António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas
António Guterres, secretário-geral das Nações UnidasFOTO: EPA/JUSTIN LANE

Guterres lamenta "impunidade" e desrespeito dos Estados Unidos pelo direito internacional

Secretário-geral da ONU acusa Donald Trump de demonstrar "uma convicção clara de que as soluções multilaterais não são relevantes, e que o que importa é o exercício do poder da influência dos EUA".
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O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou, numa entrevista à BBC divulgada esta segunda-feira, 19 de janeiro, que o mundo assiste a uma "situação de impunidade" e criticou o desrespeito dos Estados Unidos pelo direito internacional.

"Estamos a assistir a uma situação de total impunidade. Conflitos que antes eram localizados são agora conflitos em que diferentes entidades se envolvem, criando situações em que é muito difícil encontrar uma solução", lamentou António Guterres.

O português acusa Donald Trump de demonstrar "uma convicção clara de que as soluções multilaterais não são relevantes, e que o que importa é o exercício do poder da influência dos Estados Unidos, por vezes desrespeitando as normas do direito internacional".

Guterres reconheceu e reiterou apoio a "várias iniciativas de paz por parte dos Estados Unidos", mas admitiu a falta de influência da ONU na resolução dos mesmos conflitos.

"As grandes potências têm uma influência mais forte. A questão é se essa influência permite um impacto rápido ou se as causas profundas do conflito são resolvidas. E há uma grande diferença entre as duas coisas. Temos muitos cessar-fogos, mas depois a troca de tiros recomeça", frisou.

Na opinião do secretário-geral da ONU, os processos de paz devem ter em conta as causas mais profundas relacionadas com os conflitos, como o desenvolvimento socioeconómico ou os direitos humanos, pelo que um "trabalho aprofundado é essencial e não basta chegar a um acordo rápido".

Guterres, que no final do ano vai completar o segundo mandato consecutivo na liderança da ONU, defendeu o trabalho da organização, apesar dos problemas internos e a falta de financiamento.

"O problema não são as Nações Unidas, o problema são os Estado-membros", argumentou, a propósito de situações como o uso indevido do veto por parte dos países com assento permanente no Conselho de Segurança (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido).

O antigo primeiro-ministro de Portugal identificou não só "um problema de legitimidade e de composição" como o uso do poder de veto "para proteger os interesses dos próprios membros", defendendo uma reforma da composição e a limitação do poder de veto "a fim de evitar o tipo de bloqueios que estamos a testemunhar, que são muito difíceis de aceitar e muito difíceis de engolir".

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