Basta olhar para os mapas interativos do site 270toWin para perceber que a três meses das eleições intercalares nos EUA a única certeza é a incerteza. Com todos os congressistas e um terço dos senadores a votos, os democratas parecem ter hipóteses de recuperar o controlo da Câmara dos Representantes a 3 de novembro, mas as coisas parecem mais difíceis no Senado. Isto quando ambos os partidos têm de lidar com as suas próprias dores de cabeça.Segundo as previsões de outro site, o Decision Desk HQ, se as eleições fossem hoje, os democratas conseguiriam uma vantagem de 15 lugares na Câmara dos Representantes com 225 contra 210, enquanto os republicanos manteriam o poder num Senado empatado a 50-50 apenas graças ao voto de desempate do vice-presidente JD Vance. No final de julho, os democratas tinham uma probabilidade de 60% de conquistar a Câmara dos Representantes, enquanto os republicanos tinham 60% de hipóteses de manter o Senado.Estes números revelam uma corrida cada vez mais apertada, uma vez que no início do mês os democratas tinham uma vantagem de 25 lugares na Câmara. Claro que até novembro muita coisa ainda pode acontecer. E muitos republicanos não escondem a sua preocupação com a recente escalada da guerra no Irão, e sobretudo com o impacto que novas subidas nos preços dos combustíveis terão na economia americana. Quando se preparavam para uma campanha centrada no reforço da segurança na fronteira com o México e numa economia que parecia estar a recuperar de anos de inflação elevada, os republicanos têm agora de lidar com a crescente impopularidade de Donald Trump. Isto numas eleições em que os eleitores tradicionalmente penalizam o partido do presidente. Uma média das sondagens feita por Nate Silver, o homem que criou o famoso (e entretanro extinto) site FiveThirtyEight, no seu Silver Bulletin conclui que 58,8% dos americanos desaprovam a atuação do presidente republicano, contra 38,2% de aprovação. Mas os números de Trump podem ainda melhorar se o acordo alcançado com o Hamas conduzir mesmo à paz na Faixa de Gaza. E se o seu nome não vai estar nos boletins de voto quando os americanos escolherem os 435 membros da Câmara dos Representantes, 35 dos 100 senadores e ainda 36 dos 50 governadores dos estados americanos, a verdade é que vai pesar no resultado. Em vários aspetos. Por um lado a sua impopularidade pode ser prejudicial, por outro o presidente redesenhou o panorama eleitoral do Senado deste ano, preterindo alguns senadores republicanos em exercício e promovendo apoiantes leais para os substituir. Isso inclui o Texas, onde afastou o senador veterano John Cornyn e apoiou Ken Paxton, um conservador fervoroso com longo historial de alegações de corrupção. Ora candidatos mais radicais podem ter dificuldades em vencer alguns rivais democratas, pondo em risco um número de lugares que pareciam seguros para o partido de Trump.O presidente também mexeu com o desenho dos mapas eleitorais. Em vários estados os republicanos, a pedido de Trump, redefiniram os distritos eleitorais para o Congresso, após umma decisão histórica do Supremo Tribunal dos EUA - controlado por uma supermaioria conservadora - que, na prática, esvaziou de conteúdo uma parte da Lei dos Direitos de Voto.Trump também tem atacado o voto por correspondência - apesar de ele próprio o usar - questionando a sua segurança. Os dados mostram que os eleitores democratas são mais propensos a votar por correspondência do que os republicanos: um em cada quatro democratas fê-lo em 2024, segundo o States United Democracy Center, contra um em cinco republicanos.Perante estas críticas e a desconfianças em torno das máquinas de voto, além de continuar a repetir ter sido alvo de fraude em 2020, muitos receiam que Trump pareça estar a preparar o terreno para contestar os resultados que não lhe forem favoráveis em novembro.Já do lado dos democratas, se o partido conta com um maior entusiasmo dos seus eleitores, a escolha dos candidatos também não tem sido unânime. Envolvidos naquela a que a revista Fortune descreve como uma verdadeira “guerra civil” entre candidatos moderados e candidatos progressistas (ou “socialistas” como são muitas vezes chamados nos EUA), os democratas têm visto os segundo ganhar aos primeiras nas primárias de vários estados. Um dos últimos exemplos desta agitação teve lugar no Winsonsin, um dos estados decisivos onde os resultados eleitorais foram dos mais renhidos. A vice-governadora Sara Rodriguez desistiu da candidatura a governadora na sequência de um escândalo relacionado com o financiamento da campanha, precisamente quando parecia estar a consolidar o apoio. Agora, a cúpula do partido receia que a sua saída possa impulsionar Francesca Hong, uma “socialista democrata” considerada pelos líderes do partido como uma adversária potencialmente fraca face ao deputado federal Tom Tiffany, o provável nomeado republicano.Valadao enfrenta “empate” na CalifórniaCom as previsões gerais a revelarem resultados tão apertados, os olhares concentram-se em algumas corridas que se podem revelar determinantes para fazer pender a balança para um lado ou para o outro. .No Senado, Maine e Michigan são dois dos estados que reúnem as atenções dos analistas. Além do Ohio e Alasca - os quatro que surgem como “empatados” no mapa do 270toWin. No caso da Câmara dos Representantes, são mais os casos de “empate” (18), mas um deles dirá mais aos portugueses. No 22.º distrito da Califórnia, o lusodescendente David Valadao, republicano, enfrenta o democrata Randy Villegas na corrida por um lugar no Congresso Federal. E aqui a mudança na mapa daquele distrito do Central Valley pode favorecer os democratas. Eleito pela primeira vez em 2012, Valadao perdeu em 2018, tendo regressado ao Congresso em 2020. Aos 49 anos, o neto do José Grande de Ribeirinha é um dos quatro congressistas lusodescendentes. Mas tem agora o lugar em risco frente ao progressista Villegas. TRÊS CORRIDAS A SEGUIRMaineDepois de Graham Platner, jovem criador de ostras e veterano de guerra, suspender a campanha após ser acusado de violação, o Partido Democrata substituiu-o na corrida ao Senado por Troy Jackson, antigo presidente do Senado estadual e lenhador de quinta geração. Resta saber se as suas propostas para aumentar impostos aos super-ricos e promessas de cuidados de saúde para todos, inspiradas no mayor de Nova Iorque Zohran Mamdani chegam para derrotar a veterana Susan Collins. Há quase 30 anos no Senado, a republicana apela mesmo aos eleitores das zonas mais azuis do Maine. Mas é a única senadora republicana a concorrer num estado que Trump perdeu em 2024. MichiganAqui o confronto moderados vs. progressistas deu-se depois de a senadora estadual Mallory McMorrow ter desistido da corrida em junho, deixando as primárias democratas reduzidas a um duelo entre a congressista a centrista Haley Stevens e o responsável pela saúde de Detroit, Abdul El-Sayed, Para suceder ao senador democrata Gary Peters, que se vai reformar, El-Sayed promete Medicare para Todos e a abolição do Serviço de Imigração e Alfândega (o famoso ICE). O vencedor irá enfrentar o provável candidato republicano Mike Rogers, que perdeu por uma margem estreita a corrida ao Senado do estado em 2024 para a atual senadora Elissa Slotkin. OhioOs democratas conseguiram o candidato que queriam: o ex-senador Sherrod Brown, que vai enfrentar o senador republicano em exercício Jon Husted. Nomeado para o lugar deixado vago pelo vice-presidente JD Vance, Husted procura agora um mandato completo. Os democratas acreditam em Brown; republicanos lembram que perdeu em 2024 frente a Bernie Moreno. .Eleições intercalares nos Estados Unidos. O princípio do fim de Trump?