As eleições autonómicas na Andaluzia deixaram um cenário que começa a ser habitual em Espanha: um Partido Popular (PP) aquém da maioria absoluta e dependente de uma reforçada extrema-direita do Vox, com os socialistas (PSOE) a terem o pior resultado de sempre num campo onde a esquerda surge dividida. Um desaire tanto para o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, como para o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, que terão agora tempo para digerir estes resultados e pensar no futuro.O calendário eleitoral espanhol entra agora em pausa (caso não haja surpresas), com a próxima ida às urnas prevista só para maio de 2027 - para as eleições locais em todo o país e as autonómicas em sete comunidades (sendo Madrid o maior trunfo em jogo).As eleições gerais têm que se realizar até final de agosto do próximo ano e Sánchez insiste que não serão antecipadas, apesar dos problemas que rodeiam a coligação de governo (e os vários bloqueios dos aliados) e as polémicas à volta do primeiro-ministro (incluindo na sua família).Mas, apesar de as eleições ainda estarem longe, o líder da oposição defende que “a campanha para conseguir a mudança em Espanha começa hoje”. Feijóo prometeu uma “mudança de direção, com valores e com programa” se conseguir chegar ao poder. Mas não fez referência ao Vox, apesar dos múltiplos desaires eleitorais que sofreu.Na Andaluzia o resultado foi semelhante ao já registado na Extremadura (21 de dezembro), em Aragão (7 de fevereiro) e Castela e Leão (15 de março). A principal diferença é que o líder andaluz, Juanma Moreno, foi a votos com maioria absoluta e a maior parte das sondagens previam que iria repetir esse resultado. .P&R - Pode Sánchez antecipar as eleições se o PP renovar a maioria absoluta na Andaluzia?.Mas, apesar de o PP ter conseguido quase mais 150 mil votos do que em 2022, perdeu cinco deputados e a maioria. Precisava de 55 representantes e só elegeu 53. Moreno, que durante a campanha alertou para a complicação de governar em minoria, alega agora que tem condições para o fazer. Mas abriu a porta a um acordo com o Vox para garantir a investidura (não para governar). O partido de extrema-direita conquistou mais um deputado do que há quatro anos (passou de 14 para 15). Um resultado aquém do esperado, mas suficiente dada a perda de maioria de Moreno. O Vox, que não deixa claro se vai exigir entrar no governo, faz contudo depender o seu apoio da ideia de “prioridade nacional”, que tem vindo a forçar nas outras comunidades autonómicas em que o PP precisou dos seus votos. Na prática, quer a garantia de que os espanhóis (e não os imigrantes) têm prioridade no acesso aos serviços públicos e à habitação. À esquerda, o cenário não é mais fácil, mas o PSOE está a tentar que os maus resultados dos últimos meses não prejudiquem o partido nas próximas eleições legislativas. Na Andaluzia, onde apostaram na ex-ministra María Jesus Montero e onde governaram durante mais de três décadas, os socialistas tiveram o pior resultado de sempre, perdendo dois deputados (de 30 para 28). Isto apesar de terem tido quase mais 60 mil votos (o aumento da participação de 56,13% para 64,84% explica esta contradição). O PSOE não fez qualquer autocrítica, optando por dizer que o PP fica cada vez mais dependente do Vox - quando Feijóo está há anos a tentar distanciar-se. Mas os eleitores estão a mostrar que não têm “medo” da extrema-direita e Sánchez poderá ter que repensar a sua estratégia para 2027. Tal como o resto da esquerda. Apesar de esse ter sido o campo que mais cresceu na Andaluzia (subiu de 37 para 41 deputados, enquanto a direita, em conjunto, caiu de 72 para 68), foi graças ao desempenho dos nacionalistas regionais do Avante Andaluzia. Tiveram quase mais 250 mil votos e conquistaram seis representantes, subindo para os oito. Já a aliança Por Andaluzia (que inclui o Sumar, o Podemos e a Esquerda Unida, que ainda não acordaram ir a votos juntas em 2027) perdeu 20 mil votos em quatro anos e manteve os mesmos cinco representantes. O Sumar quer agora acelerar a eleição do líder, depois de Yolanda Díaz ter anunciado que não irá a votos. .Revés para Sánchez e vitória agridoce para Feijóo. “Fica claro que não há governo de direita sem o Vox”