Membro das forças policiais desde 2022, Gislayne deteve o assassino do pai.
Membro das forças policiais desde 2022, Gislayne deteve o assassino do pai.DR

Foi para a polícia, prendeu o assassino do pai e vai dar filme

A agente Gislayne, que ajudou, 25 anos depois, a deter o homem que a deixou órfã, vai ser interpretada no cinema pela atriz Carol Castro. Uma história contada em 2024 pelo DN. "Parece um sonho", reage a própria.
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“É uma emoção enorme ver a minha história no cinema, dá até um frio na barriga, parece que estou a viver um sonho de tão surreal que é isto tudo, e ainda conheci uma atriz tão famosa”, diz Gislayne ao DN.

Se há histórias que dão filme, a de Gislayne Silva de Deus é literalmente uma delas. A atriz Carol Castro, conhecida das telenovelas da Globo e de outras películas, vai interpretar a polícia que prendeu o assassino do pai em Voz de Prisão, filme produzido pela própria Carol baseado no livro homónimo, escrito por Luciana Gnone, que assina também o argumento.

Numa rápida sinopse, Givaldo de Deus, o pai de Gislayne, foi morto num bar por uma dívida de 150 reais, cerca de 26 euros, por altura do carnaval de 1999, em Boa Vista, capital do estado de Roraima, no norte do Brasil. 

Gislayne, então com nove anos, cursou direito, tornou-se advogada, entrou na polícia como escrivã e acabou por participar decisivamente na operação que levou à detenção de Raimundo Gomes, o assassino do pai, entretanto foragido.

“Comentei uma publicação dela e perguntei, com jeitinho, se ela gostaria de contar a própria história porque daria um baita roteiro de filme”, contou Carol Castro nas redes sociais. E, dessa forma, a história chegou às telas.

Em 2024, o DN contou a história na primeira pessoa – isto é, de acordo com as memórias, primeiro, e a experiência, depois, da própria Gislayne.        

Membro das forças policiais desde 2022, Gislayne deteve o assassino do pai.
Gislayne: “Fui para a polícia e acabei por prender o assassino do meu pai”

“O meu pai era soldador mas nós também tínhamos um mercadinho em casa, como era carnaval, ele montou uma barraquinha para vender água e cerveja aos foliões na avenida”, recordou Gislayne.

“Às tantas, ele saiu da barraquinha e passou no bar da Vanusa, onde encontrou um amigo, o Bahia, com quem jogou ‘sinuca’ [snooker] e tomou uma cerveja, estava todo o mundo em clima de carnaval”, continuava Gislayne, hoje com 37 anos, dois a mais do que o pai na hora da morte.

Durante a ‘sinuca’, Raimundo, fornecedor de produtos para o mercado de Givaldo, apareceu no bar para lhe cobrar a dívida de 150 reais. Segundo Gislayne, o pai tentou chegar a um acordo: “Meu pai disse 'olha, eu não tenho o dinheiro agora, mas tenho um freezer [congelador], pode pegar para você ou, então, espera uns dias até eu vendê-lo e te pago’, Raimundo então saiu, o meu pai achou que com essa garantia estava tudo certo, até porque ele era visita de nossa casa, e voltou a jogar sinuca com o Bahia”.

No entanto, meia hora depois, Raimundo voltou ao bar com uma arma à cintura, conforme depoimento de Vanusa, a dona do estabelecimento, no dia do crime. Vanusa ainda mandou Givaldo fugir mas ele não conseguiu, o que precipitou uma luta corporal entre ambos.

“O meu pai segurou o braço do Raimundo mas não a mão e ele conseguiu virar a arma e atirar, acertando na região do umbigo do meu pai", contava a filha ao DN.

Após o tiro, os clientes conseguiram desarmar Raimundo e obrigaram-no a levar Givaldo para o hospital. Mas a vítima não resistiu. 

De acordo com o depoimento dos agentes que atenderam o caso, Raimundo fugiu então do hospital à pé mas foi preso a poucos metros do local, com a arma na mão.

Esteve preso por 17 dias mas respondeu ao resto do processo em liberdade e só foi julgado 14 anos depois do ocorrido, em 2013. “O promotor de justiça ia até pedir a absolvição, não fosse a intervenção enérgica da família”, diz Gislayne.

Condenado a 12 anos de prisão por homicídio, recorreu e ficou em liberdade até em 2016 ser expedido um mandado de prisão. “A partir dessa data desapareceu, ficou foragido e, como Roraima é um lugar com muitas rotas de fuga por fazer fronteira com dois países, Guiana e Venezuela, as buscas foram dificultadas”, explicava Gislayne.

Paralelamente, Gislayne foi crescendo com uma convicção: “não queria ser polícia, advogada, juíza, nada que tivesse relação com a segurança e a justiça porque estava muito abalada com a forma como eles trataram o caso do meu pai ao longo dos anos… porém, Deus tinha outros planos...”.

“Do nada, comecei a frequentar direito numa faculdade, em 2007, tornei-me advogada, em 2014, e membro das forças policiais, a partir de 2022”.

Primeiro, atuou na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, onde, segundo ela, começou a imaginar o assassino do pai a entrar na cadeia. E, a partir de 19 de julho de 2024, a pedido da própria, passou a integrar a Delegacia Geral de Homicídios, para, através da unidade, encontrar e, finalmente, prender o autor do crime.

No departamento localizou o último mandado de prisão contra Raimundo logo depois de um tio ter dito que se cruzara com o criminoso, não muito longe do bar da Vanuza, ao volante de um Fiat encarnado.

A 25 de setembro de 2024, sabendo que uma equipa da polícia ia ao bairro, ela passou as informações sobre o mandado de prisão de Raimundo e sobre o carro – “eu fiz o trabalho de inteligência na base e eles fizeram o trabalho de campo, delimitando a área”. Um drone localizou então o Fiat por baixo de uma árvore e o assassino de Givaldo foi, finalmente, preso, numa área de chácaras, também relativamente perto do local do crime de há 25 anos.

“Foi graças não só a mim mas a toda a família pela determinação de não deixar ele ficar impune”, diz Gislayne. “Isto não vai trazer o nosso pai de volta, mas ele vai cumprir a pena que deveria ter cumprido há muitos anos: a sensação é de que a justiça foi feita, com a prisão dele lavei a minha alma e a da minha família, hoje temos mais paz”.

Na hora da detenção, Gislayne teve até um momento a sós com Raimundo. “'Não era minha intenção’, foi tudo o que ele me disse...”. Uma cena que, com certeza, vai entrar no filme.

Membro das forças policiais desde 2022, Gislayne deteve o assassino do pai.
A história que deu origem ao filme 'Ainda Estou Aqui'
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