A não ser que Donald Trump tenha estado a fazer bluff nos últimos dias e revele de madrugada a presença dos soldados norte-americanos em solo iraniano, escalando o conflito, a expectativa é que o presidente dos EUA anuncie na “atualização importante sobre o Irão” um prazo para a retirada - ou até um eventual acordo, mesmo se Teerão rejeita a existência de negociações. Pressionado pelos mercados e pelas sondagens, Trump está há semanas à procura de uma saída para o conflito e saberá “vender” a vitória dos EUA. E culpar os aliados por qualquer aspeto negativo. Horas antes da declaração à nação (prevista para as 21h00 desta quarta-feira, 1 de abril, Washington, mas já 02h00 de quinta, dia 2, em Lisboa), Trump disse à Reuters que os EUA vão sair do Irão “muito rapidamente” e poderão regressar, se for necessário, para “ataques pontuais”. A eficácia dos militares norte-americanos nunca esteve em causa (apesar dos elevados custos da guerra) e as declarações vão ao encontro daquilo que tem dito quase todos os dias. “Estamos a terminar o trabalho, e penso que em cerca de duas semanas, talvez mais alguns dias, conseguiremos concluí-lo”, disse ainda na terça-feira na Sala Oval. Na mesma ocasião, o presidente deixou claro que os EUA já alcançaram o principal objetivo para terem lançado a Operação Fúria Épica no dia 28 de fevereiro: eliminar a capacidade do Irão de ter uma arma nuclear. “Tinha um objetivo. Não terão armas nucleares e esse objetivo foi alcançado”, afirmou Trump. Mas, a não ser que o presidente surpreenda com a declaração de que os militares norte-americanos recuperaram o urânio enriquecido pelos iranianos (uma operação considerada muito arriscada pelos especialistas), Teerão continuará na posse de cerca de 400 quilos deste material (suficiente para dez ou 12 bombas, segundo o The New York Times).Trump pode alegar que o nuclear, que já tinha sido supostamente “obliterado” no ataque de junho de 2025, era o objetivo. Mas logo quando anunciou o início das “grandes operações de combate” argumentou que Teerão “tentou reconstruir o seu programa nuclear” e continuava “a desenvolver mísseis de longo alcance que podem agora ameaçar os nossos bons amigos e aliados na Europa, as nossas tropas estacionadas no estrangeiro, e que em breve podem atingir o território americano”. Mas, na semana passada, fontes dos serviços de informação militares norte-americanos disseram à Reuters que os EUA só conseguiam confirmar a destruição de um terço do vasto arsenal de mísseis iranianos (e provavelmente também um terço dos drones). Outro terço estará provavelmente danificado ou enterrado nos túneis e bunkers atingidos pelos bombardeamentos, mas não há certezas sobre isso. Apesar desta informação, o presidente insiste que “restam muito poucos rockets” a Teerão. Mas ainda esta quarta-feira (1 de abril), início da Páscoa Judaica, o Irão lançou pelo menos dez mísseis contra Israel (o número mais elevado em semanas). Em relação aos “bons amigos e aliados na Europa” com que estava preocupado, um mês foi suficiente para Trump mudar de opinião. Nas declarações à Reuters, o presidente deixou claro que na vai manifestar (na realidade reiterar) o descontentamento com a NATO - devido ao que diz ser a falta de apoio da aliança na guerra do Irão. E voltou a dizer que está “absolutamente” a considerar a saída dos EUA da organização de defesa. Uma declaração que repetiu numa entrevista ao britânico The Telegraph, descrevendo a NATO como um “tigre de papel”.Trump mostrou-se desiludido pela negativa dos aliados europeus em ajudarem a libertar o estreito de Ormuz (e até em autorizarem o uso das suas bases), depois de ter ficado surpreendido pelo Irão ter fechado esta importante via por onde passa 20% do petróleo mundial (muitos avisaram que isso ia acontecer) e continuar a atacar os países do Golfo. Trump já avisou que o estreito não é um problema dos EUA, exortando os aliados a ganharem coragem e a irem “buscar o vosso próprio petróleo”, abrindo a porta a deixar o conflito sem uma solução para Ormuz. Mas o aumento dos preços dos combustíveis afeta todo o mundo, incluindo os EUA - Trump orgulhava-se de os preços estarem a cair. Quanto mais a gasolina e o gasóleo sobem, mas a popularidade de Trump se ressente (o que não é positivo para o presidente em ano de eleições intercalares). Dois terços dos norte-americanos acreditam que os EUA devem acabar rapidamente o envolvimento na guerra do Irão, mesmo que isso signifique não atingir as metas estabelecidas pela Administração, segundo uma sondagem Reuters/Ipsos. A guerra mexeu com o petróleo e com os mercados, que reagem a cada mensagem de Trump. Quando anunciou que suspendia o ultimato de 48 horas que tinha dado a Teerão porque estava a negociar com a nova liderança iraniana, as bolsas subiram - apesar de o Irão ter negado qualquer diálogo. .Trump suspende ultimato ao Irão: TACO ou a abertura para o fim da guerra?.Esta quarta-feira (1 de abril), sabendo-se que preparava a declaração ao país, as bolsas voltaram a subir (das maiores subidas em semanas) e o petróleo a cair (chegou a estar abaixo dos 100 dólares o barril). A mudança de regime também chegou a ser apontada como um objetivo da guerra, com Trump a exortar os iranianos a “recuperar o país”. Israel contribuiu matando a liderança iraniana, incluindo o líder supremo Ali Khamenei. O presidente dos EUA tem defendido que isso significa uma mudança de regime, porque há novos rostos no poder. Esta quarta-feira (1 de abril), Trump alegou que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, “muito menos radicalizado e muito mais inteligente do que os seus antecessores” (na realidade já está no cargo desde 2024) teria pedido “um cessar-fogo”.E disse que consideraria o caso quando o estreito de Ormuz estiver livre mas, até lá, vai destruir “completamente” o Irão - há mais dez mil militares dos EUA na região do que os 40 mil habituais. O Irão rejeitou contudo que tivesse havido tal pedido..A guerra no Irão começou. Como acabará?