Humilhação da Rússia pode conduzir à utilização de armas nucleares táticas

"O risco é que a Rússia é uma potência nuclear, à qual não deve ser emitido o sentimento de que está a ser humilhada", considerou Serge Halimi, diretor do Le Monde Diplomatique em entrevista à Lusa

A intenção dos Estados Unidos de enfraquecer e humilhar a Rússia pode implicar uma reação perigosa de Moscovo, incluindo o recurso a armas nucleares táticas, disse à Lusa Serge Halimi, diretor do Le Monde Diplomatique.

"Aquilo que agora nos inquieta muito, e no contexto da agressão russa, é o sentimento que do lado norte-americano existe a intenção de enfraquecer a Rússia, de aproveitar esta intervenção criminosa, que é também um enorme fracasso estratégico, para enfraquecer a Rússia", indicou o jornalista e escritor francês, que desde 2008 ocupa o cargo de diretor do jornal mensal francês Le Monde Diplomatique, com edições em diversos países do mundo, incluindo Portugal, e com uma linha editorial associada à esquerda antiliberal.

"O risco é que a Rússia é uma potência nuclear, à qual não deve ser emitido o sentimento de que está a ser humilhada", considerou em entrevista à Lusa à margem da conferência "As eleições francesas, a esquerda e a extrema-direita na Europa", onde interveio, que decorreu no final da tarde de quinta-feira em Lisboa.

"Assim, é necessário encontrar uma negociação, uma porta de saída que conduza à retirada das tropas russas da Ucrânia, mas que não tenha como desfecho uma humilhação da Rússia, que caso seja humilhada poderá implicar uma reação perigosa de Moscovo e recorrer a armas nucleares táticas, como têm referido", prosseguiu.

"Podemos pensar que é 'bluff', mas devemos evitar entrar num jogo deste género, caso nos arrisquemos a enganar-nos", frisou.

Halimi sublinhou não ter existido "a mínima dificuldade" da publicação, incluindo nos editorais ou artigos que normalmente assina na primeira página, em "condenar de imediato a agressão russa contra a Ucrânia, pelo respeito do direito internacional, do direito das fronteiras territoriais".

No entanto, denuncia "inquietação" pelo que define de "escalada ofensiva dos Estados Unidos" no contexto do atual conflito militar.

"De início os Estados Unidos referiram que não forneceriam à Ucrânia um certo tipo de armas, mas que agora estão a entregar esse armamento e com a justificação de que a Ucrânia deve recuperar a totalidade da sua integridade territorial, o que sugere que também inclui a Crimeia", recordou, antes de sugerir que esta abordagem pode originar uma escalada imprevisível.

"A Crimeia foi anexada pela Rússia, e assim a Rússia considera a Crimeia como fazendo parte do seu território, pelo que qualquer tentativa de reconquistar a Crimeia será entendida pela Rússia como uma agressão ao seu território e poderá implicar, como reação, a utilização de armas nucleares táticas", reafirmou.

Apesar de admitir alguma "especulação" nesta abordagem, mas que, contudo, não deve ficar "totalmente excluída", o diretor do Le Monde Diplomatique argumentou que nas intervenções militares ocidentais com intervenção direta dos Estados Unidos, incluindo na Sérvia em 1999, no Iraque em 2003 ou na Líbia em 2011, "não existia um risco de reação" com armas nucleares táticas, "mas que agora, efetivamente, existe".

A solução negociada do conflito, "mesmo que muito difícil para os ucranianos que foram agredidos", pode consistir na renúncia definitiva de Kiev em aderir à NATO, e na concessão de um "estatuto federal" para a região do Donbass, leste da Ucrânia, onde se concentra uma importante população russófona, defendeu.

O "discurso por vezes mais estridente" dos norte-americanos "que estão do outro lado do Atlântico, "enquanto são os ucranianos que combatem, que morrem", tem constituído outras das características de um violento e sangrento conflito já definida como uma "guerra por procuração" por diversos analistas, mencionou ainda.

"Com a guerra na Ucrânia, os Estados Unidos têm a oportunidade para testar novos dispositivos militares, novos armamentos, com o embargo [à Rússia] têm a ocasião de vender mais quantidades de petróleo, com o rearmamento europeu de venderem mais armas, e com as dificuldades internas de cereais vão também vender mais cerealíferos", prognosticou.

Assim, segundo Serge Halimi, trata-se de uma guerra que também beneficia "amplamente" os Estados Unidos.

"Não foram os Estados Unidos que desencadearam o conflito, os russos têm a total responsabilidade, mas o objetivo é que termine o mais rapidamente possível e que não se prossiga de escalada em escalada", frisou.

Halimi recordou que diversos artigos e análises publicadas nos últimos meses no Le Monde Diplomatique consideraram como "provocatórias" as declarações emitidas em outubro passado pelo secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, quando referiu que os Estados Unidos eram favoráveis à entrada da Ucrânia na NATO.

"Mas um homem de Estado não é obrigado a ceder a todas as provocações, de violar o direito internacional, de matar populações civis, apenas para reagir ao que se considera ser um discurso provocador do secretário de Estado norte-americano, porque neste momento não é ele a vítima, são antes os ucranianos", sublinhou, numa referência ao Presidente russo, Vladimir Putin, e à liderança do Kremlin.

"A solução para qualquer problema não pode implicar a invasão de um país vizinho menos poderoso que o invasor e a destruição das cidades, bombardeadas de manhã, à tarde e à noite. Nunca pode ser uma solução", reafirmou.

O jornalista e escritor também se pronunciou sobre o "argumento do Kosovo", ao qual Putin tem recorrido para justificar a sua atuação na Ucrânia, incluindo o recente reconhecimento das independências das "repúblicas populares" secessionistas de Donetsk e Lugansk, no leste ucraniano, em fevereiro passado, três dias antes do início da invasão militar.

"Putin pode invocar a situação do Kosovo, ao referir que nesse caso preciso os ocidentais aceitaram reconhecer uma entidade estatal, em contradição com o direito internacional pelo facto de não se tratar de um Estado federado, e que Putin utilizou esse exemplo ou esse precedente, para justificar, em simultâneo, a anexação da Crimeia e a sua política no Donbass, leste da Ucrânia", susteve.

No entanto, o jornalista e escritor também assinalou a emergência "de um sentimento nacional ucraniano", que considera pelo menos tão forte como o sentimento de proximidade linguística ou religiosa.

"Julgo que é uma descoberta decisiva para Putin, mas também para os ucranianos, logo que esta guerra termine o mais depressa possível e as tropas russas regressem ao seu território. Há um sentimento de solidariedade nacional que observámos em outras circunstâncias e que contraria o projeto de Putin", concluiu.

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