A compra de quatro navios-patrulha portugueses pela República Dominicana é um marco recente das relações bilaterais. Esta aquisição é muito importante para a República Dominicana?Sim. A compra desses quatro navios realmente fortalece o que é a cooperação do Atlântico em matéria de segurança. Não somente dos oceanos, mas também das costas das Caraíbas, das quais Portugal não se encontra longe, apesar de ter todo um oceano pelo meio. Estamos muito identificados com tudo o que são os desenvolvimentos da marinha portuguesa, que é mestre no domínio dos mares. Então, o nosso presidente, Luis Abinader Corona, quando veio aqui à República Portuguesa em 2024, acordou com o presidente de então, Marcelo Rebelo de Sousa, a compra desses navios. Que foi uma ideia surgida do ministro da Defesa Nuno Melo, que pensou que esses navios poderiam ser os instrumentos ideais para que Portugal cooperasse com tudo o que era a vigilância do Mar das Caraíbas, sobretudo para a parte sul da República Dominicana. A Marinha Dominicana precisa desses navios.São navios, sobretudo, para vigiar a costa contra os narcotraficantes?As Caraíbas têm novos piratas. Já não são os piratas antigos que chegavam para roubar o ouro. Agora, os piratas são de outra índole. A luta contra o narcotráfico é um dos estandartes mais poderosos dos Estados Unidos, com os quais cooperamos a 100%, pois este é um mal que afeta muito os nossos jovens. Portanto, esse é um dos pontos. Mas não lutamos só contra o tráfico de droga. Há outros tráficos, de muitos tipos, que vêm, sobretudo, do norte da América do Sul.Este ano realizou-se em Lisboa um encontro empresarial promovido pelas autoridades dominicanas. Há outro encontro que será realizado no Porto em 2027. Como classifica as relações comerciais e os investimentos cruzados?Quando cheguei a Portugal deparei-me com uma balança comercial bilateral muito pobre. As relações comerciais inclinam-se em favor de Portugal, que é o país que exporta mais. É um país muito produtor. É uma realidade, uma vez que tem um grande apoio da União Europeia. Por isso, fizemos esse encontro empresarial aqui em Lisboa com o ideal de melhorar essa balança comercial. E, de facto, assim que se fez esse encontro empresarial, começaram os investimentos portugueses na República Dominicana. Agora está-se a importar de Portugal de tudo um pouco. Têxteis, vinhos, investimento na infraestrutura, são os mais importantes. Portugal continua à frente, em virtude também da sua capacidade profissional. Mas nós estamos tentando, agora com o EPA, que é um dos acordos de livre comércio que temos com a Europa, que os nossos produtos não somente entrem pelos portos de Espanha, que são os nossos portos tradicionais, o mais lógico em virtude da relação de Espanha com a Hispano-América, mas também queremos usar o porto de Sines. E já tivemos uma reunião para que os nossos produtos entrem diretamente, vindos da República Dominicana, em Portugal pelos portos portugueses.Que produtos imagina a República Dominicana a exportar para Portugal?Nós temos frutas muito boas de todo o género, manga, ananás, abacate, a banana verde, que aqui acho que trazem basicamente da África, e é normal que importem em Portugal dos países da língua portuguesa. Mas também temos tabaco, temos rum, temos produtos farmacêuticos, e utensílios médicos, que Portugal já compra muito à República Dominicana. Mas a relação económica pode incrementar-se em outros aspetos. Por exemplo, no que são os serviços. Os serviços também são um produto que se pode exportar, e de facto, uma das coisas que Portugal quer dos dominicanos jovens é que venham estudar aqui, para que possam empreender novos negócios em Portugal, sobretudo na área tecnológica. Já acordámos com a Universidade de Algarve, através de bolsas que o nosso país paga, para que venham estudantes dominicanos que queiram fazer pós-graduações e mestrados. E estamos já a tratar com outras instituições. Por exemplo, uma que me interessa muito, em virtude do seu reconhecimento mundial, e sobretudo pela sua tradição, é a Universidade de Coimbra. Eu, que sou advogada e a visitei, fiquei encantada com a Faculdade de Direito. Estamos a falar de níveis muito elevados a nível de estudos de mestrado e pós-graduação. O Atlântica é também um instituto tecnológico muito bom, e também estamos para assinar um acordo com o nosso Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, para trazer os jovens para estudar nele. Este Instituto é muito completo. E gosto muito do tema da profissionalização dos bombeiros. Nós estamos muito focados em que Portugal nos ajude a capacitar os nossos bombeiros, visto todas estas catástrofes, e Portugal tem muita experiência em temas de terremotos. Nós também estamos localizados numa falha complicada, vimos agora o caso do sucedido na Venezuela, e uma das iniciativas que tenho, já com conversações a decorrer, é justamente o treino dos bombeiros de Paredes com os bombeiros do Distrito Nacional, que corresponde a Santo Domingo.Existe também um protocolo a nível das forças policiais?Sim. Estou em processo de assinatura desse protocolo. Ainda não foi assinado. Temos tido uma grande experiência de formação de polícias. Na minha experiência passada como chefe de missão no Brasil, tive uma grande experiência com a Polícia Militar Brasileira para treinar a nossa Polícia Nacional e até mesmo o exército e a marinha. E essa capacitação é perfeitamente exequível desde aqui. De facto, o superintendente da polícia portuguesa disse-me que já tinham experiência noutros países. De facto, têm-na e podem perfeitamente organizar treinos na República Dominicana, a nível de, por exemplo, busca e resgate, controlo de motocicletas para proteção de figuras VIP. E, bom, há muitas outras áreas também, desmontagem de bombas, técnicas anti-sequestros, para coisas que não acontecem na República Dominicana, mas nunca se sabe.Para muitos portugueses, a República Dominicana é um destino turístico. Os turistas portugueses são relevantes em termos de número?Sim, pelos atrativos do país e também pelos voos diretos. A partir dos anos 2000, foi o auge. Muitos desses voos, depois da pandemia, reduziram-se, e agora estamos a tentar reabrir voos diretos para Santo Domingo também, porque temos voos diretos para Punta Cana e Samaná. Nós gostaríamos muito que fosse a TAP, que é a Linha Aérea Nacional, além de ter renome internacional, que fosse a que voava diretamente, mas, entretanto, temos companhia aéreas que voam direto para Punta Cana e Samaná, mas somente na temporada turística. E os portugueses identificam muito Punta Cana, identificam muito Samaná, identificam muito Puerto Plata, mas a verdade é que a nossa capital tem um belo centro histórico, o primeiro centro histórico da América.Foi, na realidade, a primeira cidade europeia na América.A primeira cidade, a primeira fortaleza que se construiu, a primeira catedral neogótica que se construiu, a primeira universidade, o primeiro convento católico, o primeiro hospital. Também o Tribunal das Índias, o museu que agora se chama as Casas Reais, onde se julgavam os casos de toda a América, até que depois foi transferido para o Peru, que foi o segundo lugar de grande importância. Para o México e o Peru foram transferindo-se instituições espanholas já com os descobrimentos. Mas tudo estava de inicio na República Dominicana..Dividem hoje a Hispaniola, a ilha onde Cristóvão Colombo desembarcou em 1492, com o Haiti, que tem uma matriz cultural diferente, antiga colónia francesa, e que é um país que está sempre numa situação dramática. Isto afeta a República Dominicana, ou é possível à República Dominicana continuar a desenvolver-se ignorando na medida do possível o Haiti?É impossível que nos esqueçamos do Haiti. É um país irmão e o nosso único vizinho. O que nós não somos é a solução para o problema haitiano. É uma solução que tem de vir da comunidade internacional, com esta a apoiar o Haiti no seu desenvolvimento institucional, para o regresso à democracia de um país que num determinado momento teve um bom governo. Tristemente, é um país que necessita de reforçar as suas instituições jurídicas, as suas instituições políticas e as suas instituições económicas. Qual é o nosso dever? Ajudá-los o mais que possamos. E também defendermo-nos de situações que ponham em jogo uma das nossas maiores fontes de ingresso, que é o turismo. Temos um grande amor pelo turismo. O dominicano ama o turista. Estamos a receber este ano 12 milhões de turistas. É um esforço de décadas da República Dominicana para chegar aos níveis a que chegou dos investimentos estrangeiros. Por exemplo, Espanha é grande investidor em matéria hoteleira. Os Estados Unidos também estão a investir muito. Eu estou a tratar para que Portugal também abra um ou dois hotéis lá, para os portugueses, que gostam de estar no lugar onde se encontram mais confortáveis. Nós não podemos colocar em risco toda uma obra histórica dos últimos 50,60 anos, desde que nos livramos de uma ditadura. Lamentavelmente, não podemos colocá-lo em risco. E por isso nós temos que salvaguardar primeiro a nossa segurança. Segundo, a nossa segurança. E terceiro, a nossa segurança.E quando se fala de democracia na República Dominicana, esta estabilidade que traz a democracia é também importante para a imagem do país, para o desenvolvimento e para esta atração turística. A democracia funciona bem hoje na República Dominicana?Saímos de uma ditadura. Há muitas décadas. A democracia na República Dominicana não é uma novidade. É um princípio que está enraizado no coração de todos os dominicanos. Temos uma Constituição firme, estável, que garante estes princípios. E para nós, a democracia não é de nenhuma maneira negociável. É impossível negociar a democracia. Somos um país estável, política e juridicamente. Mas custou-nos. E como democracia, no final, todos têm direito a uma manifestação pacífica, civil e com consciência. O dominicano reconhece a sua democracia, defende a sua democracia e olha também para o futuro numa democracia ainda mais forte. Mas custou-nos. Custou-nos muito.A República Dominicana foi um dos países con intervenção dos EUA nas primeiras décadas do século XX . Hoje o presidente Donald Trump fala do regresso da Doutrina Monroe. Como são as relações da República Dominicana com os EUA?Sempre foram boas. Os EUA são os maiores investidores depois da União Europeia. Com muito respeito e com muito desejo de que continuem, de alguma forma, a proteger-nos. Porque é uma proteção. Quando se investe, protege-se um país. O arma economicamente. Os EUA são um aliado. E nós somos um aliado indefetível dos EUA. Há uma aliança. Eles terão a sua política. Mas nós também temos os nossos princípios. E isso pode sempre ser discutido caso apareça algum tipo de atropelamento. Nós vemos que os nossos interesses têm que ser salvaguardados a nível regional e também a nível individual. E se os EUA sempre foram um parceiro a nível militar, nós precisamos disso. Por isso a compra de barcos a Portugal. Por isso os nossos marinheiros estão aqui, treinando-se aqui. E se Portugal nos disser que também quer ser parceiro a nível militar, nós não podemos dizer que não a Portugal, com a experiência que tem. Nós estamos encantados. Assim, serão sempre bem-vindos todos aqueles países que nos queiram ajudar. Não vemos os EUA como um problema para nós.O musical In The Heights, que foi um sucesso na Broadway e também há meses em Lisboa, foi criado pelo porto-riquenho Lin-Manuel Miranda, mas fala sobretudo da comunidade dominicana de Nova Iorque. Foi uma forma indireta da República Dominicana também mostrar um pouco de sua cultura aqui em Lisboa. Gostou do musical?Sim, gostei. Tivemos uma participação como embaixada no sentido de os apoiar. Nós, de facto, comprámos toda uma noite deste musical para podermos promover o nosso país. A República Dominicana e Porto Rico são países muito idênticos. Comemos o mesmo, falamos o mesmo, dançamos o mesmo.Então, Lin-Manuel Miranda retratou bem os dominicanos de Nova Iorque?Perfeitamente, porque é igual. É a mesma coisa. Os dominicanos e os porto-riquenhos nos EUA são praticamente a mesma comunidade.E entre os dominicanos, a ideia dos EUA como um sonho de emigração ainda continua?Os dominicanos nos EUA contribuem muito para o produto interno bruto da República Dominicana. O nosso grande fluxo de remessas de divisas vem dos EUA. Portanto, os dominicanos nos EUA não só contribuem para o país, construíram o país. Eles desenvolveram-no. Amam o nosso país e mantêm as suas raízes. E isso também faz parte da sinergia que existe entre os EUA e a República Dominicana. É impossível isolar-se de uma realidade que é mais do que óbvia e que nós agradecemos. Estes dominicanos, para nós, de facto, muitas vezes, são os olhos que estão alerta, porque quando se está na ilha, mergulhados em todos os problemas políticos, muitas vezes não se vê o que eles veem. E foi essa comunidade, várias vezes, quem nos alertou de problemas futuros. Todos os estados têm um cônsul geral, porque existem mais de quase três milhões de dominicanos nos EUA. A nossa capital tem dois milhões. Nós somos 10 milhões de habitantes. E temos metade do tamanho de Portugal. Este é um país muito bom. E surpreendeu-me a beleza, a tranquilidade e a cooperação que querem ter conosco. De facto, gosto muito de ver a política portuguesa de abertura à Hispano-América. .“Portugal tem vindo a fortalecer o seu interesse e a sua ação no espaço latino-americano e caribenho”