Segurança reforçada em Quetta, capital regional do Baluchistão, no Paquistão, após o ataque iraniano.
Segurança reforçada em Quetta, capital regional do Baluchistão, no Paquistão, após o ataque iraniano.EPA/FAYYAZ AHMED

Irão já não se limita à “guerra por procuração” e ataca alvos na Síria, Iraque e Paquistão

Teerão, que até agora se tinha limitado à retórica e a apoiar o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, no Iémen, admitiu ter atacado grupos terroristas. Mas Islamabad alega que pelo menos duas crianças morreram e protestou contra a violação da soberania, tal como Bagdad.
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Em pouco mais de 24 horas, o Irão reivindicou ataques com mísseis e drones contra alvos ligados ao Estado Islâmico na Síria, a “espiões do regime sionista” no Curdistão iraquiano e ao grupo jihadista sunita Jaish al-Adl na região do Baluchistão, no Paquistão. Uma mudança de estratégia depois de mais de cem dias de guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, durante os quais Teerão se limitou a incentivar as ações dos grupos que apoia - como o Hezbollah no Líbano ou os Houthis no Mar Vermelho - numa guerra por procuração para evitar um eventual confronto direto com os EUA.

“Nós visámos apenas terroristas iranianos no solo do Paquistão”, disse ontem o chefe da diplomacia do Irão, Hossein Amir-Abdollahian, à margem do Fórum de Davos, reivindicando oficialmente o ataque de terça-feira que terá causado a morte a pelo menos duas crianças paquistanesas. “Nenhum civil do país amigo e irmão do Paquistão foi visado pelos mísseis e drones iranianos. O autointitulado grupo Jaish al-Adl [Exército da Justiça, em árabe] que é um grupo terrorista iraniano foi o alvo”, insistiu.

O que é o Exército da Justiça?

O ataque aéreo iraniano no Paquistão tinha alegadamente como alvo o grupo sunita Jaish al-Adl, que em árabe significa Exército da Justiça. Este surgiu em 2012 e luta pela independência do Sistão e do Baluchistão, na fronteira entre Irão e Paquistão, atacando forças de segurança de ambos os países, que se acusam mutuamente de fechar os olhos aos militantes. O grupo é formado, principalmente, por elementos do grupo Jundullah, enfraquecido após Teerão ter detido a maioria dos seus membros. O Paquistão insiste que não tem presença organizada no país, mas admite que alguns militantes podem estar escondidos em zonas remotas.  

Islamabad chamou o seu embaixador em Teerão para consultas e condenou a “violação flagrante e não provocada” da sua soberania territorial. “O Paquistão reserva-se o direito de responder a este ato ilegal. A responsabilidade pelas consequências recairá diretamente sob o Irão”, afirmou, num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês.

Os especialistas acreditam que Islamabad - que tem armas nucleares e os principais sistemas de defesa aéreos virados para a fronteira com a Índia - poderá responder atacando alegadas bases de grupos antipaquistaneses no Irão. Mas, mais provavelmente, esta situação irá levar o Paquistão a procurar os “inimigos” do Irão, numa maior aproximação estratégica aos EUA, à Arábia Saudita ou à Turquia. A China, que mantém relação com iranianos e paquistaneses, apelou à “contenção” de ambas as partes.

“Nós respeitamos a soberania e a integridade territorial do Paquistão”, referiu Hossein Amir-Abdollahian, mas “não aceitamos que a nossa segurança nacional seja ameaçada e não temos qualquer reserva nem hesitação quando estão em causa os nossos interesses nacionais”, concluiu. Em dezembro, o Jaish al-Adl (que está na lista de grupos terroristas nos EUA) atacou uma estação de polícia em Rask, localidade iraniana perto da fronteira com o Paquistão. Pelo menos 11 agentes morreram.

No início do ano, o Estado Islâmico reivindicou o atentado que causou a morte a 94 pessoas em Kerman, numa cerimónia de homenagem a Qasem Soleimani, comandante de uma força de elite dos Guardas da Revolução morto num bombardeamento dos EUA em 2020. “Os locais de reunião dos comandantes e elementos-chave ligados às recentes operações terroristas” do Estado Islâmico terão sido os alegados alvo do ataque iraniano na Síria, tendo sido usados mísseis balísticos, segundo os Guardas da Revolução.

No Iraque, as sirenes e os alertas soaram na segunda-feira em Erbil, no Curdistão, com a Guarda da Revolução a alegar ter atingido a sede local da Mossad (os serviços de informação israelitas) próximo da representação dos EUA na região. Bagdad protestou junto do encarregado de negócios iraniano no país e condenou “a agressão levada a cabo contra vários setores de Erbil”, denunciando uma “violação flagrante da soberania iraquiana”. Além disso, o Iraque rejeitou existir no local qualquer quartel-general da Mossad. “Tudo indica que se trata da casa de família de um empresário iraquiano”, disse o conselheiro para a Segurança Nacional iraquiano, Qassem al-Aaraji. Pelo menos quatro pessoas morreram. 

Guerra por procuração

Os ataques iranianos dos últimos dias surgem numa altura em que grupos apoiados por Teerão têm atacado bases norte-americanas no Iraque e na Síria - Washington já respondeu, bombardeando alvos ligados a esses grupos em ambos os países. Ao mesmo tempo, mesmo sem o admitir, o Irão é um dos principais apoiantes dos Houthis, do Iémen, que têm atacado navios comerciais ao longo do Mar Vermelho em alegada solidariedade com o grupo terrorista palestiniano do Hamas. Além disso, financia também o Hezbollah, que tem estado envolvido em confrontos com o exército israelita na fronteira entre o Líbano e Israel.

“Por mais felizes que os líderes iranianos possam estar em agitar as águas no Médio Oriente, a guerra total não é do interesse de um país cujo líder supremo está com a saúde debilitada e cujas ruas têm estado cheias de manifestantes nos últimos anos”, escreveu o The New York Times, numa análise à situação. O que mais preocupa a liderança iraniana é a “estabilidade do regime”, disse ao jornal Ryan C. Crocker, ex-diplomata dos EUA.

Desde o primeiro momento da guerra entre Israel e o Hamas que tem havido preocupação de uma eventual escalada do conflito a nível regional. “Tenham cuidado”, disse o presidente norte-americano, Joe Biden, numa mensagem a Teerão logo após o ataque terrorista de 7 de outubro contra Israel, deixando claro que os iranianos não deviam intervir. Antes já tinha deixado um aviso “contra qualquer outra parte hostil a Israel que tente aproveitar a situação” em Gaza.

A ideia é conter Teerão, que continua a enriquecer urânio para lá do que seria necessário para fins civis, apesar de ainda estar aquém do que precisa para uma arma nuclear. Mas a leitura global é que o Irão não tem interesse numa guerra aberta, mesmo se tem procurado incentivar (ou pelo menos não tem tentado parar) os grupos à sua volta para que ataquem alvos norte-americanos e israelitas. O problema é que, a qualquer momento, um erro de qualquer um dos lados pode desencadear o conflito aberto que ninguém quer.

O Irão tem recorrido principalmente à retórica. “A cooperação em larga escala de Biden e da Casa Branca com bandidos como [o primeiro-ministro israelita Benjamin] Netanyahu em Israel é a raiz da insegurança na região”, disse ontem o chefe da diplomacia iraniano numa entrevista à CNBC, à margem do Fórum de Davos, avisando os EUA para não ligarem “o seu destino” ao de Netanyahu. Teerão, que durante anos esteve isolado (nomeadamente na questão do nuclear), conta agora com apoios que não tinha no passado, nomeadamente a Rússia - que tem apoiado com drones desde o início da guerra na Ucrânia - e a própria China. Os três países fazem parte do novo “eixo do mal”, junto com a Coreia do Norte. 

Tanto norte-americanos como israelitas têm procurado, nas suas ações regionais, manter a situação contida. Os EUA, por exemplo, responderam aos ataques no Mar Vermelho dos Houthis (que voltaram ontem a classificar como grupo terrorista) com ataques contra alvos dos rebeldes no Iémen (com a participação dos aliados britânicos e canadianos). Mas fizeram-no durante a noite, depois de deixar claras as suas intenções e procurando evitar vítimas, sem atingir a liderança do grupo.

Da mesma forma, Israel matou um dirigente do Hamas em Beirute num ataque de precisão, não querendo arrastar o Hezbollah para o conflito. Dias depois matou um comandante do grupo xiita libanês, mas num bombardeamento no sul do Líbano, onde têm sido diários as trocas de fogo. “Não sei quando é que a guerra no norte ]vai acontecer]. Mas posso dizer que a probabilidade de acontecer nos próximos meses é muito mais elevada do que no passado”, indicou ontem o chefe do Estado-Maior de Israel, Herzi Halevi, citado pelo The Times of Israel, dizendo que os israelitas estão preparados para isso.

susana.f.salvador@dn.pt

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