A avaliar pelo comunicado final, a cimeira entre a primeira-ministra do Japão e o presidente da Coreia do Sul foi um sucesso. Na conferência de imprensa não faltaram sorrisos e sinais de harmonia. Do banquete não há novas, sinal de que a refeição correu como seria expectável. Porém, o que ficou desta reunião entre Sanae Takaichi e Lee Jae Myung foi o que se seguiu — ou, antes, o seu simbolismo. Com fatos azuis personalizados, cada qual sentou-se em frente a uma bateria (made in Japan) e improvisaram um dueto ao som de temas K-pop (música pop coreana). No final, o presidente Lee revelou ter “cumprido um sonho”. Por ter contribuído para a normalização das relações entre o seu país e o Japão? Não. “Desde jovem que sonhava tocar bateria.” . O momento inédito decorreu em Nara, cidade natal da primeira-ministra, no que também foi a primeira visita em 15 anos de um líder sul-coreano a uma cidade japonesa que não a capital. Takaichi, que na sua juventude era fã de heavy metal e tocava bateria, adaptou-se às melodias pop coreanas e conduziu Lee a acompanhar o som de Dynamite, do grupo BTS, e Golden, do filme KPop Demon Hunters. No final, houve uma troca de baquetas assinadas. “O evento foi organizado especialmente pela parte japonesa para simbolicamente demonstrar a relação e proximidade entre os dois líderes”, comentou o porta-voz presidencial Kim Nam-joon. “Transformou as conversas informais num momento único de intercâmbio cultural”, prosseguiu, citado pela agência Yonhap. .Depois da China, pragmatismo sul-coreano de Lee chega ao Japão.Quando o presidente norte-americano visitou o Japão, em outubro, Takaichi ofereceu a Donald Trump um taco de golfe que pertencia ao falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, um saco de golfe assinado pelo melhor golfista japonês (Hideki Matsuyama) e uma bola de golfe folheada a ouro. Lee também optou pelo dourado ao presentear Trump, mas de uma réplica de uma coroa. À época, ambos cortejavam o nova-iorquino para obterem um acordo aduaneiro mais benéfico. .Agora, Takaichi e Lee também coincidiram em vários pontos, do reconhecimento da importância estratégica das relações bilaterais, à necessidade de “trabalharem juntos para desempenhar um papel na garantia da estabilidade da região”, segundo o comunicado do governo japonês. Coincidiram — e discutiram — igualmente sobre a importância da coordenação estratégica, “incluindo a cooperação em matéria de segurança entre o Japão e a Coreia do Sul, bem como entre o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos”. Ambos reiteraram o objetivo da desnuclearização da Coreia do Norte.As relações de ambos os países com a China é outro tema não menos importante, mas Tóquio preferiu não o mencionar. Já Lee revelou ter enfatizado a necessidade de os três países do nordeste asiático “identificarem o maior número possível de pontos em comum para comunicarem e cooperarem”. O sul-coreano encontrou-se no início do mês com Xi Jinping em Pequim, onde as declarações de Takaichi sobre o Japão responder caso Taiwan seja atacada caíram como uma bomba. .China e Coreia do Sul acertam o relógio pela hora da paz.Lee, adepto do pragmatismo, está a tentar deixar para trás os desentendimentos do passado com as duas potências regionais. A sua política diplomática e económica está a ser aprovada pelos eleitores, com a taxa de aprovação em tendência de subida. Numa sondagem divulgada na segunda-feira, 56,8% dos inquiridos estão satisfeitos com o desempenho do presidente, mais 2,7 pontos do que na semana anterior.Pena de morte pedida ao ex-presidenteEm Seul, a equipa de procuradores especiais chamada a conduzir a investigação da tentativa de instauração da lei marcial, em dezembro de 2024, na Coreia do Sul, pediu a sentença de morte para o presidente à época, Yoon Suk Yeol, considerado o cabecilha de uma insurreição.“O antigo presidente Yoon declarou a lei marcial com o propósito de permanecer no poder por um longo período, ao apoderar-se do poder judicial e legislativo”, disse o procurador especial adjunto Park Eok-su na última sessão do julgamento, na terça-feira. “A natureza do crime é grave, uma vez que mobilizou recursos físicos que deveriam ter sido usados apenas no interesse do coletivo nacional.” Na sessão anterior, os procuradores recomendaram a prisão perpétua para o ministro da Defesa Kim Yong-hyun e penas de 15 a 30 anos para os comandantes policiais e militares que participaram na tentativa de golpe, o que incluiu a tomada (falhada) do Parlamento pelas tropas. Yoon acabaria por se tornar no primeiro presidente em exercício a ser preso.A sentença deve ser conhecida na sexta-feira. Apesar de prevista na lei, a pena de morte não é aplicada desde 1997. No ano anterior, o ex-ditador Chun Doo-hwan fora condenado à sentença de morte, mas a pena foi comutada para perpétua e pouco depois saiu em liberdade, perdoado.