No dia 25 de janeiro, a repórter Lizzie Johnson publicou no X uma fotografia sua. Estava numa Kiev gelada e sem energia elétrica, a tentar não congelar dentro de um automóvel, a escrever com um lápis, porque a tinta das canetas estava congelada. No dia seguinte foi publicada uma reportagem sua sobre adolescentes ucranianos que são recrutados por russos para ações de sabotagem. Na quarta-feira, a correspondente na Ucrânia do Washington Post foi uma entre os 300 jornalistas, de um total de 800, que receberam um e-mail a anunciar que estavam despedidos. “Estou devastada”, reagiu Johnson.O seu diretor executivo desde meados de 2024, Matt Murray, defendeu a decisão como forma de garantir o “futuro” do Post. Foi a mais recente e dramática machadada no diário adquirido em 2013 por Jeff Bezos num negócio de 250 milhões de dólares. (Murray entretanto demitiu-se.)Durante anos, o proprietário da Amazon defendeu publicamente a liberdade de imprensa, bem como a independência da redação face a ele e aos seus negócios. “É uma instituição essencial com uma missão essencial”, escreveu em 2019, para depois desejar chegar aos 90 anos e orgulhar-se do que fez pelo jornal. Nesse mesmo ano, o ator Tom Hanks deu voz a um anúncio transmitido na final do futebol americano (Super Bowl), um evento cuja publicidade e atuações musicais têm tanto ou mais impacto do que o jogo em si. Eram os anos em que o diário se elevou como um farol com o seu lema Democracy dies in darkness (a democracia morre na escuridão), tendo feito uma cobertura sem compromissos do primeiro mandato de Donald Trump. O jornal terá chegado aos três milhões de assinantes e os seus profissionais continuaram a ser premiados, até no digital, onde o New York Times havia chegado antes e com mais meios.Mas a candidatura de Trump acabou por converter vários empresários da big tech, descontentes com a perspetiva de regulação, de pagarem mais impostos e de terem à perna o governo federal devido a práticas anticoncorrenciais durante o mandato de Joe Biden. Bezos, que entretanto deixou de ser o homem mais rico do mundo — é agora o quinto, segundo a Forbes — deitou pela janela o passado filantrópico. Por determinação sua, pela primeira vez em dezenas de anos, o jornal não apoiou um candidato. Em consequência perdeu 250 mil assinantes. Depois, a opinião passou a ter como foco “as liberdades individuais e o mercado livre”. Os editoriais passaram a ser um exercício de contorcionismo para não afrontar a Casa Branca, o que definhou ainda mais a marca de um jornal que tem no seu passado a revelação do Watergate. “Leitores leais, furiosos ao verem o proprietário Jeff Bezos a trair os valores que deveria defender, abandonaram o Post”, escreveu Martin Baron, o anterior diretor. “Na realidade, foram afastados às centenas de milhares.”O homem que sucedeu a Bezos no trono do mais rico, Elon Musk, também fez uma deriva política que culminou com uma saudação fascista (negada pelo próprio). Pelo meio envolveu-se não só com apoio financeiro à campanha de Trump (como os outros empresários das tecnológicas), mas também em ações de campanha, e depois como o chefe de facto do corte nos serviços públicos (incluindo a dotação para os meios de comunicação públicos, o que levou ao fim da Radio Free Asia e da Voice of America e deixou outros, como a PBS ou a NPR em situação crítica).. Instrumental na desregulação do ex-Twitter, agora X, ao alegar uma aparente “liberdade de expressão” sem limites para grassar a desinformação e conteúdos de extrema-direita na rede social, Musk pode vir a enfrentar a Justiça europeia. A Procuradoria francesa anunciou, na semana passada, no X — na sua última mensagem antes de encerrar a conta — que está a investigar os escritórios franceses da empresa, suspeita de manipular o algoritmo para facilitar ingerência política estrangeira; de extração fraudulenta de dados dos utilizadores, em especial para alimentar o chatbot Grok; de negação de crimes contra a Humanidade (o Grok negava o uso de Auschwitz para exterminar judeus); e ainda por permitir a geração de conteúdos pedopornográficos pelo sistema de IA). Musk foi intimado a prestar declarações.A investigação acontece em paralelo com as iniciativas dos governos de França e Espanha de limitarem o uso de redes sociais a maiores de 15 e 16 anos, respetivamente. O governo de Pedro Sánchez vai mais longe e pretende responsabilizar criminalmente os proprietários das redes que não retirem conteúdos ilegais e que promovam manipulação do algoritmo. Musk chamou ao espanhol “tirano” e “verdadeiro fascista totalitário”.