O crime de Ksenia Karelina, uma ex-bailarina com dupla nacionalidade norte-americana e russa, foi doar 51,80 dólares (46,48 euros) a uma organização de caridade de Nova Iorque que envia ajuda humanitária para a Ucrânia - e que Moscovo dizia fornecer apoio aos militares ucranianos. A pena: 12 anos numa prisão russa por traição. Mas acabou por passar só 15 meses presa, tendo sido libertada esta quinta-feira numa troca com Arthur Petrov. Cidadão com dupla nacionalidade russa e alemã, Petrov foi detido em agosto de 2023 no Chipre, a pedido dos EUA, por suspeita de que exportava produtos de microeletrónica para fabricantes que forneciam armas e equipamento ao exército russo. Extraditado, foi acusado de inúmeros crimes, incluindo conspiração para contrabando, violação dos controlos de exportação e lavagem de dinheiro, e aguardava julgamento, arriscando uma pena de 20 anos de prisão.O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, confirmou a libertação de Karelina, que vive em Los Angeles e foi detida quando foi visitar a família. “Ela foi detida injustamente pela Rússia por mais de um ano e o presidente [Donald] Trump garantiu a sua libertação”, escreveu no X, reiterando que o presidente “continuará a trabalhar pela libertação de todos os americanos”.Esta é a segunda troca de prisioneiros entre Moscovo e Washington desde que Trump regressou à Casa Branca, revertendo a política de isolar os russos por causa da guerra na Ucrânia. Em fevereiro, a Rússia já tinha libertado o professor Marc Fogel, preso por posse de droga. Em troca, os EUA libertaram Alexander Vinnik, com ligações às criptomoedas e acusado de conspiração para lavagem de dinheiro. Ainda com Joe Biden na presidência, em dezembro de 2022, tinha havido uma outra troca de presos, a envolver a estrela do basquetebol Brittney Griner pelo traficante de armas Viktor Bout. A troca desta quinta-feira, que foi feita no aeroporto internacional de Abu Dhabi após mediação dos Emirados Árabes Unidos, surgiu antes do início das negociações entre as delegações norte-americana e russa em Istambul, que visam a melhoria dos laços diplomáticos. O diálogo, que durou quase seis horas, foi liderado pelo novo embaixador da Rússia em Washington, Alexander Darchiev, e a vice-secretária de Estado dos EUA, Sonata Coulter. “A Ucrânia não está na agenda”, tinha dito antes a porta-voz do Departamento de Estado, Tammy Bruce. “Estas negociações focam-se nas operações nas embaixadas, não na normalização da relação bilateral, que só pode acontecer, como já dissemos, quando houver paz entre a Rússia e a Ucrânia”, acrescentou. No encontro foi discutida a “estabilidade dos serviços bancários diplomáticos para as missões bilaterais”, com os EUA a reiterarem a preocupação com a proibição russa de contratação de funcionários locais. Ambas as partes acordaram realizar nova reunião.Em relação à Ucrânia, a vice-primeira-ministra Olha Stefanishyna anunciou esta quinta-feira que as consultas técnicas entre Kiev e Washington sobre o acordo de minerais começam esta sexta-feira. Trump vê o acordo como parte dos esforços de alcançar a paz entre ucranianos e russos, mas também como forma de recuperar os milhões de dólares que os EUA gastaram em assistência militar à Ucrânia (apesar de esta não ter sido em forma de empréstimo). “Nada pode ser negociado com a Ucrânia de uma forma que irá minar os compromissos e obrigações que a Ucrânia já tem, incluindo financeiras”, disse Stefanishyna. “Isto é algo que não está sujeito a qualquer forma de negociação”, acrescentou. Em causa as obrigações ligadas ao Fundo Monetário Internacional e à ajuda europeia. Entretanto, em Bruxelas, decorre esta sexta-feira uma reunião do Grupo de Contacto da Defesa da Ucrânia, sob a presidência conjunta do Reino Unido e da Alemanha. O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, participa por videoconferência (chegou a falar-se que poderia até nem assistir, o que seria a primeira vez em 27 reuniões). Segundo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o foco do encontro serão as falhas ao nível do sistema de defesa aéreo, com Kiev a querer estudar também a possibilidade de produzir armas no seu território.Esta quinta-feira, foi a vez dos 30 países que formam a “coligação das vontades” se reunirem na capital belga para discutir uma “força de garantias” para a Ucrânia, no caso de assinar um cessar-fogo com a Rússia. “Avançámos no ritmo deste planeamento, planeando colocar a Ucrânia na posição mais forte possível, para proteger a sua soberania e impedir qualquer nova agressão russa”, indicou o secretário da Defesa britânico, John Healey.