Lembra-se do Iraque?

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Nos tempos finais de Saddam Hussein como líder, quando o Iraque era já um pária internacional por, em 1990, ter invadido o Kuwait, a potencial lealdade ao regime em caso de intervenção americana era calculada pelo Pentágono em função das comunidades. Os árabes sunitas, grupo ao qual pertencia Saddam, eram vistos como uma base sólida de apoio, tal como, até certo ponto, a pequena minoria cristã, que considerava a ditadura laica como uma proteção e até dava ministros, como Tarek Aziz, que chegou a ser vice-primeiro-ministro. Os curdos, claro, tinham um longo historial de rebeldia e não acorreriam em defesa do homem forte de Bagdad. Quanto aos árabes xiitas, mais de 60% da população, não podiam ser verdadeiramente leais a um presidente que os tratava como cidadãos de segunda categoria, sobretudo depois da revolta falhada no sul, em 1991.

Quando os Estados Unidos avançaram finalmente, em 2003, com a operação militar que derrubou Saddam sabiam que o Iraque era um tigre de papel, mesmo que o pretexto fossem as tais armas de destruição massiva que nunca foram encontradas. As Forças Armadas estavam fragilizadas pela derrota de 1991, quando uma primeira intervenção expulsou os iraquianos do Kuwait, e pelos bombardeamentos sucessivos nos anos que foram decorrendo, e os iraquianos em geral sentiam-se cansados das sanções económicas, e também da opressão. George Bush pai não derrubou Saddam, mas expôs as suas fraquezas, Bill Clinton acentuou-as e George Bush filho, no rescaldo do 11 de Setembro, instigado pelos neoconservadores e associando abusivamente Saddam à Al-Qaeda e também ao tal arsenal fictício, deu o golpe de misericórdia no regime do partido Baas, nacionalista árabe, em tempos fortíssimo no quadro regional.

Arquivo DN / José Carlos Carvalho

Por estranho que pareça, o Iraque de 2026 ainda parece sentir o efeito dos acontecimentos de 1990/1991, ou pelo menos os de 2003. Isto apesar de Donald Trump ser já o terceiro presidente depois de Bush filho, de Saddam ter sido executado em 2006, e de a tal maioria xiita, antes discriminada, controlar hoje o governo de Bagdad. E as semelhanças com algumas situações de há duas ou três décadas existem porque os velhos problemas de divisão étnico-religiosa persistem. Além de que a eles há que somar a influência que o Irão ganhou no país desde que, e isto é óbvio, os americanos promoveram a democracia e a maioria dos votos foram para partidos xiitas. Alguns deles são muito próximos dos ayatollahs em Teerão, mas têm sido hábeis, até certo ponto, a manter a ligação a Washington.

Nas últimas eleições, e tendo em conta a base étnico-religiosa dos partidos, ganharam os partidos xiitas. Mas em vez de se entenderem para propor de novo como primeiro-ministro Mohammed Shia Al Sudani, chefe do partido mais votado em novembro, e que desde 2022 governava com aplauso mais ou menos generalizado, foram antes buscar Nouri al-Maliki, que liderou o país entre 2006 e 2014. Foi o suficiente para os Estados Unidos acharem demasiado e o próprio Trump, agora especialmente atento a tudo em redor do Irão, garantir que, com Maliki de regresso à chefia do governo, o Iraque deixará de ter apoio americano. E pior ainda do que deixar de ter apoio, pode ver as suas exportações petrolíferas sancionadas. Há ainda a possibilidade de os Estados Unidos reverterem a lei que impede o Estado iraquiano de ser processado pelo ataque ao Kuwait.

Além das suspeitas de compromisso com os setores pró-Irão, Maliki tem no currículo uma governação que aprofundou as divisões comunitárias no Iraque, além de ter sido incapaz de travar a conquista de um terço do território pelos jihadistas do Estado Islâmico, que fizeram uma aliança de conveniência com ex-oficiais de Saddam, saneados do Exército.

Maliki, mesmo tendo tentado jogar a carta do orgulho nacional, está numa posição muito frágil. Mas mais importante do que o destino deste político, é o destino do Iraque. No pós-Saddam, para compensar um primeiro-ministro sempre xiita, a Presidência do país tem ido para um curdo e o cargo de presidente do Parlamento para um sunita. É a comprovação da divisão que existia antes da invasão americana e, no fundo, a constatação da artificialidade do Iraque, que pode corresponder à antiga Mesopotâmia, mas foi uma criação britânica no final da Primavera Guerra Mundial, juntando as antigas províncias otomanas de Mossul (curdos, ou seja não-árabes, mesmo que muçulmanos), Bagdad (sunitas) e Baçorá (xiitas).

Com perto de 50 milhões de habitantes, que se calcula serem 60% árabes xiitas, 20% árabes sunitas e 20% curdos (que têm notável autonomia no chamado Curdistão Iraquiano), o Iraque tem um valor geopolítico enorme, no coração do Médio Oriente, e não é indiferente se cai ou não para o lado iraniano. Com as quintas maiores reservas de petróleo do mundo (teria as segundas, logo a seguir à da Venezuela, se Saddam tivesse conseguido a anexação do Kuwait), o país tem tudo para se modernizar, se a sua liderança política apostar na construção do Estado e na unidade nacional por via democrática. E a vontade de Trump de forçar o Irão a mudanças, pode ser a oportunidade ideal.

A partilha do xiismo com o Irão não é obrigatoriamente sinal de lealdade ao vizinho persa, como se viu na Guerra Irão-Iraque da década de 1980. Na época, Saddam não hesitou em promover o guerreiro islâmico, que derrotou os Cruzados, como herói nacional. Pouco lhe interessou que o chefe dos Exércitos árabes de há nove séculos fosse na realidade um curdo. E a verdade é que também milhões de soldados xiitas lutaram pelo Iraque, aderindo à ideia de Estado iraquiano.

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