa com nove presidentes (ela será a décima), demissões, destituições, crises constitucionais e confrontos entre governo e Congresso. O voto em Fujimori e no Força Popular pode ser interpretado como um apoio à direita, mas também como uma procura de estabilidade depois de anos de caos político. .Instabilidade política no Peru faz temer oitavo presidente numa década.Isto não significa que a tese da vaga conservadora esteja errada, com outros observadores a considerar que há sinais de uma mudança mais profunda - sendo preciso que alguns destes líderes passem pelo desafio da reeleição para saber se o seu projeto está a ter efeitos junto dos eleitores. Contudo, esta onda de direita é muito diferente da “maré rosa” de esquerda no início do século.Quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela, em 1999, abriu caminho para uma série de governos que, apesar das diferenças, partilhavam objetivos comuns: maior intervenção do Estado, políticas redistributivas, reforço da integração regional e afirmação de autonomia face aos EUA. Lula da Silva (Brasil), Néstor Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia) ou Rafael Correa (Equador) não eram iguais, mas havia uma narrativa comum e uma aposta regional - surgiu, por exemplo, a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas).Isso não acontece à direita. Ao contrário da esquerda do início do século, não existe hoje um projeto político comum para a região, mas sim diferentes direitas com prioridades nacionais distintas. Milei defende um liberalismo económico radical e a redução drástica do Estado. Bukele ganhou popularidade (que lhe permitiu mudar a Constituição para poder ser reeleito) através de uma estratégia de segurança assente numa forte concentração de poder. Kast aposta no conservadorismo político e social. De la Espriella apresenta-se como um líder anti-establishment centrado na ordem pública, numa rejeição às políticas do primeiro líder de esquerda da Colômbia, Gustavo Petro. Keiko Fujimori representa uma direita mais tradicional e institucional (na primeira volta havia opções de direita mais radicais do que ela).O que une estas direitas é aquilo que rejeitam: oposição aos governos de esquerda, defesa de políticas de segurança mais duras, crítica das elites tradicionais e combate a determinadas agendas progressistas. Mas, quando se passa para temas como o papel do Estado, a política económica, a integração regional ou as relações com a China, as diferenças tornam-se evidentes. O apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, pode ser outro ponto em comum - o inquilino da Casa Branca apoiou alguns dos novos líderes latino-americanos pessoalmente, como Bukele, Milei ou De la Espriella. Não é o caso de Fujimori, que ainda assim se comprometeu a aproximar-se mais dos EUA. A chegada ao poder de Trump, logo em 2017, abriu a porta à normalização de determinadas políticas de segurança e imigração e de combate às elites políticas tradicionais que legitimaram a direita latino-americana. Mas a eventual influência de Trump está longe de explicar, por si só, os resultados eleitorais da região - ou Jair Bolsonaro não tinha perdido a reeleição no Brasil, em 2022. A direita pode estar a atravessar um bom momento eleitoral, mas ainda não é certo que estejamos perante uma mudança ideológica profunda e não apenas mais um momento de alternância política no continente..Keiko Fujimori declarada vencedora das presidenciais no Peru.Colômbia e a tentação trumpista