A 6 de maio de 2025, Friedrich Merz tornou-se o primeiro líder alemão a ser eleito chanceler apenas à segunda tentativa. E cimentou o seu lugar na história ao ser, aos 69 anos, o mais velho a chegar ao lugar cimeiro do governo do país. Um ano depois, os seus níveis de popularidade são os mais baixos alguma vez obtidos por um chanceler, falhou o objetivo de reanimar o centro político vendo a extrema-direita à frente das sondagens e está atualmente a enfrentar a pior crise entre Berlim e Washington em décadas. A somar a isto, o estilo de Merz, que o próprio reconhece ser por vezes impulsivo, também tem desagrado aos eleitores.Numa entrevista dada no domingo à televisão pública alemã, Friedrich Merz reconheceu as dúvidas dos eleitores, refletidas nas sondagens que colocam o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha à frente da CDU do chanceler como o partido mais popular do país - a AfD, que ficou em segundo lugar nas eleições de 2025 com 20,8% dos votos, está agora próxima dos 28% nas sondagens, o resultado que levou Merz à vitória. O SPD, parceiro de coligação dos conservadores no governo, surge apenas em terceiro. “As dúvidas estão a aumentar. Não sobre mim, mas sobre a coligação”, disse.Uma sondagem publicada no fim de semana pelo Bild mostrava que somente 16% dos alemães estão satisfeitos com o governo, e apenas 24% acreditam que a coligação CDU/SPD sobreviverá até ao final do mandato, em 2029.Numa outra entrevista dada esta semana à Der Spiegel, Merz sugeriu que o problema não está apenas no governo, mas também na perceção dos alemães, nomeadamente os que se recusam a ver que a “ilusão de prosperidade” do país não se sustentará. “Estamos a viver uma profunda transformação. Não se trata de uma guerra aberta no coração da Europa, mas o impacto não é menos significativo”, defendeu o líder conservador. “Ainda não nos adaptámos a isso, e essa adaptação ainda não foi bem-sucedida porque muitos querem manter o que têm e defender-se de qualquer mudança”.Após dois anos de recessão em 2023 e 2024 - durante o governo do seu antecessor, o social-democrata Olaf Scholz -, a frágil recuperação económica conseguida entretanto por Merz corre o risco de cair devido aos custos na Europa causados pela guerra contra o Irão, nomeadamente no setor energético. Ao mesmo tempo, promessas que o levaram ao poder, como reformas fiscais e um pacote de apoio ao bem-estar social e saúde têm sido travadas por desentendimentos dentro da coligação governamental. Outro fator interno que tem levado à insatisfação dos alemães e impulsionado a subida da extrema-direita é a imigração, pois, apesar de ter endurecido a legislação, Merz está longe de ter retirado benefícios políticos disso. Em termos internacionais, o chanceler tem mantido uma boa imagem, dentro da União Europeia e no apoio à Ucrânia, mas também, até à semana passada, junto dos EUA - a sua crítica à ausência de estratégia da Casa Branca quanto ao Irão levou Donald Trump a ameaçar um aumento das tarifas para os carros europeus (o que afeta a economia germânica) e a retirada de milhares de tropas norte-americanas da Alemanha. “Ele fortaleceu relações importantes, particularmente com a França e a Polónia, e garantiu a influência europeia no contexto da guerra na Ucrânia através de fóruns como o E3”, disse à Reuters Oliver Lembcke, politólogo da Universidade Ruhr de Bochum, acrescentando que o principal problema de Friedrich Merz é dentro de portas. “Na política interna, ficou aquém das expectativas, particularmente no que diz respeito à liderança.” .Alemanha. Friedrich Merz dividido entre o protagonismo internacional e as crises domésticas.CDU de Merz ultrapassada pela extrema-direita