Os democratas, o seu partido, estão otimistas para as eleições intercalares? Acha que podem conquistar a maioria no Congresso em Washington em novembro?Sim. Baseado nas sondagens, baseado também nas primárias que têm acontecido em vários estados, como em Nova Iorque, e noutros lugares, estes resultados estão a indicar que de facto há aqui uma grande oportunidade em novembro, nas intercalares, de ganhar a Câmara dos Representantes. O Senado está mais complicado, mas havia uma possibilidade também. Talvez esteja mais em questão atualmente, devido ao candidato democrata no estado do Maine, por exemplo, que tem imensos problemas, e há dias foi acusado também de outro caso, em relação a assuntos sexuais. Ele tinha certa possibilidade de ganhar em novembro.Portanto, para a Câmara dos Representantes há grandes possibilidades, mas recuperar a maioria no Senado é mais complicado?Sim, o Senado é mais complicado. Na Câmara dos Representantes todos estão em reeleição. Todos os 435 congressistas. Por exemplo, a Califórnia tem 50 e tal. Nós no Massachusetts elegemos agora nove, mas já tivemos mais.A Câmara reflete a população. Já os senadores são sempre dois nos 50 estados e como o mandato é de seis anos em cada eleição só um terço dos 100 vai a votos.Sim, os senadores são só um terço que vão a esta eleição, como é regra. E portanto, é sempre mais difícil alterar a composição do Senado. Às vezes são precisas duas eleições para alterar a maioria.O discurso que o presidente Donald Trump fez no 4 de Julho, na celebração dos 250 anos da Declaração de Independência, em que falou da ameaça comunista nos Estados Unidos, foi uma mensagem a tentar associar o Partido Democrata à ideia de extrema-esquerda a pensar já no embate das eleições intercalares?Até certo ponto ele está a tentar influenciar o eleitorado com essa ideia. E isto está tudo baseado na possibilidade de os republicanos perderem a Câmara dos Representantes. E quer impedi-lo, claro. Há uma tentativa para classificar assim na opinião pública aqueles que são mais progressistas no Partido Democrata. Alguns, como o mayor de Nova Iorque [Zohran Mamdani], ou [o senador] Bernie Sanders, que até é independente, consideram-se o que eles chamam de Democratic Socialists. É um termo relativamente novo na política americana, que representa o grupo de democratas que são muito, muito progressistas. E Trump, e alguns outros republicanos associados com Trump, estão a pegar na terminologia, até certo ponto, e a adquirir que é comunismo. Mas não tem nada a ver com o comunismo. Não há um Partido Comunista que conte nos EUA. A política desses candidatos democratas que se consideram à esquerda não tem nada a ver com o comunismo. Falar nos Estados Unidos de comunismo é apenas uma tentativa de Donald Trump de influenciar a opinião pública contra os democratas.Os dois partidos americanos ideologicamente costumam ser muito amplos. Se imaginássemos o Partido Democrata hoje na lógica da Europa, diria o quê?Depende. Por exemplo, estes que Donald Trump chama de comunistas, talvez na Europa seriam socialistas, fariam parte do Partido Socialista. Mas há outros democratas que seriam considerados um partido mais à direita. Seriam do PSD, e em alguns casos até poderiam ser do CDS.E o Partido Republicano está muito mais à direita do que era tradicional ou ainda tem diversidade, também, daquilo que observa?Atualmente, o Partido Republicano é o partido de Donald Trump. Não há aquela diversidade que havia. Não há aqueles mais à esquerda, outros mais à direita, como antes também havia dentro do Partido Republicano. Do Partido Republicano que tradicionalmente era republicano. Hoje, aqueles que não fazem parte do partido de Donald Trump têm dificuldades em ser eleitos. Porque, atualmente, a base ativa do que se chama o Partido Republicano, são na maioria MAGA. Por exemplo, já há um senador republicano, do Texas, que perdeu nas primárias contra um candidato que foi apoiado por Donald Trump. Ele não era MAGA. Isso está a acontecer dentro do Partido Republicano. O movimento MAGA está a consolidar a sua base. E pode, em certos estados ou em certos círculos eleitorais, ganhar.Este sucesso do movimento MAGA, a tal ideia de Make America Great Again, “tornar a América Grande de Novo”, está associado aos resultados da Administração Trump. O presidente, apesar do impacto global da guerra com o Irão, reivindica que a economia está melhor do que nunca, que nunca houve tantos empregos a serem criados, que a vida na América está a correr bem para as pessoas. Visto do Massachusetts, que é um estado rico e próspero, a economia está a correr realmente bem na América?A economia não está tão bem e tão boa como Donald Trump fala. Parte daquilo que ele diz resulta da sua imaginação. De facto, há muitas famílias com dificuldades. Devido ao preço das coisas, especialmente nos últimos dois anos. A gasolina, a eletricidade, o gás que as pessoas usam para aquecer as casas, o seguro de saúde, tudo aquilo que a pessoa compra, desde o pão, ao bife e ao frango, está mais caro. Porque nos Estados Unidos, além do impacto das tarifas, o transporte é importantíssimo. A infraestrutura de transporte, para distribuição, especialmente de alimentos. E a gasolina está cara, neste momento. E isso é refletido. em tudo. Todos aqueles custos são passados para o consumidor.E é isso que lhe faz pensar que as pessoas, com um voto de insatisfação, podem alterar a maioria na Câmara dos Representantes em Washington?Sim. A palavra que se usa muito agora, que os democratas estão a usar muito, e os republicanos, em particular o MAGA, o Donald Trump, dizem que é uma palavra inventada pelos democratas, é affordability. Significa os americanos terem a possibilidade de, com o seu próprio salário, poderem viver como viviam antes, e terem um bom nível de vida como tinham antes. Atualmente esse nível de vida está em questão. A economia não está a criar os empregos que ele diz que está a criar. Se a gente pegar nas estatísticas do trabalho, comparando com há dois ou três anos atrás, os números são piores atualmente..Significa que tem uma boa memória dos tempos do presidente Joe Biden?Foi uma altura de progresso económico, e não só. Sabemos que há as críticas que há, e eu acho que podemos dizer que a decisão de concorrer para a reeleição foi uma má decisão de Joe Biden. Mas não põe em causa o desempenho dele como presidente, deixou um bom legado?Como presidente vai ser considerado um bom presidente, mesmo se só esteve lá quatro anos. Jimmy Carter também só esteve lá quatro anos, e George Bush. A história vai rezar que, de facto, os quatro anos de Joe Biden foram importantes, não só a nosso nível nacional, mas a nível de política externa.Para as presidenciais de 2028 fala-se de alguns nomes como candidatos democratas, desde a antiga vice-presidente Kamala Harris tentar outra vez, até ser a hora da verdade para o governador da Califórnia, Gavin Newsom. Mas, às vezes, há surpresas que surgem em cima da hora. Há algum nome potencial para si como candidato a suceder a Trump?Há nomes fortes que não sei se vão materializar uma candidatura. Um deles, claro, é o governador da Califórnia. Sim, Gavin Newsom se concorrer é, sem dúvida nenhuma, uma das grandes possibilidades. Ele tem todas as características para poder ganhar. Também temos Pete Buttigieg, que já concorreu nas primárias de 2020. Há pessoas que gostam da sua maneira de ser, da política que ele apresenta, eu gosto, mas acho que ele não tem a maturidade de um Newsom.Neste momento, se tivesse que apostar nos nomes que se falam para 2028, era em Newsom?Acho que sim, atualmente, apostaria em Gavin Newsom. Mas fala-se no governador da Pensilvânia, Josh Shapiro. E fala-se no governador do Kentucky também. E agora há um nome relativamente novo de possível candidato, que é Rahm Emanuel, que já foi mayor de Chicago, e trabalhou na Administração de Bill Clinton e depois na de Barack Obama. Seria uma candidatura interessante. Mas não sei se tem o apoio suficiente para ir contra um Newsom, por exemplo, nas primárias. O que está a acontecer é, de facto, aquilo que devia ter acontecido, mesmo tardiamente, quando Joe Biden decidiu que não iria concorrer à reeleição. O partido devia ter tido uma Convenção aberta, e a própria Nancy Pelosi, inicialmente, estava de acordo com que isso acontecesse. Possivelmente seria Kamala Harris a candidata que sairia de uma Open Convention. Mas havia a possibilidade de haver outros nomes, incluindo Gavin Newsom. E fazerem parte de toda aquela negociação dentro da convenção democrática. Não sei bem quem convenceu Nancy Pelosi a concordar que não fosse uma Open Convention. Tinha sido bom para o Partido Democrático esse debate em 2024 sobre quem devia substituir Joe Biden como candidato, mesmo que no fim daquela Convenção fosse Kamala que tivesse ganho.E quem imagina que vai ser o candidato dos republicanos em 2028? O vice-presidente JD Vance é o favorito?Acho que vai ser, provavelmente, JD Vance. É o mais lógico. Mas, historicamente, a maioria dos vice-presidentes concorrem e não ganham. Portanto, não há garantias. Haverá uma possibilidade de Marco Rubio avançar, que, à partida, seria diferente. Claro, isto é uma opinião democrata [risos]. Não quer dizer que eu gosto de algum deles [risos]. Mas analisando a situação, acho que Marco Rubio tem uma base diferente de JD Vance.Está a dizer, no fundo, que em caso de nova vitória republicana para a Casa Branca, Rubio seria um presidente mais consensual, mais unificador da América do que Vance?Sim. E, além disso, dentro do próprio Partido Republicano, aquele que teria uma base mais ampla de apoio. JD Vance é o MAGA. Ele casou-se com o MAGA.No interesse dos democratas, de vencerem, então é melhor Vance ser o rival?Sim, provavelmente sim [risos]. Podem aparecer outros também. Mas agora tudo indica que é Vance. E, claro, no caso de Rubio, ele, para poder-se candidatar, teria de se demitir da posição que tem. Secretário de Estado é um dos cargos políticos nos Estados Unidos em que não se pode fazer política partidária.No seu caso, há quantos anos é eleito para a Câmara de Representantes do Massachusetts?Vou responder o número de mandados, não o número de anos [risos]. Vai para 19 mandados. Dois anos cada...E é hiper favorito nas eleições de novembro. Para ganhar o círculo de New Bedford conta a pessoa ou o partido é sempre decisivo?Até um certo ponto, é conforme a situação. De facto, é sempre benéfico, no caso do meu círculo eleitoral, ter um D ao lado, a seguir ao meu nome. Se eu tivesse um R, mesmo sendo uma boa pessoa, não era eleito no meu círculo eleitoral. Claro, a pessoa conta muito. E há certas pessoas que apesar de não serem democratas votam em mim. E aí o que é que conta? “Ó, eu conheço o Tony, eu posso não gostar da política toda dele, mas confio nele”.Podem ter votado no republicano Trump para presidente e agora votarem no democrata Tony Cabral para congressista estadual?Exato. E isso acontece.O voto dos portugueses é decisivo para a vitória ou, quando se é candidato, mesmo em New Bedford que é um bastião luso-americano, tem que conseguir obter votos de todas as comunidades?Tenho que ter votos de todas as comunidades. Claro que é uma base importante para mim. Eu conheço o meu círculo eleitoral muito bem, não é? [risos]. Mas não se pode ganhar eleições só com essa base. Temos que saber fazer pontes com outras comunidades, com outras etnias, na cidade. Temos uma grande comunidade também cabo-verdiana, temos uma grande comunidade irlandesa, temos uma grande comunidade canadiana, do Quebéque. Temos uma boa comunidade polaca ainda. Estes são votantes, claro. Eu tenho um grande apoio e uma boa relação com as instituições daquelas comunidades. Mas isto é um trabalho que eu tenho feito ao longo destes anos. Eu sei que, às vezes, dizem “olha, é o representante da comunidade portuguesa”. Mas não sou o representante da comunidade portuguesa. É importante para mim o apoio, eu sou português, com muito orgulho. E a comunidade é uma grande base para mim, começo num bom ponto. Mas sou o representante daquele distrito, que tem outras pessoas que vivem no distrito. E, portanto, eu tenho sido feliz nesse sentido, mas tem sido também um trabalho que eu tenho feito de comunicar, de trabalhar com a comunidade em geral. Não só com a comunidade luso-americana, que agora até começa a comprar casa fora de New Bedford. A outra coisa em que eu tenho sido feliz é que apesar de os votantes no meu círculo eleitoral em geral não serem tão progressistas como eu, confiam em mim e no que sou. Mas eu faço o trabalho de base, sempre o fiz, não é? E isso é que é importante. “Vocês sabem, o Tony está lá onde a gente precisa dele, ele está lá. Não interessa a política, assuntos sociais, etc. Se ele é contra isto ou a favor daquilo”. Sabem que podem contar comigo.Emigrou para os Estados Unidos com 14 anos, com os seus pais. Sente que aquilo a que se chama muito o sonho americano aconteceu consigo, um miúdo da ilha do Pico, que agora tem um assento em Boston, na Câmara dos Representantes do Massachusetts?Sim, eu acho que sim. Não é porque sou eu a falar, mas acho que sou um exemplo do sonho americano, não é? Um miúdo que emigra com os pais do Pico para os Estados Unidos. E, finalmente, ao fim de uns anos, é eleito e representa um círculo eleitoral e está envolvido na política americana. Há muitas maneiras de atingir o sonho americano. Esta foi a minha. Os Estados Unidos continuam a ser a terra das oportunidades. A pessoa tem de ter a ambição e saber trabalhar..“O povo americano vive, e sempre viveu, no centro. O barulho vem dos extremos”