Enrique Díaz Álvarez: “Apelar ao bem comum é das coisas mais revolucionárias que existem hoje”
Mexicano da safra de 1976, Enrique Díaz Álvarez é professor de Pensamento Político Contemporâneo na Faculdade de Ciências Políticas da UNAM. As suas obras debruçam-se sobre os mais vulneráveis e a desumanização de que são alvo. Esteve esta semana em Lisboa para o lançamento do mais recente ensaio O Intolerável.
O livro reúne exemplos de pensadores que decidiram expor os corpos de prisioneiros, como Michel Foucault, de imigrantes, como John Berger, e de imigrantes encarcerados, como Richard Mosse. Em Portugal, durante o período revolucionário, dizia-se que a cantiga é uma arma. Neste caso, palavras e imagens são armas para quê?
Para nos libertarmos da anestesia. Parto da premissa de que vivemos numa era complexa, com uma deriva autoritária e a ascensão da extrema-direita, que nos dessensibiliza, ou mesmo normaliza, a violência, a desumanização, o abuso de poder e a humilhação dos grupos mais vulneráveis. Preocupa-me a brutalidade de administrações como as de Trump e de Netanyahu, mas também a nossa indiferença, a nossa insensibilidade. E penso que foi por isso que este livro nasceu, em certa medida, da impotência, da necessidade de pensar com o corpo todo. E para pensar com o corpo todo, estas expressões que referiu costumam ajudar bastante. Não conhecia o lema “a cantiga é uma arma”, mas adorei. Creio que, em muitas ocasiões, contar uma boa história, honrando a linguagem com as palavras mais precisas e justas como fazem os poetas, numa era como esta de ruído, mentiras, desinformação e ofensas, é em si um ato de resistência.
Cita várias vezes Espinosa sobre a questão do corpo.
Creio que hoje assistimos à mobilização, pela extrema-direita, daquilo a que Espinosa chamou paixões tristes: o ódio, o medo, o ressentimento, a nostalgia. E creio que, numa perspetiva democrática, crítica, ou de esquerda, devemos confrontar estes discursos xenófobos, racistas ou francamente desumanizantes. Em primeiro lugar, com argumentos e princípios sólidos, mas também com valores partilhados. Espinosa dizia que somos movidos mais pelas emoções do que pela razão, e que uma emoção só pode ser combatida com outra, diferente e mais forte. Assim, no livro, foco-me nisto: na possibilidade de considerar outras emoções numa perspetiva democrática, como, por exemplo, sentir vergonha ou responsabilidade coletiva.
Não será precondição da responsabilidade coletiva haver um sentimento de comunidade, uma maioria na opinião pública e publicada, quando hoje há um espartilhamento dos cidadãos entre redes sociais, em scroll infinito?
Essa é uma boa pergunta, e é uma das coisas mais preocupantes. Penso que estas novas formas autoritárias de governo, os oligarcas da tecnologia, estão a apostar na polarização, no nosso isolamento, na nossa desconexão, na nossa compreensão irresponsável da liberdade. Vale tudo em nome da nossa própria satisfação pessoal. Para eles, o sucesso significa passar por cima dos outros, ser líder, destacar-se a qualquer custo, e isso exige um tipo de afeto diferente. Por exemplo, precisamos de redefinir o que entendemos por liberdade e igualdade, e também de recuperar um conceito como fraternidade, o terceiro princípio democrático da Revolução Francesa, e o único dos três que incorpora um afeto — um afeto revolucionário. Apelar ao bem comum, ao interesse comum, é das coisas mais revolucionárias que existem hoje. Os [antigos] gregos já estavam muito preocupados com o risco de terem cidadãos ignorantes. Para eles, um idiota era um cidadão que só pensava em seu próprio benefício, na sua vida privada, na sua casa, nos seus próprios assuntos, e que negligenciava o bem comum. Já viam isso como um grande perigo. Precisamos de atualizar isto e pensar em como ser menos idiotas e como abordar questões básicas e comuns a todos, ou seja, o direito a uma habitação digna a preços acessíveis, um sistema de saúde pública robusto e digno, pensões suficientes para viver, questões que são comuns e que não estão na agenda dos libertários neoliberais.
O Intolerável vai buscar o seu nome à série de folhetos do Grupo de Informações sobre a Prisão, de Foucault, mas também recupera o ensinamento de Karl Popper sobre não tolerarmos os intolerantes. O que resta aos cidadãos para lá da indignação viral das redes sociais que dura segundos?
Sim, o livro começa com o ativismo político de Foucault nos anos 70. Seguindo Foucault, sabemos que o poder é essencialmente aquilo que reprime os corpos, as classes, a natureza, e que, se queremos compreender a verdadeira face do poder, devemos prestar atenção às prisões. Porque é aí que o poder se revela nu, sem máscaras, sem restrições, e eu retomo essa ideia. Hoje, o poder está exposto nos centros de detenção de migrantes e nos campos de refugiados do ICE, e precisamos de saber o que acontece lá dentro: o que comem, como dormem, se estão a receber os seus medicamentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, morreram 19 mexicanos em circunstâncias muito obscuras e, fazendo eco de Foucault, temos o direito de saber, temos a necessidade de saber. Por outro lado, creio que hoje a tolerância como virtude política já não chega. Em Voltaire, Locke, nos pensadores do Iluminismo, a tolerância surgiu para confrontar os fanáticos religiosos. Hoje a tolerância é insuficiente; envolve muita resistência, muita paciência, e parece traduzir-se em apatia, em indolência. Já não nos serve confrontar os fanáticos do próprio grupo, aqueles que veem o outro como uma ameaça, como um bode expiatório, como um animal. E é por isso que precisamos de recorrer, em vez disso, a uma ética do intolerável; ou seja, àquilo que não podemos tolerar sem prejudicar o nosso tecido social. Não podemos tolerar, por exemplo, a detenção de uma criança de cinco anos em Minneapolis. Não podemos tolerar assistir à transmissão em direto de um genocídio.
O caso do pequeno Aylan Kurdi demonstra que as perceções são extremamente voláteis. Neste momento, a imigração é vista em vários países europeus como uma das principais preocupações e um tema que continua a alimentar a extrema-direita com votos. O que está mal neste debate que esvaziou a esquerda e o centro político?
Detive-me na imagem insuportável de Aylan Kurdi, o menino sírio que acabou por ir parar a uma praia da Turquia. E preocupa-me particularmente a efemeridade da onda internacional de solidariedade. A indignação nas redes sociais não durou muito tempo, e até as políticas públicas de Merkel e da União Europeia foram de curta duração. Logo a seguir veio o Brexit. Depois, a Europa decidiu externalizar as fronteiras para países onde os direitos humanos são sistematicamente violados. E é isso que me preocupa: que a compaixão não seja suficiente. Como podemos garantir que estas coisas perduram? É por isso que apelo à responsabilidade coletiva no livro. Não somos responsáveis pelas vítimas, mas somos responsáveis perante as vítimas. E nós somos responsáveis, disse Hannah Arendt, filósofa que foi exilada e refugiada, que viveu 18 anos sem documentos. Penso que devemos prestar atenção a autores que também foram migrantes, refugiados ou exilados. Arendt é uma delas. E ela disse que só somos culpados por aquilo que fizemos. Mas responsabilidade... alguém pode ser responsabilizado por coisas que não cometeu pessoalmente, simplesmente por pertencer a uma comunidade política, a um Estado, a um grupo, a uma comunidade. Sim, somos responsáveis pelo que este grupo nacional faz em nosso nome. E podemos dizer que não, não com os meus impostos, não em meu nome. E sentir vergonha pelos desavergonhados que nos governam, por exemplo. E este tipo de vergonha, este sentimento de responsabilidade, pode ser a faísca que nos leva a agir.
E quanto à responsabilidade da esquerda e do centro políticos?
Trump, ou Milei, ou figuras como eles, não são assustadores. São um sintoma de um problema maior. O que nos deve preocupar é o que está a causar isto. Que condições devem existir para que estes indivíduos alcancem o poder através de meios democráticos? É sobre isso que precisamos de ser autocríticos. E é aí que precisamos de considerar que esta insatisfação, este desconforto com a democracia entre muitas gerações jovens, precisa de ser abordado. A democracia precisa de reconquistar as pessoas, sobretudo as gerações mais jovens, os trabalhadores que muitas vezes votam em milionários - uma completa contradição. E esta reconquista deve passar também pela projeção de um futuro desejável, um futuro diferente daquele prometido por estes oligarcas que defendem a liberdade sem responsabilidade, onde o domínio e o sucesso pertencem a quem oprime os outros. Esse é o grande desafio. Como podemos encontrar pontos em comum? E como podemos adotar uma abordagem menos solene, mais prática, para que a democracia possa voltar a ser um espaço estimulante, um espaço de sonhos, de alternativas, de imaginação? E isto não é ingenuidade ou infantilidade, como possa parecer; houve um tempo em que as mulheres terem direito ao voto era certamente um sonho utópico, houve um tempo em que o dia de trabalho de oito horas também parecia utópico, e, no entanto, tornou-se realidade precisamente porque alguém o concebeu, porque alguém o imaginou. E é exatamente isso que nos falta: conceber culturas alternativas que sejam desejáveis. Isto é crucial para as nossas vidas porque há alterações climáticas, só temos um planeta, e se não nos ligarmos ao que temos em comum, continuaremos a ter estas ondas de calor que farão com que em janeiro se atinja os 40 graus.
Em que medida enquadra o sucedido em Ceuta, em julho, com as suas reflexões? A esta distância, quem esteve pior neste drama?
No caso de Ceuta, a gestão da crise foi muito errática. Mas temos um exemplo claro de como estes corpos migrantes estão a ser explorados. Ainda é uma questão muito opaca, mas parece um exemplo de como não só são criminalizados, como também são explorados, talvez como forma de pressão política entre os governos marroquino e espanhol. Também vemos toda uma retórica xenófoba e racista que até se apropriou das metáforas. Temos de ter cuidado com as palavras e encontrar as mais apropriadas, porque “invasão” é léxico bélico. Eram jovens, na maioria, que atravessaram a nado ou a pé, sem armas. Eu venho da Cidade do México, e lá é preciso ter cautela para sobreviver, por isso sempre me perguntei quem beneficia deste tipo de crise. E não é por acaso que me parece que são precisamente os partidos de extrema-direita que beneficiam destas imagens dramáticas. E o que revelam é que precisamos de elevar a ética, a política e as nossas leis para responder à altura das deslocações. Precisamos de imaginar formas de coexistir e regular situações que muitas vezes já existem. Não podemos cair nesta tendência desumanizadora, porque temos exemplos muito contundentes de coisas negras que aconteceram no século passado.
O Intolerável: Repulsa, vergonha e responsabilidade colectiva perante a crueldade contemporânea
Enrique Díaz Álvarez
Zigurate
172 páginas
