Gronelândia foi a votos e vencedor não vai agradar aos interesses internacionais

Os eleitores deram a vitória nas eleições antecipadas ao Inuit Ataqatigiit, que se opunha a um grande projeto de mineração na região autónoma da Dinamarca.

Aos 34 anos, Mute Egede está prestes a tornar-se o novo primeiro-ministro da Gronelândia. "O povo falou", escreveu no Facebook o líder do Inuit Ataqatigiit (IA), depois de confirmada a vitória do seu partido nas eleições antecipadas de terça-feira naquela região autónoma da Dinamarca.

O partido de esquerda obteve 36,6% dos votos, conseguindo 12 dos 31 lugares no Parlamento. "A vossa confiança traz-nos uma grande responsabilidade à qual vamos tentar corresponder", afirmou Egede, à frente do IA há pouco mais de dois anos.

Mas se os apoiantes celebraram a passagem da oposição para o poder, as várias potências internacionais que não escondem os interesses na ilha não terão ficado muito satisfeitas. Uma das bandeiras do IA é a oposição a um projeto mineiro no sul da Gronelândia. Egede já disse que não deixará avançar o projeto da mina de Kvanejfield, depósito de urânio e de minerais raros, usados como componentes em tudo, desde smartphones a carros elétricos ou no fabrico de armas.

Enorme território - tem mais de dois milhões de quilómetros quadrados, mais de 20 vezes o tamanho de Portugal -, a Gronelândia tem apenas 56 mil habitantes. Com uma economia dependente da pesca e dos subsídios do governo dinamarquês, o degelo tem tornado a ilha mais atrativa para empresas de mineração.

A maior diferença entre o IA e o rival Siumut - o partido que desde 1979 esteve sempre no poder na ilha, à exceção de um curto período de quatro anos - era precisamente a sua posição em relação à mina. Os sociais-democratas do Siumut defendiam o projeto, sublinhando que iria criar centenas de empregos e contribuir anualmente com centenas de milhões de dólares para a economia da Gronelândia nas próximas décadas - permitindo à ilha uma maior independência em relação à Dinamarca.

"A mensagem dos eleitores foi clara: não vão sacrificar o ambiente em prol da economia", explicou à AFP Mikaa Mered, professor de Geopolítica na Science Po, em Paris. O resultado das eleições, antecipadas precisamente devido aos desacordos em torno deste projeto, parecem mostrar que os habitantes da ilha estão ao lado do IA e do seu líder, quando este afirma: "A saúde pública é o mais importante. Sabemos que o projeto vai ter um impacto no ambiente."

Remota e pouco habitada, a Gronelândia (que nos mapas surge ainda maior do que é devido à projeção de Mercator) tem sido notícia várias vezes nos últimos anos. Uma das últimas em 2019, quando o então ainda presidente dos EUA, Donald Trump, sugeriu que queria comprar o território. Uma ideia que a Dinamarca logo descartou como absurda. Mas a verdade é que são muitos os interesses estrangeiros na ilha. A mina de Kvanejfield é detida pela empresa australiana Greenland Minerals, por sua vez detida em parte por outra empresa chinesa. A China tem outros negócios de mineração na Gronelândia, enquanto os EUA - que têm em Thule uma base aérea desde os tempos da Guerra Fria - têm contribuído com milhões em apoios à ilha. E em março deste ano, um think tank concluiu que Reino Unido, EUA, Austrália, Canadá e Nova Zelândia - conhecidos como Five Eyes - deviam focar-se na Gronelândia para reduzir a dependência da China em termos de minerais.

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