Vindo de uma noite em que o relvado da Casa Branca se transformou numa arena de luta de artes marciais mistas (MMA) por ocasião do seu octogésimo aniversário, Donald Trump chegou “feliz” a Évian-les-Bains, estância termal militarizada para receber os líderes do Grupo dos 7 (G7) e seus convidados. Horas antes assinou de forma digital um acordo que cala as armas e reabrirá o estreito de Ormuz, mas que deixa os temas espinhosos para um próximo quadro de negociações. Do lado de Teerão, cujo signatário foi o presidente do Parlamento Bagher Qalibaf, a mensagem incidiu em que se conseguiu arrancar concessões de última hora a Washington em troca de uma retaliação contra Israel pelo bombardeamento de Beirute no domingo. A cimeira do G7 já tinha na agenda a discussão sobre o Médio Oriente, tendo a presidência francesa convidado dignitários do Egito, Arábia Saudita, Emirados e Qatar para o efeito. Mas o memorando de entendimento, a ser oficializado na sexta-feira, na Suíça, entre representantes do Irão e dos EUA, abriu um novo ângulo para as conversações. “Estou muito feliz. O acordo está assinado e o estreito [de Ormuz] já está parcialmente reaberto. Como sabe, estão a fazer uma pequena busca por algumas minas que já detetaram, mas basicamente os navios estão agora a começar a sair. Na sexta-feira estará completamente aberto”, disse o presidente norte-americano ao homólogo francês. .Acordo anunciado entre EUA-Irão apesar do bombardeamento de Israel a Beirute.Como os próprios membros da sua entourage fazem questão de lembrar, não se pode tomar Trump à letra. Segundo fontes consultadas pela Reuters, a operação de draga-minas e drones subaquáticos pode demorar entre 40 e 50 dias. Isso fará com que as empresas de transporte marítimo, as petrolíferas e as seguradoras hesitem em restabelecer a navegação no estreito de Ormuz até lá. .“Vamos fazer de tudo, antes de mais nada, para garantir que este acordo se torne realidade, que Ormuz possa ser reaberto pacificamente e o tráfego possa voltar ao normal.”Emmanuel Macron.“Não acho que precisemos de muita ajuda, porque concordámos que a passagem seria aberta, mas não seria inútil enviar alguns navios de outros países para o local.”Donald Trump.Sobre os negociadores iranianos, Trump disse a Emmanuel Macron: “Demo-nos muito bem com o Irão. É um conjunto diferente de dirigentes. Como sabe, o primeiro foi-se, o segundo também. Achámos que o terceiro conjunto é muito esperto e forte”, continuou, tendo ainda revelado que se sentiu mal pelas duas noites de ataques realizados há dias, mas que o progresso das negociações evitou uma prometida terceira noite de bombardeamentos. Segundo o Wall Street Journal, o comandante dos Guardas da Revolução Ahmad Vahidi emergiu como o grande vencedor da estratégia iraniana ao advogar pela recente retaliação com mísseis balísticos contra Israel, mantendo uma linha inflexível. .“Se todas as disposições deste memorando forem devidamente aplicadas, será considerado uma fonte de orgulho para o país.”Masoud Pezeshkian, presidente do Irão.Segundo a agência iraniana Fars, o Irão e Omã serão reconhecidos como autoridades para o estreito de Ormuz no memorando de entendimento. Nos próximos 60 dias, Teerão irá garantir a passagem livre pelo estreito, mas depois desse período os navios terão de pagar uma taxa — e não uma portagem — para cobrir serviços ambientais, de segurança, de navegação e de seguro. “Nos momentos finais das negociações, o texto do memorando de entendimento foi alterado para enfatizar clara e explicitamente a questão da soberania iraniana-omanense sobre o estreito de Ormuz”, noticiou a Fars, tendo sido inserida uma cláusula sobre as taxas de serviços marítimos. Este anúncio surgiu depois de Trump ter dito que a via marítima permaneceria “permanentemente livre de portagens”. Este é um exemplo de como há uma série de questões por limar. Aliás, até sexta-feira, diplomatas de ambas as partes continuarão o processo negocial. A data em que o próprio texto final do memorando de entendimento — que não é mais do que um pré-acordo para um posterior acordo de paz — será divulgado na íntegra continua objeto de declarações contraditórias. Segundo afirmou segunda-feira um funcionário da Casa Branca, os pormenores serão revelados “nas próximas 24 a 48 horas”. Já Trump disse que gostaria que o mesmo seja conhecido do público a partir de sexta-feira, “porque é um documento muito poderoso”.O vice-presidente J.D. Vance, que irá assinar o acordo na Suíça, disse em entrevistas à ABC e à CBS que o documento foi assinado digitalmente, mas que não envolveu qualquer transferência de fundos. E negou que tenha ficado acordado o descongelamento de 24 mil milhões de dólares de ativos iranianos. No entanto, confirmou que foi discutido um fundo para a reconstrução do Irão no valor de 300 mil milhões de dólares. “É esse tipo de coisas a que eles poderão ter acesso desde que cumpram a sua parte”, disse.E o Líbano?O memorando de entendimento prevê “o fim imediato e definitivo da guerra e das operações militares em diferentes frentes, incluindo no Líbano”, declarou Kazem Gharibabadi, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano. No entanto, disse o funcionário da Casa Branca aos jornalistas, a retirada de Israel do Líbano não é uma condição para o acordo entre os EUA e o Irão. Em Évian, Trump manifestou vontade de solucionar a questão do Líbano. “O Hezbollah, temos de ter uma palavrinha com eles.”.“Eliminámos, para os anos vindouros, o perigo que pairava sobre nós da eliminação da população de Israel. Foi isso que fizemos. Salvámos o Estado de Israel da aniquilação.”Benjamin Netanyahu.Acossado por toda a oposição e pelos ministros dos partidos de extrema-direita, o primeiro-ministro israelita disse em conferência de imprensa que os objetivos da guerra contra o Irão foram cumpridos. Lembrou que Israel não irá assinar qualquer acordo e que o seu país não ficará “limitado” para prevenir que o Irão obtenha armas nucleares. Benjamin Netanyahu garantiu ainda que o exército não vai retirar do sul do Líbano porque se manteve “muito, muito firme”. O líder da oposição israelita, Yair Lapid, resumiu a questão: “O Estado de Israel venceu a batalha. Netanyahu perdeu a guerra.”E aindaAbbas marca eleiçõesO presidente da Autoridade Palestiniana Mahmoud Abbas marcou eleições para 2027. Abbas, de 90 anos, mantém-se no poder desde 2005, tendo várias vezes marcado e desmarcado atos eleitorais. Ben-Gvir sem sançõesOs ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, reunidos no Luxemburgo, não reuniram consenso para avançar com sanções contra o ministro da Segurança de Israel. Há três semanas, Itamar Ben-Gvir foi duramente criticado pelo tratamento que concedeu aos ativistas da flotilha que tentou furar o bloqueio marítimo de Israel a Gaza. Ainda em maio, Paris impediu a entrada do israelita, enquanto Roma abriu há dias uma investigação por suspeitas de tortura e rapto de cidadãos italianos. Ativistas banidosUm tribunal de segunda instância do Reino Unido decidiu que a denominação “terrorista” ao grupo ativista Palestine Action foi legal, revertendo uma anterior deliberação. Segundo o coletivo de juízes, o grupo participou numa campanha criminosa de ação direta contra “infraestruturas nacionais e empresas de defesa críticas”, incluindo àquelas que prestam apoio à Ucrânia e à NATO. 4 de julho à moda de TrumpDonald Trump anunciou que vai fazer um comício no dia do 250.º aniversário da independência dos EUA em Washington. “Vamos organizar o comício Trump mais espetacular de todos, um ‘tributo à América’”, escreveu no Truth Social. Além do seu discurso, anunciou que o evento terá o maior fogo de artifício de sempre e uma seleção musical da sua autoria. Os críticos de Trump afirmam que este está a apropriar-se da efeméride. .Grande Conferência DN: "Não é um acordo de paz, é um cessar-fogo, um calendário e uma agenda para futuras negociações"