2025 foi um bom ano para Gavin Newsom. O democrata tornou-se numa das figuras marcantes da política americana muito graças à sua presença nas redes sociais. Sobretudo através do seu podcast This is Gavin Newsom, no qual recebeu figuras de todos os quadrantes políticos, mas também graças à conta do gabinete de imprensa do governador da Califórnia no X (@GovPressOffice) onde decidiu assumir o estilo do presidente Donald Trump - mensagens em maiúsculas, alcunhas para os adversários, autoelogios, além de fotomontagens e memes feitos com recurso a Inteligência Artificial - para atacar o próprio. Ora ao lançar o seu livro de memórias Young Man in a Hurry: A Memoir of Discovery (algo como Um Jovem com Pressa: Memórias de uma Descoberta) já em fevereiro, o governador da Califórnia pretende continuar a cavalgar uma onda que o colocou como favorito em várias das últimas sondagens para as primárias democratas que vão escolher o candidato do partido às presidenciais de 2028. “Há muito tempo que se acredita que Gavin Newsom [...] poderia vir a concorrer à presidência um dia. Que ele teria hipóteses se concorresse à presidência, isso era menos provável”, escrevia há dias Ezra Klein no The New York Times. Mas, admite o colunista, “as coisas mudam” e hoje “Newsom tornou-se, sem dúvida, um dos líderes do Partido Democrata num momento em que o partido procura desesperadamente uma liderança.”E a verdade é que 2026, com as eleições intercalares marcadas para 3 de novembro, momento que os democratas acreditam poder aproveitar para alterar os equilíbrios no Congresso, recuperando o controlo pelo menos da Câmara dos Representantes, é a rampa de lançamento ideal para os (pré)candidatos às presidenciais, mesmo se estas só irão ocorrer dois anos depois. O próprio Newsom tem recusado confirmar se será mesmo candidato em 2028, tendo empurrado a sua decisão para depois das intercalares. E no podcast de Ezra Klein voltou a afirmar não ter “nada para dizer” sobre as presidenciais. Pelo meio, vai ganhando notoriedade crescente - para o bem e para o mal. Porque se muito democratas admiram a sua capacidade para ouvir algumas das figuras mais controversas da (extrema?)direita que já recebeu no seu podcast - desde o ativista conservador Erik Kirk, assassinado em setembro, até Steve Bannon, o estratega e ideólogo do movimento MAGA - Make America Great Again -, outros criticam este seu “namoro” com o “inimigo”. “O resultado líquido de toda a atividade frenética de Newsom é que, apesar de estar a 3.000 milhas de distância de Washington, alcançou o estatuto, não oficial, de principal cão de fila do partido - e, possivelmente, de favorito democrata para 2028”, escreve o jornal online Politico num artigo sobre a corrida às presidenciais. Nesse mesmo artigo, Bill Scher, colaborador do Politico mas também editor de Política do Washington Monthly coloca Kamala Harris como outra dos potenciais candidatos a 2028. E destaca o ano atarefado da vice-presidente de Joe Biden, que depois de digerir a pesada derrota face a Donald Trump nas presidenciais de 2016, para as quais avançou à última hora após Biden se retirar pressionado por todos devido à sua idade (teria 82 anos na altura da posse) e saúde frágil, andou por todo país a promover o seu livro 107 Dias, precisamente os que durou a sua campanha. Mas Scher parece pouco convencido com as suas hipóteses de vencer em 2028. E recorre às sondagens para dar força à sua teoria. “A ex-vice-presidente viu o seu potencial para 2028 diminuir. Nas primeiras oito sondagens para as primárias realizadas este ano, Harris liderou em seis, com uma média de 27% dos votos. Nas últimas oito, liderou em três e obteve uma média de 21% dos votos”, explica. E prossegue: “Porquê essa queda? Provavelmente porque Harris passou a maior parte do último ano a olhar para trás, a fazer uma autópsia da sua campanha presidencial de 2024 e a entrar em algumas disputas internas do partido durante o processo.”.A hipótese de Harris voltar a tentar conquistar a Casa Branca, depois de uma primeira tentativa em 2020 (desistiu ainda antes das primárias) e da derrota em 2024 ganhou força quando a ex-vice-presidente anunciou que não seria candidata a governadora da Califórnia este ano, quando chega ao fim o mandato de Newsom. Questionada sobre se iria ser candidata, Harris disse à BBC em outubro que se ainda não tinha tomado uma decisão, via-se com futuro na política. “Ainda não terminei”. E acrescentou: “Vivi toda a minha carreira como uma vida de serviço público e isso está-me no sangue.”Com umas presidenciais em aberto - uma vez que Donald Trump está no seu segundo mandato, mesmo não consecutivos -, os democratas terão de escolher entre vários caminhos para enfrentar o favorito JD Vance ou outro candidato republicano. Podem repetir a escolha de um candidato mainstream, como Harris, mesmo se tal só parece ter funcionado em 2020, quando Biden derrotou Trump, optar por uma figura mais controversa, como Newson, ou virar completamente à esquerda, confiando que é possível a repetição do fenómeno que em 2025 deu a Zohran Mamdani a vitória na corrida a mayor de Nova Iorque. Autoproclamado socialista (termo nos EUA associado à esquerda radical ou até mesmo ao comunismo), Mandani foi eleito com base em promessas de mudança, como a criação de um sistema universal de cuidados infantis para todas as crianças dos 6 meses aos 5 anos, tornar os autocarros públicos “rápidos e gratuitos” e congelar as rendas de um milhão de apartamentos com a renda controlada. .Ora se esse for o rumo, a escolha pode recair sobre Alexandria Ocasio-Cortez. A congressista de Nova Iorque foi um dos rostos da campanha de Mamdani, além de ter assumido, ao lado do veterano senador Bernie Sanders, a liderança da resistência democrata face às políticas de Trump, percorrendo os EUA com a campanha “Lutar contra a Oligarquia”. Aos 35 anos, AOC, como é conhecida, pode ser considerada pelos seus apoiantes como uma liberal capaz de revolucionar o partido, mas os sectores mais moderados dentro dos democratas dificilmente deixarão de ver nela uma perigosa radical de esquerda. “Com Sanders improvável de concorrer à presidência pela terceira vez e com o novo favorito da esquerda socialista - [...] Zohran Mamdani - inelegível para concorrer à presidência (nasceu no Uganda), Ocasio-Cortez provavelmente teria o caminho socialista democrático todo para si se decidisse concorrer à presidência”, escreve o Politico, mas, admite, “ela deve decidir não o fazer”. E uma das razões prende-se com a dúvida sobre se “a ala socialista cresceu o suficiente para vencer as primárias democratas, quanto mais a presidência.”Para já, estes parecem os nomes mais fortes para garantir a nomeação democrata, mas com três anos pela frente e uma corrida que os analistas apostam poder ter mais de 20 candidatos, outros nomes podem estar apenas à espera da sua oportunidade, do ex-secretário dos Transportes Pete Buttigieg a senadores como Mark Kelly, Cory Booker ou Elissa Slotkin. Já para não falar no “grupo dos governadores”, como JB Pritzker, Josh Shapiro ou Gretchen Whitmer. Só para nomear alguns... Nos republicanos, Vance parte favorito, mas Rubio e Taylor-Greene podem surpreender.Basta olharmos para as sondagens para perceber que, com quase três anos ainda até às próximas presidenciais, JD Vance tem clara vantagem na corrida à nomeação republicana. É verdade que o último vice-presidente a suceder diretamente a um presidente foi George H.W. Bush, ao vencer as eleições de 1980, mas Vance até recebeu um presente de Natal antecipado quando há dias Erika Kirk, a viúva do ativista Charlie Kirk, assassinado em setembro, declarou o apoio a uma eventual candidatura do vice de Donald Trump. Ora gerir a proximidade ao legado deste e uma base de apoio que se parece estar a fragmentar cada vez mais, sem afastar os republicanos que não se reconhecem nas políticas do presidente pode ser o principal desafio de Vance. O próprio não confirmou ainda a intenção de candidatar-se à presidência, mas não deixa de parecer estar a bloquear o caminho de Marco Rubio. O secretário de Estado, que já foi candidato em 2016, tem deixado no ar a ideia de que não avançará contra Vance. Mas muito pode acontecer nos próximos anos e não seria o primeiro a mudar de ideias. .“Marco Rubio, como muitos membros da Administração, pode sair em algum momento. [...] Mas, neste momento, o presidente Trump continua a lançar a ideia de um ticket Vance-Rubio, e Rubio diz que não vai enfrentar Vance. Certamente não se deve ignorar o facto de que dois dos principais intervenientes em tudo isto não parecem estar a desvalorizar a ideia”, afirmou Eric Bradner, o jornalista da CNN especializado na cobertura do Partido Republicano.Quem pode aproveitar a fragmentação na MAGA - Make America Great Again, a base populista e de extrema-direita tradicionalmente fiel a Trump, é Marjorie Taylor Green. A congressista da Geórgia, que nesta segunda-feira, 5, deixa o cargo após desavenças com o presidente, tornou-se nos últimos meses uma das suas maiores críticas. Apesar de ter afirmado não ter plano para se candidatar à presidência, o tour que iniciou após anunciar a saída do Congresso pode indiciar o contrário. .Estes podem ser os favoritos, mas as primárias republicanas podem atrair muitos outros nomes, dos repetentes Ted Cruz e Ron DeSantis passando por Spencer Cox ou Sarah Huckabee Sanders.