Lula lidera as últimas sondagens.
Lula lidera as últimas sondagens.FOTO:EPA/Isaac Fontana

Da soberania à segurança, quais os principais temas no arranque da campanha no Brasil

Lula defenderá a soberania e associará Flávio à submissão aos EUA e Trump. E o filho de Bolsonaro, que perdeu a bandeira “antissistema” para Renan Santos, usará Lulinha como arma de arremesso.
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Passada a fase da escolha dos vice-presidentes, a campanha eleitoral do Brasil para o sufrágio de 4 de outubro começa formalmente neste domingo, 16 de agosto, a todo o gás. E Lula da Silva, candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, o principal concorrente segundo as pesquisas de opinião, já têm o discurso preparado. Os demais presidenciáveis, basicamente, vão se opor à polarização e defender-se como melhor alternativa de terceira via.

Lula, que na sondagem BTG/Nexus, de 10 de agosto, lidera com 40%, vai ter como eixo central da campanha a soberania nacional e a defesa do Brasil diante de pressões externas, especialmente dos EUA. Em causa, sobretudo, as reações do governo ao “tarifaço”, o aumento acima da média mundial de taxação sobre produtos brasileiros, que rendeu, segundo pesquisas qualitativas, frutos ao atual presidente além da “bolha” de esquerda e de centro-esquerda, seduzindo a massa de independentes que, supõe-se, decidirá a eleição.

Essa estratégia tem como bónus a possibilidade de associar Flávio, com 35% naquela pesquisa, a uma agenda de submissão aos interesses externos, uma vez que foi a pressão do irmão, Eduardo Bolsonaro, sobre a ala mais radical da administração de Donald Trump, que gerou o “tarifaço”. E uma reunião do próprio Flávio com o presidente dos EUA que decorreu na véspera de uma nova leva de taxas.

Na campanha, Lula deve agitar ainda a bandeira do medo do regresso do bolsonarismo ao poder com números da pandemia e não só e o escândalo Dark Horse, o filme sobre Bolsonaro pago pelo banqueiro corrupto Daniel Vorcaro.

Outro tema que envolve os EUA e os quartéis-generais de Lula e Flávio é o da classificação de organizações criminosas brasileiras, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, como grupos terroristas. Para o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), essa classificação pode abrir margem para medidas unilaterais americanas em território brasileiro e, no limite, para uma invasão.

Já o candidato do Partido Liberal (PL) é a favor e deve aproveitar o medo que os brasileiros sentem por essas organizações para mostrar que a segurança pública e o combate ao crime organizado são trunfos da sua campanha e pontos fracos da do rival.

Entretanto, o essencial da estratégia do marqueteiro de Flávio - já vai no terceiro publicitário desde maio - será o ataque direto a Lula e ao PT através de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, conhecido como Lulinha, envolvido num caso milionário de corrupção na Segurança Social, segundo investigação da Polícia Federal.

O tema é tão central que a escolha do PL para candidato a vice-presidente, na data limite para o anúncio, foi Alfredo Gaspar, relator da CPI sobre essa fraude que chegou a pedir a prisão de Lulinha.

Além de tentar associar Lula a corrupção, o candidato do PL deve citar temas económicos como aumento de impostos e diminuição de poder de compra.

Ronaldo Caiado, que na BTG/Nexus está em terceiro com 5%, pretende insistir em dois pontos: o candidato do centrista PSD mas com posições pessoais tradicionalmente à direita vai atacar a polarização mórbida da política no Brasil entre lulismo e bolsonarismo e destacar resultados concretos na economia e na segurança no Goiás, estado que governou nos últimos oito anos e de onde saiu com índices de aprovação em torno de 80%.

Na quarta posição, com 4% na sondagem de 10 de agosto, está Renan Santos, empresário de 41 anos, do Missão, partido ultraliberal na economia nascido das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015. Renan vai herdar o discurso de direita antissistema e anti “velha política” que levou Jair Bolsonaro à vitória, em 2018, usando as redes sociais como principal método de divulgação.

Romeu Zema, do Novo, partido ideologicamente semelhante à Iniciativa Liberal em Portugal, tentará, tal como Caiado, “nacionalizar” a imagem, depois de oito anos como bem sucedido governador de Minas Gerais, segundo estado mais populoso do Brasil, e defenderá, tal como Renan, a redução do peso do estado. Para já soma 2%.

Se Zema, Renan, Caiado e Flávio estão à direita, ou muito à direita, do atual presidente, Samara Martins, da Unidade Popular, com 2% nas sondagem BTG/Nexus, procura posicionar-se como alternativa socialista ao sistema capitalista tradicional. Samara, 38 anos, é dentista de formação e coordenadora da Frente Negra Revolucionária.

Supostamente equidistante de esquerda e direita, o psiquiatra Augusto Cury, do Avante, com 1% nas intenções de voto, privilegia temas como desenvolvimento humano, saúde emocional e mental, além da situação dos jovens que não estudam nem trabalham. Com discurso menos ideológico e mais centrado em projetos, Cury, que é escritor de autoajuda de sucesso, procura transformar a enorme audiência dos seus livros em capital político.

Ideias-chave

Lula da Silva - Soberania e medo do bolsonarismo

Flávio Bolsonaro - Lulinha e segurança pública

Ronaldo Caiado - Resultados e alternativa

Renan Santos - Anti-sistema e nova política

Romeu Zema - Gestão e austeridade

Samara Martins - Igualdade e socialismo

Augusto Cury - Saúde mental e juventude

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