Cinco dias depois do duplo terramoto que fez dezenas de milhares de desaparecidos, a terra voltou a tremer em La Guaira e em Caracas. Desta vez, a réplica, sentida um pouco depois das 7h locais, atingiu a magnitude 4,6 na escala de Richter. Enquanto as equipas de resgate lutavam contra o tempo, a sensação de impotência instalava-se, em definitivo, entre os habitantes, e o regime atualizava o número de mortos para 1719 e o de feridos para 5034, sem uma referência aos que permanecem entre escombros. Segundo uma plataforma não oficial de registo de desaparecidos, o número ascendia a 68.900.“Já não há nada, não há nada para nós lá em baixo, uma cidade onde não se pode viver, onde não há água, não há luz, não há edifícios, não há supermercado, nem hospital, não há nada”, lamenta à agência EFE Francis Martín. Junto com a sua mãe, esta mulher de 24 anos conseguiu escapar da casa onde vivia num bairro de La Guaira. O edifício, acredita, é passível de recuperação, mas de nada serve numa cidade devastada. “Dói-me muito saber que não vou poder voltar a pisar a minha casa e que não vou poder viver lá.” .A casa de Martín, no bairro de La Llanada, em La Guaira, pode ter ficado de pé. Mas imagens de drones da Agência France-Presse mostram bairros inteiros onde nenhum edifício resistiu aos abalos sísmicos de magnitudes 7,2 e 7,5 na quarta-feira. .430Réplicas dos sismos de quarta-feira foram registados na região de Caracas. A réplica mais forte de segunda-feira atingiu os 4,6 na escala de Richter..As operações de busca de potenciais sobreviventes prosseguiram, mas a janela temporal para os encontrar estava a fechar-se. Os especialistas dizem que as 72 horas após o desastre são cruciais, embora haja casos de sobrevivência para lá do expectável. Por exemplo, nos sismos de 2023 na Turquia e na Síria, uma mulher de 77 anos foi encontrada com vida ao fim de mais de nove dias (228 horas). É a essa esperança, por ténue que seja, que os familiares dos desaparecidos se agarram ao acompanharem as operações dos socorristas. “Temos de nos manter fortes, mesmo sem comida, sem dormir”, disse à Associated Press Ana Rada, enquanto observava os esforços dos profissionais de busca e salvamento à procura do irmão. “Até ver o corpo, ainda tenho esperança.” .36Vítimas resgatadas com vida dos escombros. Ao balanço de domingo de 33 sobreviventes, juntam-se três salvamentos em Caraballeda..Nas ruínas de Carabelleda, zona costeira de La Guaira, — e, horas depois, epicentro do sismo de 4,6 —, foi resgatado com vida um jovem de 21 anos, Aaron Vargas. A operação demorou 43 horas e envolveu equipas da Venezuela, México e El Salvador. O presidente deste último país, Nayib Bukele, publicou as imagens do salvamento, que foi dificultado pelo facto de um cadáver ter ficado entre os socorristas e o jovem aprisionado nos escombros.Em resposta à frustração e sentimento de impotência, também devido à perceção de que o governo agora presidido por Delcy Rodríguez teve uma resposta lenta e insuficiente, o regime respondeu com imagens da líder interina a visitar uma escola transformada em abrigo, bem como de sobreviventes a serem retirados dos escombros.