EUA bloqueiam apelos para a contenção de Israel e de Gaza

Washington prossegue via diplomática própria enquanto impede Conselho de Segurança das Nações Unidas de emitir declaração. Violência nas ruas alastra em Israel.

Os ânimos continuam exaltados entre o governo israelita e os grupos islamistas que controlam a Faixa de Gaza, com o primeiro a bombardear edifícios e outros alvos em retaliação aos rockets que os segundos lançam para Israel. No que são as hostilidades mais graves em sete anos já foram mortas pelo menos 56 pessoas em Gaza, incluindo 14 crianças, e sete em Israel, incluindo uma criança.

O exército israelita destacou 5 mil reservistas e aumentou a sua presença na fronteira de Gaza, enquanto o ministro da Defesa Benny Gantz disse que "não há neste momento uma data final para a operação". Depois de o gabinete de segurança ter aprovado uma escalada militar, são esperados mais vários dias de ataques a alvos do Hamas. O grupo islamista comprometeu-se a retaliar, mas também mostrou abertura a parar as operações se Israel retirar os militares junto da mesquita al-Aqsa, em Jerusalém.

O primeiro-ministro palestiniano Mohammad Shtayyeh pediu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para intervir. Mas este não deverá fazê-lo, tendo em conta que em dois dias seguidos os Estados Unidos impediram que se formulasse qualquer declaração sobre o tema. Washington está a trabalhar em pista própria nos bastidores. A administração Biden, que condenou a violência de ambos os lados, estava a tentar trabalhar com o Egito para negociar um cessar-fogo. Um funcionário egípcio disse à Associated Press na terça-feira que o Cairo está a trabalhar nos bastidores para negociar uma trégua, mas que as ações de Israel em Jerusalém tinham complicado esses esforços.

Hamas fez saber que aceita trégua se Israel parar ataques e retirar militares da mesquita al-Aqsa. Enquanto isso, Telavive aprovou escalada militar.

Entretanto os Estados Unidos enviaram um diplomata para a região, Hady Amr, vice-secretário de Estado adjunto encarregado dos assuntos israelitas e palestinianos. Antes, o secretário de Estado Antony Blinken falou ao telefone com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. Se Blinken "reiterou o apelo a todas as partes para que desanuviem as tensões e ponham termo à violência", o seu colega da Defesa Lloyd Austin, ao falar com o homólogo israelita, Benny Gantz, apoiou o "direito legítimo de Israel de se defender e ao seu povo". Semelhante declaração foi proferida por diplomatas da UE, do Reino Unido, Alemanha ou Itália, por exemplo.

"Penso que Israel tem um fardo adicional ao tentar fazer tudo o que estiver ao seu alcance para evitar vítimas civis, mesmo que responda legitimamente em defesa do seu povo", disse Blinken. O chefe da diplomacia norte-americana lembrou a "distinção muito clara e absoluta entre uma organização terrorista, o Hamas, que está a fazer chover indiscriminadamente rockets - de facto, a atingir civis - e a resposta de Israel a defender-se".

Na mesma ocasião, Blinken voltou a reiterar que apoia a criação de um Estado palestiniano independente. Aquando do início deste mais recente conflito, a administração Biden apelara para Israel impedir despejos de palestinianos em Jerusalém, o tema que desencadeou a violência, e cujo desfecho será anunciado pelo Supremo Tribunal.

A Rússia, também através do seu chefe da diplomacia, apelou para uma reunião do chamado Quarteto do Médio Oriente, que reúne ONU, UE, Estados Unidos e Rússia. "Hoje chegámos à posição comum de que a tarefa mais urgente é convocar o quarteto de mediadores internacionais", disse Sergei Lavrov ao lado de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, durante uma reunião em Moscovo.

Foi também através do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo que se soube na quarta-feira que o Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2006, está aberto a uma trégua. O vice-presidente do gabinete político do Hamas, Moussa Abu Marzouk, anunciou esta iniciativa durante uma conversa telefónica com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Mikhail Bogdanov. A concessão está, porém, condicionada à suspensão de ataques por parte de Israel e que o Estado judaico acabe com as "ações militares" na mesquita al-Aqsa no Monte do Templo.

Revolta árabe em Israel

Lod foi a primeira cidade mista (árabes e judeus), onde houve tumultos em larga escala por parte dos residentes árabes. Os manifestantes, com bandeiras palestinianas, queimaram carros e propriedades, incluindo uma sinagoga, e entraram em confrontos com a polícia, ao que Netanyahu declarou o estado de emergência naquela cidade. Mas o rastilho da violência foi ateado e chegou a outras cidades como Haifa, Acre ou Bat Yam, onde se registaram linchamentos, ora de cidadãos árabes, ora de cidadãos judeus.

Perante este estado de guerra nas ruas, o rabino chefe Yitzhak Yosef implorou aos judeus para não atacarem os cidadãos árabes. "Não devemos ser arrastados para provocações e para ferir pessoas ou danificar bens", disse.

cesar.avo@dn.pt

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