Primeiro, defendeu que “a concretização do direito inalienável do povo palestiniano à autodeterminação exige o desmantelamento definitivo da ocupação colonial israelita e das suas práticas de apartheid” na Cisjordânia. Depois, já após o início da guerra em Gaza, em resposta ao atentado terrorista do Hamas que fez mais de 1200 mortos em Israel, avisou que os palestinianos corriam um “grave perigo de limpeza étnica em massa”. E finalmente, em março de 2024, concluiu existirem “razões plausíveis para acreditar que o limiar que indica que Israel cometeu genocídio foi atingido”. A jurista italiana Francesca Albanese “não foi a primeira pessoa a descrever a campanha militar israelita como um genocídio, mas foi a primeira pessoa com as iniciais da ONU no seu título a fazê-lo”, escreveu o jornal The Guardian, que esta semana publicou uma entrevista à relatora-especial das Nações Unidas para os territórios palestinianos ocupados desde 1967. Albanese é a primeira mulher nesse cargo, para o qual foi nomeada em 2022 e cujo mandato foi revalidado já em 2025. Apesar de ter ONU no título, não é funcionária da organização, mas uma perita independente não remunerada para monitorizar a questão dos direitos humanos. Como é que chegou a esse cargo? Francesca Paola Albanese nasceu a 30 de março de 1977 numa pequena localidade na região italiana da Campania. Num mundo de mafia e clientelismo, onde só as ligações políticas garantem o sucesso, optou por lutar e por estudar Direito em Pisa. Mais tarde tiraria um mestrado em Direitos Humanos em Londres. Desde 2018 que dá aulas e palestras em várias universidades do Médio Oriente e Europa, tendo também trabalhado no Gabinete do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e na Agência da ONU de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, altamente criticada por Israel). Está também ligada ao think tank Renascimento Árabe para a Democracia e o Desenvolvimento e cofundou a Rede Global sobre a Questão da Palestina. O motivo da entrevista ao jornal britânico foi a publicação, em inglês, do seu último livro. Quando o Mundo Dorme - Histórias, palavras e feridas da Palestina, editado em Portugal pela Antígona, chega às livrarias anglófonas quase um ano depois de ser publicado em italiano. “Apesar da pressão, Quando o Mundo Dorme vai ser publicado em inglês também. Embora trate da Palestina, do passado e do presente, e da lei na sua forma mais acessível, o livro destaca-se da confusão e mostra porque é que a própria verdade representa uma ameaça”, escreveu Albanese no X, a propósito da publicação do manuscrito que “reúne histórias de dignidade e resistência que nos transmitem o espírito da Palestina e do seu povo” (segundo a sinopse da edição em português). Persona non grataSe para os palestinianos é uma heroína, para Israel é persona non grata, sendo acusada de antissemitismo e de não ser imparcial no seu cargo. Mesmo para alguns judeus simpatizantes da causa palestiniana o facto de ter comparado o Governo israelita aos nazis não caiu bem. E é criticada por não ter condenado os atentados do 7 de outubro de 2023, nem o Hamas com a mesma força que tem usado para atacar Israel - e a guerra que já terá feito mais de 75 mil mortos (segundo dados de um estudo da revista científica Lancet).As acusações que teceu contra Israel nos últimos anos, especialmente a de “genocídio” em Gaza, valeram-lhe ameaças de morte e intimidações contra a família (é casada e tem dois filhos). O marido, Massimiliano Calì, economista no Banco Mundial, foi afastado da liderança do dossier da Síria, por supostas pressões. E, por último, vieram as sanções dos EUA. Em julho do ano passado, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou que Washington ia impor sanções contra Albanese por “esforços para incitar” o Tribunal Penal Internacional (que emitiu um mandato de captura contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu) a investigar as empresas americanas e as autoridades israelitas. “Não toleraremos estas campanhas de guerra política e económica, que ameaçam os nossos interesses nacionais e a nossa soberania”, disse Rubio, depois de um relatório que expôs como muitas empresas estavam a lucrar com a guerra na Faixa de Gaza.Uma ação executiva do presidente Donald Trump colocou-a então na lista de pessoas “especialmente designadas”, normalmente destinada a terroristas, narcotraficantes e outros criminosos internacionais. “Nem sequer me foi dada a possibilidade de me defender. Fui simplesmente sancionada sem julgamento”, contou Albanese ao The Guardian. E qualquer pessoa ou empresa dos EUA foi proibida de lhe fornecer “fundos, bens ou serviços”. O apartamento que comprou em Washington, quando vivia nos EUA (entretanto mudou-se para a Tunísia), foi apreendido. As sanções custaram-lhe também o cargo de investigadora no Instituto de Estudos da Migração Internacional da Universidade de Georgetown. E não pode usar cartões de crédito em nenhum lugar do mundo, já que a maior parte das transações passa pelo sistema norte-americano. Em fevereiro, a família de Albanese (incluindo a filha menor que nasceu nos EUA) processou a Administração de Trump, alegando violação da Primeira Emenda que prevê a liberdade de expressão, além da Quarta (que protege os cidadãos de apreensões irrazoáveis da parte do Governo) e a Quinta (que garante o devido processo legal). .Comissão da ONU diz que Netanyahu incitou o genocídio na Faixa de Gaza