Iraque fica sem tropas norte-americanas, 23 anos depois da invasão que depôs Saddam Hussein
São umas centenas de militares norte-americanos no total e a sua saída do Iraque, nesta quarta-feira, 30, marca o fim de uma era. Contudo, o país continua sem exercer controlo total do território nem desarmar várias milícias, algumas das quais ligadas ao vizinho Irão.
A saída ordeira das tropas foi acordada em 2024 pela administração Biden e levada a cabo pela administração Trump. A guerra com o Irão não adiou ou cancelou os planos, o que levou Teerão e os seus aliados a festejar este desenvolvimento. "A 30 de setembro, celebraremos a viragem de uma página negra na história do Iraque e o fracasso da ocupação em impor a sua vontade ao nosso país", disse à agência Reuters Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, nome que agrupa um conjunto de fações armadas.
Na semana passada, o secretário de Estado dos EUA apontou o dedo para estes grupos armados quanto à recente autoria de ataques a infraestruturas energéticas na região, ilibando os houthis dessas ações em particular. As declarações de Marco Rubio deram-se aquando do encontro com o primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas.
O chefe da diplomacia dos EUA disse que se o desarmamento não se verificar, o Iraque arrisca um processo de "balcanização". Em julho, ao visitar a Casa Branca, al-Zaidi comprometera-se em pôr fim aos grupos armados em sintonia com a saída das tropas dos EUA. Mas agora adiou essa meta para 30 de junho de 2027.
Até agora, três milícias chegaram a acordo com Bagdade para entregar as armas ou de iniciar a regularização. Uma delas, Saraya al-Salam, o braço armado do movimento do líder xiita Muqtada al-Sadr, foi formalmente integrado nas forças de segurança numa cerimónia em Samarra, em junho. Mas aquelas consideradas mais poderosas, e com ligações ao Irão, Kataib Hezbollah e Harakat al-Nujaba, recusam desarmar — à imagem do Hezbollah no Líbano.
Além da rivalidade étnica e sectária entre milícias, há outra ameaça: o ressurgimento do Estado Islâmico (EI). A organização terrorista chegou a ocupar um terço do território iraquiano antes da formação das Forças de Mobilização Popular, o movimento que unificou milícias sob o comando xiita e apoio iraniano. Estas, com o apoio aéreo aliado, fruto do regresso em força dos norte-americanos, derrotou o EI em 2017. Ainda assim, o grupo que queria estabelecer um califado manteve bolsas na Síria e células adormecidas no Iraque.
As forças de segurança iraquiana suspeitam que o grupo terrorista esteja a preparar ataques suicidas que coincidam com a saída das forças norte-americanas. Já o comandante curdo Sirwan Barzani crê que a perda de informações, apoio logístico e drones concedidos pelos EUA vai dar ao Estado Islâmico a oportunidade de se reagrupar, disse à Reuters.
Tropas dos EUA e do Reino Unido invadiram o Iraque em 2003. O derrube de Saddam Hussein foi a menor das dificuldades. O que se seguiu, dos abusos dos soldados dos EUA aos prisioneiros iraquianos ao desmantelar do Estado, da revolta liderada por al-Sadr à guerra civil, marcou um falhanço que viria a alimentar — tal como a intervenção no Afeganistão — a retórica de Donald Trump e da sua base contra as "guerras sem fim".


