“Estes alemães [da ex-RDA] sentem-se atraídos pela ideologia de extrema-direita porque se sentem injustiçados”
Quando publicou Stasiland sentia que havia a chamada Ostalgie, a nostalgia da RDA? E existe ainda hoje?
Sim. Sim, existe. Sabe, recebi ontem um e-mail de uma mulher que era jornalista na RDA. Os jornalistas numa ditadura trabalham para o departamento de relações públicas do regime, porque trabalham para o jornal que é o órgão do regime. E ela escreveu-me detalhadamente a dizer que não era assim tão mau, que o meu livro não se deveria chamar Stasiland. Ela cresceu numa pequena cidade na Saxónia e diz que era feliz lá. E que no seu círculo social, todos conheciam os espiões e os informadores, o que, naturalmente, não é verdade. Mas por vezes davam informações falsas a estes informadores tentando enganar a Stasi, dizendo que uma vez a Stasi tentou recrutá-la com um homem muito bonito, mas por sorte ela estava doente nesse dia e não foi para a cama com ele. Ela achava que havia demasiados adjetivos no meu livro, por isso pensou que podia comentar a minha escrita. E ela achava, fundamentalmente, que o meu ponto de vista era ocidental e que eu estava a criticar o Leste. É aqui que podemos ver um pouco do que se passa hoje, porque o meu ponto de vista é democrático. O meu ponto de vista é contra uma ditadura. Para mim, não se trata de Ocidente contra Leste. Para mim, trata-se de democracia. A democracia, mesmo que funcione mal, é melhor do que uma ditadura, que funciona sempre mal. Mas esta ideia de que ela está na equipa do Leste e que todos os outros criticam o Leste ainda persiste. É outro fator que ocorre na Alemanha de hoje. No meu livro, escolhi pessoas comuns, não ativistas famosos, para retratar as pessoas que resistiram. Havia muitas pessoas comuns que se recusavam a trair e a colaborar com a Stasi e a trair toda a gente nas suas vidas. Frequentemente, iam para a prisão. Frequentemente, tinham o seu direito à educação negado. Foram torturados psicologicamente com um método especial chamado Zersetzung, que tinha como objetivo induzir um colapso nervoso. Estas pessoas não foram homenageadas como heróis na Alemanha democrática. Quando escrevi o livro, há 25 anos, pensei que isso ainda pudesse vir a acontecer, mas não aconteceu nem vai acontecer. Então, o que aconteceu foi que as pessoas corajosas, as pessoas de consciência, que tentaram defender os direitos humanos, a humanidade, acabaram muito pobres e ainda hoje vivem com pequenas pensões, enquanto a Stasi conseguiu empregos, roubou dinheiro do Estado, abriu negócios de escolas de condução, bares, empresas de segurança ou investigação; os seus elementos foram contratadas por grandes empresas porque tinham antecedentes profissionais que podiam comprovar. E também receberam pensões elevadíssimas porque o governo da Alemanha Ocidental aceitou dar-lhes pensões equivalentes às que teriam recebido durante a ditadura. As vítimas, os heróis vítimas, foram esquecidos e empobrecidos pelo capitalismo, enquanto a Stasi se deu muito bem.
Quando escreveu o livro, o PDS era a maior expressão dessa Ostalgie da RDA, mas hoje em dia é a AfD que está a obter resultados altíssimos, como agora nas eleições regionais na Saxónia-Anhalt. Isto é uma surpresa para si, esta mudança para a extrema-direita em muitas pessoas que vivem na antiga Alemanha comunista?
Sim, mas apenas por causa das minhas próprias esperanças ou estupidez. O que aconteceu foi que ex-agentes da Stasi e figurões do Politburo roubaram o que puderam. A RDA estava falida, mas havia cerca de 16 mil milhões de marcos, o equivalente em marcos da Alemanha Ocidental, de dinheiro público que a Stasi roubou. Enviaram o dinheiro para contas bancárias suíças, isso foi investigado, e roubaram-no, por isso tinham-no. Parte desse dinheiro foi utilizado, como já disse, para financiar negócios individuais, mas também para financiar campanhas de partidos políticos. Assim, primeiro, passaram de ser o partido SED da Alemanha de Leste a PDS, e depois este transformou-se em Die Linke. Mas estes partidos eram os sucessores da Stasi e do SED na Alemanha de Leste. Portanto, eram partidos de extrema-esquerda, anti-democráticos. Tinham uma aversão à democracia, e isso estendeu-se por toda a década de 90 e depois. Depois sentiram-se injustiçados, disseram que a democracia era má, o capitalismo era explorador, etc., etc., à esquerda. E agora temos a AfD. O Die Linke e outro partido de extrema-esquerda existem mas muitos membros aderiram à AfD. A antiga extrema-esquerda e a extrema-direita são partidos de queixas contra a democracia. Queixas contra as elites. São anti-imigração, a procura de um bode expiatório para culpar por tudo. A situação muito estranha na Alemanha de Leste tem várias razões, que são complexas, e nenhuma delas explica tudo por completo. Mas, na Alemanha de Leste, não havia reconhecimento do passado nazi. Assim que os russos entraram, em 1945, como conquistadores, criou-se a ficção de que todos os nazis vieram do Ocidente e para lá regressaram. Que o nazismo e o fascismo surgiram do capitalismo. Que todos eles estavam no Ocidente. E que os alemães de leste sempre foram bons irmãos comunistas com os russos. Essa é a mentira fundamental. Depois, em 1989, quando o Muro de Berlim cai e o regime cai, há 17 milhões de pessoas sem aquilo a que os alemães chamam Aufarbeitung, sem lidar com o passado nazi, sem sentido de responsabilidade por esse fascismo. Para eles, o fascismo é algo teórico, enquanto no Ocidente é real e as pessoas sentem-se mal por isso, mesmo três ou quatro gerações depois. Assim, estes alemães sentem-se atraídos pela ideologia de extrema-direita porque se sentem injustiçados. Sentem que o Ocidente os invadiu. Sentem que não são tão ricos como o Ocidente. Sentem que o Ocidente chegou, expulsou-os dos seus empregos e assumiu o controlo das universidades e assim por diante. É um cenário complexo porque, na verdade, o Ocidente investiu enormemente na Alemanha de Leste. E agora, na Alemanha de Leste, existe uma infra-estrutura melhor, mais recente, construída desde 1990, desde a reunificação, muitas vezes melhor do que no Ocidente. Portanto, muito dinheiro foi para o Leste, mas ainda existe esta política de ressentimento e queixa, que é explorada pela AfD. E depois arranjam um bode expiatório para isso, que são os imigrantes. E assim surge este partido racista. Outra característica da AfD é o seu forte apoio à Rússia, o que é consequência da ditadura, que, de certa forma, era uma ditadura de estilo soviético, controlada pelos soviéticos. É por isso que são pró-Rússia.
A diferença de riqueza entre as duas partes da Alemanha é hoje muito menor do que quando caiu o Muro de Berlim. Mesmo assim, ainda persiste ressentimento em relação à reunificação de 1990?
Sim. Quando se analisa a história, a Alemanha de Leste era um lugar de escassez. Não se conseguia ter um telefone, não se conseguia ter um carro, não se conseguia sair do país, não se conseguia viajar. Havia escassez de alimentos, escassez de medicamentos, havia escassez em geral. Sabe, era um país pobre com uma economia disfuncional. Isso já não acontece. Mas foi também um país que, nos seus mais de 40 anos de existência, conseguiu desenvolver um orgulho nacional, um sentido anticapitalista e antifascista do que é ser da Alemanha de Leste. E penso que para as pessoas que se identificam com um país, é extremamente difícil quando esse país desaparece de uma forma que lhes causa vergonha, muito repentinamente. Então, as pessoas dizem coisas como: “Mas eu tive uma infância feliz. Não foi tudo mau”. Marianne Birthler, depois da reunificação, era a chefe da autoridade responsável pelos arquivos da Stasi quando esta ainda existia. Agora foi desmantelada. Mas ela dizia que na Alemanha de Leste, “só se alguém não se mexesse é que não sentiria as correntes”. Então, as pessoas que dizem: “vivi tempos felizes”, não tentaram fazer nada. Não tentaram ser artistas, não tentaram ser escritores, não queriam ser jornalistas, não queriam justiça no regime, não queriam protestar contra as injustiças do regime, e eram muitas. Por isso, acho que as pessoas têm nostalgia de um lugar que nunca existiu em nome de algum tipo de orgulho nacional. E a ideia de que a ditadura criou um lugar feliz para as pessoas é uma completa mentira.
O seu livro teve grande sucesso há 20 e tal anos com numerosas traduções, e continua a fazer sucesso até hoje. Existe uma espécie de curiosidade mórbida sobre a RDA?
Penso que o livro trata, na verdade, da coragem e da consciência humanas em circunstâncias muito difíceis. Trata-se de pessoas comuns que possuem uma coragem e uma consciência extraordinárias. Portanto, isso é universal. Acho que a forma como foi escrito é muito íntima. Acho que é muito comovente. Acho que isso explica a loucura desta ditadura. Mas também explica como a coragem humana, a consciência humana e a dignidade humana podem sobreviver nas piores circunstâncias. Mais recentemente, vivemos num mundo de vigilância. E vivemos num mundo onde há cada vez mais ditaduras totalitárias. Infelizmente. Eu pensava estar a escrever este livro sobre o passado, mas com temas eternos sobre a humanidade.

