EUA voltam à carga no caso Khashoggi

Relatório das secretas responsabiliza o príncipe herdeiro quando mais provas se amontoam sobre o seu papel no assassínio do ativista saudita.

Mohammed bin Salman (MBS) assumira a responsabilidade política mas não pessoal do caso da morte do colunista do The Washington Post Jamal Khashoggi, mas, apesar do seu imenso poder e fortuna, não é possível livrar-se do peso de um assassínio extrajudicial como se tratasse de um apêndice - na quarta-feira, o príncipe saudita de 35 anos saiu do hospital após uma laparoscopia ter removido aquele órgão.

Como se não houvesse indícios suficientes, mais um se junta a apontar para o príncipe saudita: os dois aviões utilizados para transportar, em outubro de 2018, os torcionários de Jamal Khashoggi entre Riade e Istambul e regresso fazem parte de uma empresa tomada um ano antes para o Fundo Público de Investimento, o fundo soberano controlado por MBS. A notícia da CNN antecipou umas horas a divulgação de um resumo do relatório que reúne as informações dos serviços secretos dos Estados Unidos, o qual conclui o que a investigação levada a cabo pela Turquia, pelas Nações Unidas e pela CIA já sugeria: a responsabilidade direta do príncipe e governante de facto do reino saudita.

A empresa Sky Prime Aviation ter passado a pertencer ao espólio de MBS um ano antes é mais uma prova circunstancial que deita por terra a teoria de pronto aventada por Donald Trump de que teriam sido "assassinos sem autorização" a cometer o crime. "Ele teria estado a seguir [a empresa] e teria tido conhecimento de como era utilizada. E é apenas mais uma prova potencial de que estava a par disto, o que sempre foi a controvérsia. Isto é apenas mais uma prova disso", disse sobre Bin Salman o ex-diretor da divisão do Médio Oriente da CIA Dan Hoffman, à CNN.

Após ter negado o assassínio, o governo saudita afirmou que Khashoggi foi morto por acidente enquanto a equipa, que agia por conta própria, procurava extraditá-lo à força. Julgados, oito homens não identificados foram condenados, dos quais cinco com a pena de morte, mas as sentenças foram comutadas para 20 anos após terem sido perdoados pelos filhos de Khashoggi, que vivem na Arábia Saudita.

O papel de Saad Aljabri

Curiosa também a forma como veio à tona a informação sobre a propriedade dos aviões. Os documentos, classificados top secret e assinados por um ministro saudita que retransmitiu as ordens de MBS, foram apresentados no início do ano num processo contra um antigo alto funcionário dos serviços secretos sauditas, Saad Aljabri, exilado no Canadá.

O processo descreve como a propriedade da Sky Prime Aviation recebeu ordens para ser transferida para o fundo soberano de 400 mil milhões de dólares no final de 2017. As acusações de desvio de fundos contra Aljabri ocorreram após um processo que este apresentou no ano passado em Washington, D.C., contra MBS. Aljabri acusou o príncipe herdeiro de enviar uma equipa para o matar no Canadá poucos dias depois de Khashoggi ter sido assassinado.

A Sky Prime Aviation era gerida pelo genro de Aljabri, Salem Almuzaini e, segundo a queixa apresentada por Aljabri, Almuzaini foi raptado no Dubai em setembro de 2017. Já em solo saudita, Almuzaini terá sido torturado durante meses, tendo acabado por ser transferido para o luxuoso hotel Ritz-Carlton de Riade, onde MBS deteve cerca de 200 sauditas, entre familiares e funcionários de topo das empresas, em nome de uma campanha anticorrupção.

Quanto a Aljabri, refira-se ainda que dois filhos de 20 e 22 anos foram presos quando se preparavam para partir para os EUA. Omar foi condenado a nove anos de prisão e Sarah a seis anos e meio por lavagem de dinheiro. "Reféns políticos", foi como o seu irmão mais velho, Khalid, se referiu ao processo, uma forma mais de pressionar o pai a regressar a Riade depois de a Interpol se ter recusado a emitir um alerta.

Política da força

Resta saber a que ponto o resumo não classificado dos serviços secretos dos EUA irá ter consequências numa "comunidade internacional demasiado disponível para ser enganada", como lamentava há meses a relatora especial da ONU sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias, Agnès Callamard. Até agora Mohammed bin Salman tem usado a política da força, aos mais diversos níveis. Ainda na segunda-feira Riade anunciou que vai deixar de contratar empresas estrangeiras que não tenham a sua delegação no Médio Oriente no reino.

É certo que para trás fica a relação estreita que MBS tinha com os EUA de Donald Trump, via Jared Kushner, o genro do então presidente. E sabendo que o atual, Joe Biden, prometera acabar com o "perigoso cheque em branco" passado à casa de Saud, Riade tomou algumas iniciativas para tentar manter as relações com o seu maior aliado, caso do fim do bloqueio ao Qatar ou da libertação de presos políticos, como a ativista Loujain al-Hathloul (embora estejam proibidos de sair do país).

Do lado da Casa Branca, a palavra usada é "recalibrar". Se a primeira visita ao estrangeiro de Trump foi à Arábia, Biden ainda nem sequer terá falado ao telefone para Riade. E fez saber que será com o rei Salman, o seu homólogo, e não com o filho. Além disso, Washington sinalizou o fim do apoio à guerra travada contra os rebeldes do Iémen e a sua desclassificação como grupo terrorista. No xadrez do Médio Oriente estará também o desejo de que os sauditas não interfiram no sensível processo de regresso dos EUA e do Irão ao acordo nuclear.

Em contrapartida, os Estados Unidos não deixarão de fornecer o principal cliente de armamento e de colaborar em atividades de contraterrorismo.

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