José Luis Zapatero torna-se esta quarta-feira (17 de junho) no primeiro antigo chefe de governo espanhol a testemunhar em tribunal na condição de arguido. Em causa estão os crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa, relacionados com o resgate milionário à companhia aérea Plus Ultra na pandemia, mas também uma eventual evasão fiscal e contrabando, por causa das joias no valor de 1,3 milhões de euros que foram entretanto apreendidas.O antigo líder socialista tinha pedido ao juiz da Audiência Nacional para responder às questões sobre as joias noutro dia, mas José Luis Calama recusou. E quer ouvir todas as explicações de Zapatero, num escândalo que afeta o Governo de Pedro Sánchez - como outros que estão relacionados com a sua família (a mulher Begoña Gómez foi ouvida na segunda-feira, 15 de junho, num caso de corrupção) ou envolvem outros dirigentes socialistas e alegadas pressões para tentar travar investigações judiciais ao partido..De Zapatero a Begoña Gómez: as investigações que abalam Sánchez.A ministra para a Inclusão, Segurança Social e Migrações, que é também porta-voz do Executivo, reiterou esta terça-feira (16 de junho) a “confiança” no ex-primeiro-ministro. Zapatero, que tem participado ativamente nas campanhas do PSOE, exercerá o seu “legítimo direito à defesa”, afirmou Elma Saiz após o Conselho de Ministros, e prestará “explicações completas” ao juiz . A socialista insistiu ainda na defesa do “legado social” do antigo líder, que esteve na Moncloa de 2004 a 2011, e colocou Espanha em “níveis muito elevados de progresso nos direitos humanos”.Mas o mal-estar na coligação é visível, com os aliados do Sumar a admitir que o caso afeta o Governo e a exigir explicações. “Exigimos que o PSOE tome medidas. E já o disse muitas vezes: o que se passa na Rua Ferraz [sede do partido] não pode continuar a ser um fardo para a maioria progressista deste país”, disse o ministro da Cultura e porta-voz do Sumar, Ernest Urtasun, à TVE.Ainda assim, PSOE e Sumar uniram-se para travar uma votação no Congresso (proposta pelo Partido Popular e pelo Junts per Catalunya) que instava Sánchez a convocar eleições antecipadas. O primeiro-ministro tem defendido que vai levar o mandato até ao fim (as eleições estão previstas só para o ano) e que vai voltar a ser candidato. O líder de Aragão, Jorge Azcón (PP), expressou o seu “medo” sobre o que Sánchez pode estar “disposto a fazer” para manter o poder, apelidando Zapatero de “o senhor dos anéis” (por causa das joias). Zapatero foi convocado pelo juiz para testemunhar a partir das 9.00 (8h00 em Lisboa), estando previsto que regresse também na quinta-feira (18 de junho). Entrará pela porta principal da Audiência Nacional, normalmente usada só pelos juízes, e não pela lateral, destinada aos visitantes. O antigo primeiro-ministro, que prometeu num vídeo apresentar a defesa “com toda a firmeza e convicção”, contará com o apoio do advogado, Víctor Moreno Catena. E além das perguntas dos procuradores, terá que enfrentar as questões das várias acusações populares (representadas pelo PP, já que o juiz não autorizou a presença de todas)..Espanha. Zapatero diz-se inocente, PP quer eleições antecipadas.No caso Plus Ultra, Zapatero terá de convencer o juiz de que, como alegou no mesmo vídeo, “nunca” negociou com qualquer “administração pública ou setor público em relação ao resgate” de 53 milhões de euros à companhia aérea em 2021. Isto apesar de o magistrado considerar que ele é a “liderança não visível” de um esquema que pode ter ramificações que se estendem ao regime venezuelano. Também há a questão do dinheiro que terá sido canalizado para pessoas à sua volta, incluindo as filhas, cuja empresa está metida no caso.E depois há a joias, que foram encontradas num cofre no escritório do ex-líder socialista. O colar mais caro custa 278 mil euros, com a avaliação total a chegar a 1,3 milhões (inicialmente, um porta-voz de Zapatero, Luis Arroyo, tinha alegado que valiam 30 ou 50 mil euros, tendo depois pedido desculpa). O líder socialista diz que as joias são herança da mãe e da sogra e que estavam no escritório porque, na casa que aluga, não tem cofre. O juiz quererá saber pormenores.