Poucas horas depois de EUA e Israel atacarem o Irão, no passado sábado 28 de fevereiro, Teerão retaliou contra bases americanas e não só em vários países do Golfo Pérsico. Ataques mais amplos do que o de junho contra uma base no Qatar, durante a guerra dos 12 dias, e que deixam as monarquias árabes diante de um dilema: responder militarmente e parecer estar ao lado de Israel ou ficar quietas enquanto o fumo se eleva dos destroços dos edifícios atingidos, incluindo aeroportos e uma refinaria saudita.A retaliação iraniana alastrou ontem para além do Golfo, com ataques em Chipre.Eis um apanhado, país a país.BahreinO quartel-general da Quinta Frota da Marinha dos EUA, em Manama, a capital do Bahrein, foi um dos primeiros alvos da retaliação iraniana, logo no sábado. Os drones causaram um grande incêndio e também atingiram instalações da marinha britânica adjacentes. Desde então, o emirado tem sido alvo de vários outros ataques do Irão que terão atingido, entre outros alvos, o aeroporto e que, segundo as autoridades locais, já terão causado quatro mortos. Entretanto imagens confirmadas pela CNN mostram um drone Shahed iraniano a atingir uma torre residencial em Manama na noite de domingo para ontem.KuwaitO dia de ontem no Kuwait ficou marcado por um incidente que não foi diretamente provocado pelo Irão: três caças americanos F-15 foram abatidos pela defesa aérea kuwaitiana numa situação de fogo amigo. Os seis tripulantes ejetaram-se e sobreviveram. Mas o emirado também tem sido alvo de ataques iranianos. Ontem as sirenes voltaram a ouvir-se, tal como fortes explosões, com a Reuters a noticiar fumo a erguer-se de uma zona próxima da embaixada dos EUA. Desde sábado, pelo menos uma pessoa morreu nestes ataques. Os responsáveis do Kuwait juntaram-se ao Bahrein, Jordânia, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos num comunicado em que condenam os ataques e reafirmam o direito à autodefesa. O Kuwait acolhe várias bases militares americanas, como Camp Arifjan, Camp Buehring ou a base aérea de Ali Al Salem. QatarPelo terceiro dia consecutivo, Doha, a capital do Qatar, foi ontem alvo de ataques do Irão, que já terão feito 16 feridos, segundo a Al-Jazeera. Ao fim da tarde, o Ministério da Defesa do Qatar anunciou ter abatido dois caças iranianos Sukhoi Su-24. Também ontem, a empresa estatal de energia do Qatar disse ter interrompido a produção de gás natural liquefeito devido aos ataques iranianos, provocando uma subida dos preços. A QatarEnergy – maior produtor mundial de gás natural liquefeito – viu as suas instalações em Ras Laffan e Mesaieed serem atingidas por dois drones iranianos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar disse ontem ter evitado ataques contra a sua infraestrutura civil, incluindo o aeroporto de Doha, afirmando que estes ataques não podem ficar sem resposta. O aeroporto de Doha esteve fechado pelo segundo dia consecutivo. Logo no sábado, além da capital do Qatar também a base militar americana de Al Udeid, a maioria na região, foi alvo das bombas iranianas.Arábia SauditaNa manhã de ontem drones iranianos atingiram a refinaria de Ras Tanura, gerida pela petrolífera estatal Saudi Aramco, provocando um incêndio. Os responsáveis pelas instalações anunciaram o encerramento temporário, por precaução. Vídeos do local divulgados online pareciam mostrar um espesso fumo preto a sair do local. Outros drones, que foram interceptados com sucesso, causaram detritos que as autoridades temiam poder provocar incêndios e ferir as pessoas no solo. A refinaria de Ras Tanura é uma das maiores da região, com capacidade para 550.000 barris de petróleo bruto por dia, segundo a AFP. Logo no sábado ouviram-se explosões em Riade após ataques do Irão, que se repetiram desde então.Emirados Árabes UnidosAs companhias aéreas dos Emirados Árabes Unidos anunciaram ontem o retomar de alguns voos a partir do aeroporto internacional do Dubai. Isto apesar de os ataques do Irão contra o país, inclusive o aeroporto. Ao longo do dia foram ouvidas várias explosões no Dubai, pelo terceiro dia consecutivo. Pelo menos uma pessoa morreu e sete ficaram feridas nos ataques, quando o aeroporto da capital, Abu Dhabi foi atingido. Mas este não foi o único alvo das bombas iranianas num país que gostava de se apresentar como um oásis de tranquilidade, desenvolvimento e luxo na região. Nos últimos dias, lembrava ontem a AP, vídeos e fotos partilhados nas redes sociais mostraram um incêndio no exterior do hotel Fairmont, na ilha artificial de Palm Jumeirah, chamas as lamber a fachada do famoso hotel Burj Al Arab e fumo a subir perto do Burj Khalifa, o arranha-céu de 830 metros de altura.OmãMediador nas negociações entre os EUA e o Irão que decorreram nas últimas semanas sobre o programa nuclear de Teerão, Omã também não escapou aos ataques iranianos. o porto comercial de Duqm foi atacado por dois drones. Um trabalhador estrangeiro ficou ferido quando um drone atingiu o alojamento dos trabalhadores, enquanto os destroços do segundo drone aterraram perto de tanques de combustível, sem causar vítimas ou danos. Omã condenou os ataques e afirmou que tomaria todas as medidas necessárias para lidar com as ameaças à segurança do país e dos seus residentes.Ataques já transbordaram para fora do GolfoAlém de relatos de ataques iranianos na Jordânia ou no Iraque (na base americana de Erbil), Teerão atingiu ontem território europeu, ao lançar um drone Shahed contra Akrotiri, a base da Royal Air Force britânica em Chipre, no Mediterrâneo. Outros drones foram mais tarde intercetados pelos britânicos. O ataque em Akrotiri surgiu pouco depois de o primeiro-ministro Keir Starmer ter mudado de ideias e autorizado os EUA a usarem as bases britânicas para as operações “defensivas” no Irão. Ontem Starmer recordou que o Reino Unido levantou os seus caças para proteger cidadãos e interesses britânicos, mas que não se vai juntar aos ataques de Israel e EUA contra o Irão.