A Europa, que desde o pós-guerra depende de Washington para assumir a responsabilidade pela defesa dos seus interesses, chegou à “constatação particularmente dolorosa” de que precisa de ser mais afirmativa e independente militarmente face a uns Estados Unidos liderados por Donald Trump que “atacam as regras e as instituições existentes”, pode ler-se no relatório deste ano da Conferência de Segurança de Munique (CSM), que se realiza entre sexta-feira e domingo (13 e 15 de fevereiro). Documento que refere ainda que “a Europa entrou numa era prolongada de confrontos, à medida que a guerra de agressão em grande escala da Rússia e a sua crescente campanha híbrida desmantelam os restos da ordem de segurança cooperativa do pós-Guerra Fria”.Um momento-chave do distanciamento dos EUA em relação à Europa aconteceu na edição do ano passado da CSM, quando o vice-presidente JD Vance referiu que as elites europeias estavam a suprimir a liberdade de expressão e a “abrir as comportas” à imigração em massa, atacando países em concreto, como a Alemanha ou o Reino Unido. Discurso que “ilustrou quão diferente é a perspetiva da atual administração sobre questões-chave do consenso bipartidário liberal-internacionalista que há muito que orienta a grande estratégia dos EUA”, é referido no relatório por Wolfgang Ischinger, chairman da CSM. Este ano não é esperada uma intervenção semelhante de JD Vance, já que a delegação dos EUA será liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio. Estarão ainda presentes cerca de 70 chefes de Estado e de Governo, mais de 140 ministros e mais de 40 responsáveis de organizações internacionais, desde o britânico Keir Starmer, o ucraniano Volodymyr Zelensky, o francês Emmanuel Macron ou a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. O início da conferência estará a cargo do chanceler alemão, Friedrich Merz.“O recuo gradual de Washington, o apoio vacilante à Ucrânia e a retórica ameaçadora sobre a Gronelândia estão a aumentar o sentimento de insegurança na Europa”, afirma o documento, intitulado “Sob Destruição” e ilustrado com a imagem de um elefante, numa referência ao elefante na sala, os Estados Unidos. “A abordagem dos EUA à segurança europeia é agora percebida como volátil, oscilando entre a tranquilização, a condicionalidade e a coerção. Perante os sinais contraditórios de Washington, as nações europeias estão a esforçar-se por manter os EUA empenhados, enquanto se preparam para uma maior autonomia”.O documento apresentado esta segunda-feira, 9 de fevereiro, pela Conferência de Segurança de Munique sugere que a Europa deve manter a sua unidade, continuar a desenvolver as suas capacidades de defesa e estabelecer novas parcerias estratégicas de forma a lidar com a cada vez maior imprevisibilidade vinda de uns EUA que, como refere o documento, sob a liderança de Trump “desconsideram algumas das normas mais básicas do sistema pós-1945: a integridade territorial e a proibição da ameaça ou do uso da força contra outros Estados”.“As nações europeias responderam formando coligações de liderança flexíveis, aumentando as despesas com a defesa e fornecendo à Ucrânia os meios para sustentar o seu esforço de guerra. No entanto, persistem dúvidas sobre se estes esforços são suficientes para compensar a erosão da Pax Americana”, nota o relatório, que sublinha ainda que “repelir eficazmente os demolidores exige muito mais coragem política e pensamento inovador. Os atores que defendem as regras e as instituições internacionais precisam de ser tão ousados como aqueles que procuram destruí-las”. Um sinal da fragilidade das atuais relações entre Europa e EUA foi dado esta segunda-feira pela líder da diplomacia do bloco dos 27 quando foi questionada sobre o momento em que Vance e a mulher foram vaiados (mas também aplaudidos por alguns) quando apareceram nos ecrãs gigantes do estádio de San Siro, em Milão, durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, na passada sexta-feira. “Bem, acho que ouvimos muitas coisas nada agradáveis dos Estados Unidos a respeito da Europa”, declarou Kaja Kallas na Euronews. “É claro que o nosso público também tem orgulho, um orgulho europeu. E isso transparece.”Falando na conferência de imprensa de lançamento da Conferência de Segurança de Munique, o embaixador dos Estados Unidos junto da NATO, Matthew Whitaker, respondeu às conclusões do relatório, garantindo que “rejeita completamente tudo o que acabou de ouvir”. “Esta é a primeira coisa que rejeito, estamos a tentar fortalecer a NATO, não retirar-nos ou rejeitá-la, mas fazê-la funcionar como foi concebida, como uma aliança de 32 aliados fortes e capazes”, afirmou Whitaker.Segundo o embaixador norte-americano, os aliados europeus precisam de aumentar a despesa com a defesa e mostrar que podem “cumprir” as suas promessas, incluindo as novas metas de despesa da NATO. Ao mesmo tempo, sublinhou que os EUA esperam que a Europa “se iguale” para ser mais forte e partilhar “o ónus da segurança europeia com os Estados Unidos”. “E, em última instância, assuma a defesa convencional do continente europeu, juntamente com o abrangente guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos”, reforçou. Whitaker falou ainda sobre a União Europeia, dizendo que os EUA precisam que o bloco dos 27 “simplifique”. “Chamaríamos a isto desregulação. Vocês chamam-lhe simplificação. Seja qual for o nome que lhe queiram dar, será necessário incentivar a formação de capital e a tomada de riscos”, afirmou, sublinhando que “o tipo de coisas que estão no ADN norte-americano, precisamos de ver isso acontecer não só na tecnologia de defesa, que é a minha área de maior conhecimento, mas em toda a tecnologia em geral.”Quanto ao comércio, prosseguiu, o objetivo da Casa Branca é reverter o acordo comercial “injusto” com os europeus, que “se transformou numa situação em que a Europa se aproveita e acumula um enorme excedente comercial com os EUA”..Imigração, JD Vance e AfD marcaram uma das campanhas “menos entediantes” da Alemanha.O discurso de JD Vance foi importante?