Forças israelitas junto à fronteira com o Líbano.
Forças israelitas junto à fronteira com o Líbano.EPA/ATEF SAFADI

De acabar com o Hezbollah a criar “zona tampão”: os desafios de uma incursão militar israelita no Líbano

Sinais apontam para uma ofensiva iminente, com experiência de 2006 ainda na memória. Grupo xiita diz estar pronto e EUA e União Europeia apelam a um cessar-fogo.
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As autoridades israelitas declararam “zona militar fechada” uma área junto à fronteira com o Líbano. O exército libanês terá sido visto a recuar cinco quilómetros da chamada Linha Azul, que separa os dois países. O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, disse que a “próxima fase” da guerra contra o Hezbollah vai começar “em breve”. E os EUA já terão sido avisados pelos aliados de que preparam uma ofensiva limitada, depois de pequenas incursões para recolher informação que já duram há meses. Multiplicam-se os sinais de que uma incursão terrestre estará iminente no Líbano, mas Israel tem que definir bem os objetivos para evitar uma repetição de 2006.

Após quase um ano de trocas de tiros diárias entre Israel e o Hezbollah, em que nenhum deles parecia interessado numa escalada do conflito, a situação é agora diferente. Após as explosões dos pagers e dos walkie talkies, que deixaram alguns milhares de combatentes do grupo xiita libanês mortos ou incapacitados, os bombardeamentos israelitas mataram o líder, Hassan Nasrallah, e pelo menos seis comandantes - e centenas de civis.

O próximo passo parece ser uma incursão, a primeira desde a a guerra de 2006. Esta começou em resposta a um ataque do Hezbollah, que raptou dois soldados israelitas, e terminou 34 dias depois com um cessar-fogo negociado pelas Nações Unidas mas sem um claro vencedor. Os dois soldados estavam mortos. Uma comissão de inquérito criticou mais tarde a liderança militar e política israelita pela pressa.

Israel terá por isso que perguntar qual será o objetivo de uma nova incursão? Acabar com o Hezbollah é uma tarefa ainda mais difícil do que acabar com o Hamas. A sete dias do primeiro aniversário do ataque terrorista de 7 de outubro, e apesar dos vários golpes contra o grupo palestiniano, esse objetivo não parece mais próximo. O Hezbollah é mais organizado do que o Hamas, os seus combatentes têm experiência na guerra da Síria e têm um fornecimento de armas contínuo do Irão.

Outra possibilidade, que tem sido falada, é a da criação de uma “zona tampão” junto à fronteira, que permita o regresso dos israelitas ao norte do país - de onde fugiram devido aos ataques diários. Mas o Hezbollah tem armas capazes de atingir o território israelita a partir de qualquer local do Líbano, o que obrigaria a estar sempre a aumentar a “zona tampão”. Além disso, manter essa zona obrigaria a ter muitas tropas no terreno, deixando-as vulneráveis a eventuais emboscadas do grupo xiita libanês - como aconteceu em 2006.

O líder interino do Hezbollah, Naim Qassem, disse que o grupo está preparado para a ofensiva terrestre. “Vamos ganhar, tal como ganhámos o nosso confronto com Israel em 2006”, afirmou ontem numa declaração televisiva, rejeitando a ideia de que estarão fragilizados. “Israel não foi capaz de afetar as nossas capacidades”, acrescentou.

Esta segunda-feira, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, reuniu com o gabinete de segurança, depois de deixar um aviso ao Irão - que apoia o Hezbollah. “Não há nenhum lugar no Médio Oriente que Israel não possa alcançar”. O presidente dos EUA, Joe Biden, continua a apelar a um cessar-fogo, tal como a União Europeia, que insta Israel a evitar “qualquer intervenção militar” que agravaria a situação “já dramática” no Líbano.

Segundo informações do The Washington Post e outros media norte-americanos, Israel terá alertado os EUA que estará a planear uma invasão limitada, com responsáveis norte-americanos a indicar que os planos iniciais para uma incursão mais alargada terão sido abandonados.

susana.f.salvador@dn.pt

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