Hugo Bernardo, um gestor português no mundo da tecnologia em São Francisco
É a minha última noite em São Francisco e finalmente surge a hipótese de falar com Hugo Bernardo, empresário na área das novas tecnologias, que é um belo exemplo de como a comunidade luso-americana está a mudar. Chego já bem depois do jantar, vindo de San José, capital do Silicon Valley, onde visitei o Little Portugal, com o restaurante Adega, a Igreja das Cinco Chagas e a Casa do Benfica. Gostaria de dizer que fui até à casa de Hugo num Waymo, os carros autónomos, mas por acaso chamei mesmo um Uber, algo que hoje já não é novidade em quase lado nenhum do mundo. Por falar em Apps transformadoras do nosso quotidiano, esse é o mundo de Hugo. Já no início da década passada era notícia nos jornais portugueses a sua EasyVino.
“Vim para São Francisco porque a minha mulher é da Califórnia. Conhecemo-nos no MIT, na outra costa. Mas de qualquer forma esta cidade seria sempre um destino para alguém como eu. É um dos melhores sítios do mundo para quem trabalha com tecnologia”, comenta Hugo.
Evitamos falar demasiado alto, pois noutro piso dormem a mulher e os filhos, um menino e uma menina. Fico a saber que é casado com uma americana com raízes em Taiwan (uma ilha mais tecnológica é difícil de imaginar!), que sabe falar português, e que a regra em casa no que diz respeito às línguas é o pai falar com os filhos em português. “Quando regressam das férias em Portugal, que fazemos todos os anos, até vêm com um pouco de sotaque do norte. E a usar expressões da avó”, diz Hugo, entre risos.
Por falar em norte, expliquemos que o empresário nasceu em Lisboa, em 1977, mas cresceu na zona do Porto, perto da Maia. E foi na Universidade Católica do Porto que se formou em Gestão, embora a ideia inicial fosse enveredar por Finanças. No último ano da licenciatura, fez Erasmus em França. Admite hoje que “foi uma experiência decisiva na minha vida”. Foi quando estudava em Rouen que conheceu os espanhóis que seriam os seus sócios na criação da primeira empresa de tecnologia.
França continuaria na vida do jovem português (estamos a falar dos anos 1990) pois Hugo participou em Paris num programa de estágios do AICEP, programa que corresponde hoje ao INOV Contacto. Com os antigos colegas espanhóis, transformados em sócios, lança-se na criação de uma empresa de tecnologia. “Foi ainda no auge das primeiras empresas .com. Desenvolvíamos soluções móveis para dispositivos do tipo PalmPilot, os percursores do smartphone. Sobretudo para hospitais, digitalizando processos que até então eram feitos em papel. Fazíamos o que hoje se diria transformação digital”, conta.
Houve ainda um regresso a Portugal, para uns tempos na Siemens, já depois de ter vendido a sua primeira empresa de tecnologia. Até acontecer a travessia do Atlântico, em 2007. Objetivo: um MBA no MIT. A famosa universidade, vizinha de Harvard, fica em Cambridge, um cidade próxima de Boston onde chegou a haver numerosa comunidade portuguesa. Hugo diz que chegou a ir a um restaurante ou outro, para matar saudades da comida portuguesa.
A família da mulher é de Saratoga, perto de San José. Os planos do casal que se apaixonou no MIT passaram pela instalação na Bay Area. Apoio familiar quando viessem as crianças, oportunidade profissionais também. Em 2010, é fundada a Easy Vino. “A empresa nasceu como um sommelier pessoal digital. Um serviço que através do telemóvel ajudava o consumidor a escolher um vinho no restaurante com base no seu perfil de gosto e naquilo que ia comer”. O comportamento do consumidor não foi o esperado. “O uso do telemóvel à mesa ainda gerava resistência”, diz Hugo. Adaptaram-se à realidade e passaram a ter como clientes os restaurantes, ajudando-os a otimizar a carta de vinhos, a gestão do inventário de bebidas e o marketing dessas bebidas. “Não esquecer que é normalmente nas bebidas que os restaurantes fazem a maior margem de lucro”, explica. Os vinhos portugueses eram minoritários, com os franceses e italianos a dominar.
Hugo, cuja família em Portugal está ligada ao negócio vinícola, estava a beber um copo de vinho quando nos recebeu na sua sala, onde uma pintura de cores vivas dá pistas para aquilo que depois vim saber: um período a viver no Brasil. As janelas são amplas, e de dia devem ter uma bela vista. Mas o horizonte empresarial deste português de espirito empreendedor é bem mais amplo do que a Bay Area, a zona da Baía de São Francisco, mesmo que esta área metropolitana tenha um PIB superior a um bilião de dólares (o trillion dos anglo-saxónicos).
Hugo, com mais três sócios, um deles o português Tiago Pais (que esteve também na EasyVino), aposta agora num fundo de private equity chamado Keen. Explica que investem em pequenas e médias empresas sul-americanas. Entram como acionistas maioritários, assumem um papel operacional que conduz a um processo de transformação digital, e depois de o fazerem num grupo de três, quatro ou cinco empresas do mesmo nicho, seguem “uma estratégia de consolidação para as fundir numa entidade maior, mais eficiente e com maior dimensão regional, para então as vender”. Os investidores conseguem assim o retorno do capital aplicado. A IA faz parte do processo, claro.
Nestas quase duas décadas de vida americana, Hugo teve oportunidade de testemunhar aquilo que chama “a capacidade de regeneração da economia” dos Estados Unidos, que continuam a ter o maior PIB do mundo, e a Califórnia, se fosse um país, surgiria em quarto ou quinto no ranking das potências económicas. Mas destaca o “peso desproporcional” de um pequeno grupo de tecnológicas na produtividade e no desempenho do mercado. Fala da Alphabet, Amazon, Meta, Apple, Nvidia, Tesla e Microsoft. Quatro das “sete magníficas” têm a sede aqui na Bay Area.

