O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, decretou ontem três dias de luto pela morte de pelo menos 40 pessoas no descarrilamento de dois comboios de alta velocidade em Adamuz, na província de Córdoba, no domingo à noite (18 de janeiro). “Todos nos perguntamos como é que isto foi possível, o que aconteceu. O tempo e o trabalho dos especialistas dar-nos-ão a resposta. Descobriremos a verdade e, quando soubermos a resposta, divulgá-la-emos ao público com total transparência”, disse Sánchez.Este é o terceiro acidente ferroviário mais grave em Espanha desde o de El Cuervo, em Sevilha, em 1972, em que morreram 86 pessoas. Em 2013, outras 80 pessoas morreram no acidente de Angrois, em Santiago de Compostela. Em Adamuz, além dos 40 mortos (o número poderá subir, com as autoridades a dizer que havia corpos presos nos destroços), há registo de 122 feridos (entre eles cinco crianças). Esta segunda-feira havia ainda 43 pessoas hospitalizadas, sendo que 12 (uma delas menor) estavam em unidades de cuidados intensivos. Nove estavam em estado grave. Fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros português disse à Lusa que dois cidadãos lusos foram sinalizados pelas autoridades espanholas: uma ferida ligeira que já estava em casa e um outro caso, cuja condição de saúde não era conhecida. O acidente ocorreu às 19h45 de domingo (18 de janeiro). As três carruagens traseiras do comboio da operadora privada Iryo, que fazia o trajeto entre Málaga e Madrid, descarrilaram, invadindo a linha adjacente, onde circulava um comboio da Alvia (da operadora Renfe), que tinha saído da capital espanhola com destino a Huelva. No primeiro comboio viajavam 294 passageiros e, no segundo, 184. O Alvia ainda tentou travar, mas seguia a 210 quilómetros por hora (abaixo do limite de 250 km/h naquela zona), e não conseguiu. O maquinista de 27 anos foi uma das 40 vítimas mortais. O embate ocorreu 20 segundos depois do descarrilamento, tempo insuficiente para o mecanismo de segurança que bloqueia a circulação quando há um obstáculo na via ser acionado. As duas primeiras carruagens do Alvia, onde seguiam 53 pessoas, viraram um emaranhado de destroços. Os dois comboios acabaram a 800 metros de distância.O ministro dos Transportes espanhol, Óscar Puente, fala num acidente “muito estranho”, já que aconteceu numa reta, numa via renovada em maio do ano passado e com um comboio com menos de quatro anos, que tinha passado a última revisão quatro dias antes. O presidente da Renfe, Álvaro Fernandez Heredia, disse à Cadena Ser que o acidente aconteceu “em condições estranhas”, acrescentando que está “praticamente descartado” a ideia de “erro humano”. A agência Reuters, citando fontes anónimas, disse que os técnicos no local terão identificado um desgaste na junção entre as secções do carril, conhecida como tala de junção, o que, segundo eles, indicava que a falha já existia há algum tempo. A junção defeituosa criava uma folga entre as secções do carril, que aumentava à medida que os comboios continuavam a circular na linha. .Junta dos carris partida terá causado acidente ferroviário em Espanha. Dois portugueses estão bem de saúde.Nos últimos meses, a gestora pública de infraestruturas ferroviárias (Adif) tinha alertado nas suas redes sociais para oito problemas técnicos neste troço, a maioria relacionado com sinalização. A Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários, um organismo independente, embora ligado ao Ministério dos Transportes, está encarregue da investigação.Na declaração à imprensa em Adamuz, Sánchez alertou para o risco de “desinformação” como ocorreu noutras tragédias - por exemplo após as cheias de Valência, com mensagens de que o Estado não funciona e “só o povo salva o povo”. O primeiro-ministro falou também na importância da união. “Todas as tragédias exigem duas coisas da sociedade e das suas instituições: unidade no luto e unidade na resposta”, afirmou. “O Estado agiu como devia: unido, coordenado e com lealdade”, acrescentou, ao lado de vários ministros e do presidente da Junta da Andaluzia, Juanma Moreno (do Partido Popular). O líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, foi o primeiro a pedir para cancelar o encontro que tinha previsto esta segunda-feira (19 de janeiro) com Sánchez (o primeiro em vários meses), depois do acidente, dizendo que era mais importante neste momento acompanhar as vítimas. Já o líder do Vox, Santiago Abascal, ignorou a mensagem de unidade, responsabilizando desde o primeiro momento Sánchez pelo sucedido. “Somos governados pelo crime, pela mentira e pela traição aos interesses do povo. O colapso de um governo mafioso ameaça derrubar todo o Estado, tanto a nível nacional como internacional. Ponto final”, insistiu Abascal no X.