Pouco mais de 24 horas depois de o jornal El País ter revelado que o governo da Comunidade de Madrid tinha comprado um apartamento de luxo para servir como gabinete temporário de Isabel Díaz Ayuso, veio o anúncio de que esse imóvel vai ser posto à venda e o dinheiro será usado para a reconstrução das zonas afetadas pelos incêndios que afetaram nos últimos dias a região. “A Comunidade de Madrid está totalmente empenhada na recuperação da região da Sierra Oeste após o devastador incêndio. Esta é a nossa prioridade máxima”, disse esta quinta-feira (30 de julho) o porta-voz do Governo madrileno, Miguel Ángel García Martín, durante uma visita às áreas afetadas. “Por isso, quero informar que dei instruções à empresa pública Planifica Madrid para colocar à venda quatro imóveis nossos na Gran Vía, em Madrid, e também o imóvel situado no Paseo del General Martínez Campos, avaliados em cerca de 20 milhões de euros, para também ajudar na reconstrução”, acrescentou.“O único motivo pelo qual o apartamento comprado com dinheiro público é vendido é porque os apanhámos”, reagiu no X a porta-voz do Más Madrid na Assembleia, Manuela Bergerot. “A vergonha é tão grande que ela precisa de usar a tragédia dos incêndios de Madrid, que ela própria poderia ter evitado, para encobrir a sua derrota”, acrescentou a responsável do segundo maior partido na Comunidade de Madrid, depois do Partido Popular.A polémica rebentou na quarta-feira (29 de julho), quando o jornal El País revelou que o governo da Comunidade madrilena tinha comprado a 14 de abril um apartamento de luxo de 485 metros quadrados, com um terraço de 200 metros quadrados, em Chamberí (uma zona residencial de classe média-alta no centro da capital espanhola). O imóvel foi comprado pela empresa pública Planifica Madrid e, segundo o governo, iria ser usado por Ayuso durante as obras de conservação da Real Casa de Correos, sede da Presidência na Porta do Sol. Depois de obras na fachada e telhado ainda em 2025, este ano será preciso uma “reforma integral” por causa de problemas estruturais. “Não é a minha casa, não é a minha residência, não é para mim. Não estou a comprar nada e ninguém me está a comprar nada”, tinha dito Ayuso diante da polémica, falando na necessidade de encontrar um lugar onde podem realizar-se as reuniões institucionais.“Não vou ter uma residência oficial como tantos ministros ou presidentes de outras comunidades autónomas”, afirmou numa conferência de imprensa posterior à reunião do seu governo na quarta-feira.“É mais uma campanha difamatória promovida pelo Governo e pela sua imprensa amiga”, defendeu Ayuso, lamentando ter que estar a responder a estas questões numa altura de emergência por causa dos incêndios e quando as pessoas “perderam as suas casas e os seus bens”. E questionando porque nem esperaram “uma semana para que o fogo se apagasse”. O PP nacional limitou-se a dizer que Ayuso tinha dado explicações e que se eram esperadas obras, era preciso ter um gabinete temporário.Mas as explicações não convenceram a oposição madrilena, que questionou o custo da operação (estima-se que a compra do imóvel possa ter custado seis milhões de euros), mas também porque não se optou por alugar um espaço ou se usaram outros imóveis públicos. A falta de transparência é outro aspeto que levanta dúvidas, já que não houve comunicação prévia e a compra não figurava no orçamento para 2026.O ministro da Transformação Digital e líder dos socialistas de Madrid, Óscar López, exigiu esclarecimentos imediatos: “Primeiro um chalet em Rascafría. Agora um apartamento de luxo em Chamberí. Milhões de euros de todos os madrilenos para uso e usufruto de Ayuso.” López fazia referência à polémica do ano passado, quando a presidente da Comunidade de Madrid fez uso privado de um chalet com piscina comprado pelo seu governo por quatro milhões de euros em 2023 (como parte de uma operação para propor a expansão do Parque Nacional da Serra de Guadarrama). Ayuso defendeu-se dizendo que pagou os gastos da estadia.."Horas complicadíssimas". Região de Madrid vive "pior incêndio da história", 19 mil pessoas retiradas de casa.“A habitação custa-nos a vida”. Madrid sai às ruas por habitação por preços acessíveis.Isabel Díaz Ayuso: "O governo de coligação espanhol é uma amálgama de interesses"