Israel deu indicações para os libaneses abandonarem 100 povoações.
Israel deu indicações para os libaneses abandonarem 100 povoações.EPA/STR

Hezbollah dá prova de força mas está recetivo a um cessar-fogo

Horas depois de Israel anunciar a expansão das operações terrestres no Líbano, o movimento xiita atacou Haifa, disse estar organizado e pronto para calar as armas.
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Israel informou ter dado início a uma incursão terrestre “limitada, localizada e precisa” no sul do Líbano, ao que o Hezbollah respondeu com o lançamento de quase 200 projéteis para a cidade portuária de Haifa e seus arredores, tendo causado pelo menos 12 feridos. Em paralelo, o porta-voz do movimento pró-iraniano mostrou abertura para um cessar-fogo, não tendo relacionado esse eventual acordo com uma trégua em Gaza como condição prévia. 

As forças israelitas recorreram a uma divisão de reservistas para reforçar a invasão do sul do Líbano, num total que poderá ascender a 15 mil soldados, segundo alguns meios, a 20 mil segundo outros. À Reuters, um porta-voz das forças israelitas recusou precisar o número. “É um tipo de operação dinâmica, limitada, com ataques direcionados e os ataques significam entrar e sair, significam movimento, significam locais diferentes, significam forças diferentes e assim por diante”, disse Nadav Shoshani. Em paralelo, a aviação israelita continuou os ataques no sul do Líbano, onde deu indicações para os civis abandonarem mais de 100 povoações.

O Hezbollah fez prova de vida e de força ao responder com o lançamento de quase duas centenas de rockets, drones e mísseis para o norte de Israel. Mais de 100 foram direcionados para Haifa em pouco mais de hora e meia, o que levou à saturação das defesas aéreas, tendo alguns rockets explodido em dois subúrbios da terceira maior cidade israelita. Segundo as forças israelitas, desde o início da operação Setas do Norte, no dia 23 de setembro, foram lançados três mil rockets oriundos do Líbano contra Israel.

“Todos os dias temos obtido muitos êxitos: centenas de rockets, dezenas de drones, um grande número de colonatos e cidades [israelitas] estão sob o fogo da resistência”, disse o porta-voz do Hezbollah, Naim Qassem, num discurso filmado pouco antes do ataque ao norte de Israel. “Quero assegurar-vos de que as nossas capacidades são boas, ao contrário do que o inimigo afirma.” Segundo Qassem, os comandantes mortos por Israel foram todos substituídos e estes estão agora a chefiar as operações militares. Disse também que o Hezbollah vai nomear um novo líder, “mas as circunstâncias são difíceis por causa da guerra”. 

Yoav Gallant, ministro da Defesa israelita, disse que Hashem Safieddine, o primo do líder morto do Hezbollah, Hassan Nasrallah, terá sido morto num ataque aéreo em Beirute na semana passada. “O Hezbollah é uma organização sem líder, Nasrallah foi eliminado, o substituto também foi provavelmente eliminado. Isto tem um efeito dramático em tudo o que acontece. Não há ninguém para tomar decisões, ninguém para atuar”, disse Gallant.

Horas depois, foi a vez de o primeiro-ministro também falar sobre a decapitação da milícia e partido xiita. “Eliminámos milhares de terroristas, incluindo o próprio Nasrallah e o seu substituto, bem como o substituto do seu substituto”, disse Benjamin Netanyahu, numa mensagem dirigida ao povo libanês, sem clarificar de quem falava. O líder israelita fez também um apelo e uma ameaça aos libaneses: “Libertem o vosso país do Hezbollah para que a guerra possa acabar.” Caso contrário, o Líbano vai conhecer “destruição e sofrimento como o que se vê em Gaza”. 

A novidade é que o Hezbollah, através do porta-voz, disse concordar com as iniciativas para se alcançar um cessar-fogo, sem ter mencionado a sua vinculação ao fim das hostilidades na Faixa de Gaza. “Apoiamos os esforços políticos liderados pelo presidente Berri, cuja prioridade é conseguir um cessar-fogo”, afirmou, referindo-se ao presidente do Parlamento, o xiita Nabih Berri, alinhado com as posições do Hezbollah. “Depois de a questão do cessar-fogo tomar forma, e quando a diplomacia o conseguir, todos os outros pormenores podem ser discutidos e podem ser tomadas decisões. Se o inimigo continuar a sua guerra, então será o campo de batalha a decidir”, disse Qassem. Mais tarde, o Hezbollah afirmou ter executado 3194 operações militares contra Israel no último ano.

Além das operações no Líbano, Israel prosseguiu os bombardeamentos em Gaza - 17 pessoas morreram no campo de refugiados de Bureij. Também terá voltado a atacar a capital da Síria. Da explosão de um edifício de um bairro onde se situam os quartéis-generais dos serviços de segurança e embaixadas morreram pelo menos sete pessoas.

Guterres critica Governo israelita

O secretário-geral das Nações Unidas disse ter escrito uma carta ao primeiro-ministro israelita para mostrar a “profunda preocupação” com duas propostas de lei que podem vir a impedir a agência de apoio aos refugiados, UNRWA, de funcionar. “Seria uma catástrofe no que já é um desastre absoluto”, afirmou António Guterres. O português, declarado persona non grata pelo Governo israelita, disse ainda que há “algo de fundamentalmente errado na forma como Israel dirige esta guerra”.

cesar.avo@dn.pt

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