O último presidente do Peru a completar o mandato de cinco anos foi Ollanta Humala, que entregou o poder a Pedro Pablo Kuczynski em julho de 2016. Mas este ficou no cargo menos de dois anos, ainda assim muito mais do que Manuel Merino que só lá esteve cinco dias em novembro de 2020. Na última década, e sem contar com Humala, passaram pela Casa de Pizarro sete presidentes no meio dos escândalos de corrupção (a certa altura, quatro estavam presos) e da instabilidade política. E tudo aponta para que venha de lá o oitavo, com o atual presidente interino José Jerí a enfrentar esta terça-feira (17 de fevereiro) um processo de destituição. Jerí assumiu o poder em outubro de 2025, já que liderava o Congresso no momento em que Dina Boluarte (a primeira e até agora única mulher presidente) foi destituída. No meio de uma onda de violência (e já depois de outras denúncias de corrupção), o Congresso decretou a sua “incapacidade moral permanente”. A eleição de Jerí, hoje com 39 anos, foi uma surpresa. Deputado desde 2021, só foi eleito pelo partido conservador Somos Peru porque era suplente do ex-presidente Martín Vizcarra (2018-2020), que foi condenado por suborno e proibido de concorrer a cargos públicos. Jerí tinha assumido a presidência do Congresso apenas em julho e já contava com uma mancha no currículo: uma acusação de violação. A denúncia foi arquivada por falta de provas em agosto. Os problemas regressaram contudo para o presidente interino, depois de virem a público encontros semiclandestinos que teve com empresários chineses - num deles chegou a ir encapuzado, para não ser reconhecido. A procuradoria-geral do Peru abriu então um inquérito por tráfico de influências agravado. Para complicar a situação, há ainda os casos de pelo menos cinco jovens mulheres que conseguiram contratos com o Estado depois de reunir com Jerí no Palácio do Governo (uma delas terá passado lá a noite de Halloween). Ele nega irregularidades. Estas situações desencadearam várias moções de censura contra Jerí, que não podiam ser debatidas antes de março (já que os trabalhos do Congresso só deviam retomar nessa altura). Contudo, uma sessão extraordinária seria possível com a assinatura de 78 deputados - algo que foi conseguido na semana passada. O debate está marcado para esta terça-feira (17 de fevereiro). Mas há quem questione o processo, incluindo o atual presidente do Congresso, Fernando Rospigliosi, do Força Popular de Keiko Fujimori. A censura que está a ser pedida é enquanto presidente do Congresso, o que automaticamente o impediria de continuar como presidente interino. E basta uma maioria simples. Mas Jerí defende que a única forma de o afastar do cargo seria declarando-o vago, devido à “incapacidade moral permanente” - foi a fórmula usada para afastar Vizcarra, Boluarte e Pedro Castillo (2021-2022), este último depois de uma tentativa de “auto-golpe”. O próprio Kuczynski optou por renunciar em 2018 antes de ser destituído dessa forma. O cenário complica-se porque não é claro quem possa assumir a presidência, a menos de dois meses das eleições gerais onde muitos deputados são candidatos. O partido de Fujimori (o único que mantém o apoio ao mandatário) defende, em nome da estabilidade política, que Jerí fique no cargo até à tomada de posse do novo presidente eleito, que está marcada para 28 de julho. .Oito presidentesPedro Pablo Kuczynski (julho 2016-março 2018) - Renunciou por suspeitas de corrupção. Esteve 36 meses em prisão preventiva.Martín Vizcarra (março 2018-novembro 2020) - Destituído por corrupção, gerando protestos violentos. Condenado a 14 anos de prisão.Manuel Merino (10 a 15 de novembro de 2020) - Renunciou devido aos protestos.Francisco Sagasti (novembro 2020 - julho 2021) - Terminou o mandato iniciado por Kuczynski.Pedro Castillo (julho 2021 - dezembro 2022) - Foi eleito, mas o mandato ficou marcado pela instabilidade. Após um auto-golpe, acabou destituído e condenado a 11 anos de prisão por rebelião. Dina Boluarte (dezembro 2022 - outubro 2025)- A primeira mulher presidente foi destituída no meio de uma onda de violência. José Jerí (outubro de 2025 -??) - Arrisca ser destituído esta terça-feira (17 de fevereiro).