Qual será o impacto da segunda presidência de Donald Trump na União Europeia e como é que os seus 27 Estados-membros se devem preparar para ela? Uma sondagem do Conselho Europeu de Relações Externas revelada na semana passada mostra que os aliados dos Estados Unidos na Europa estão pessimistas em relação ao novo presidente norte-americano, indicando um maior enfraquecimento do Ocidente, e sugere que os europeus terão dificuldade em encontrar unidade interna ou poder global para liderar uma resistência à nova administração. No entanto, este mesmo estudo revela que muitos dos inquiridos no mundo consideram a UE como um ator de relevância igual à dos Estados Unidos e à da China, notando ainda que a influência do bloco dos 27 está a aumentar - por exemplo, 38% dos inquiridos nos EUA acreditam que a UE exercerá mais influência a nível mundial na próxima década.O primeiro dia de Donald Trump na Casa Branca já definiu o tom do seu mandato com um número recorde de ordens executivas, mas a reação por parte da União Europeia tem sido, até agora, bastante discreta, com Ursula von der Leyen a nem sequer mencionar o nome do presidente dos Estados Unidos no seu discurso de terça-feira em Davos. “É preciso ter cabeça fria”, disse, também em Davos, o ainda chanceler alemão Olaf Scholz, garantindo que “podemos e iremos lidar com tudo isto sem excitação e indignação desnecessárias”.“O regresso de Donald Trump à Casa Branca e a sua doutrina América Primeiro representa inevitavelmente um desafio fundamental para a UE. A segunda presidência de Trump representa um novo momento decisivo: as políticas da nova administração dos EUA não só colocarão provavelmente a Europa numa desvantagem global, como também ameaçarão os seus objetivos fundamentais de prosperidade, sustentabilidade, segurança e democracia. É por esta razão que os países europeus terão de agir de forma decisiva para salvaguardar a unidade do bloco e reforçar a sua autonomia num mundo em mudança”, defendem Fabian Zuleeg e Janis Emmanouilidis, diretor e diretor adjunto do think tank European Policy Center (EPC). E são várias as áreas nas quais os líderes das instituições europeias e dos 27 terão de mostrar ser uma frente unida nestes próximos cinco anos. Segurança e política externaO regresso de Donald Trump à Casa Branca deverá acelerar a necessidade dos Estados-membros da União Europeia trabalharem mais para defender os seus próprios interesses. E apesar de a Europa ter interesse em manter os Estados Unidos como um aliado fundamental e garante do poder e da segurança do continente, Washington estará agora à procura de um entendimento com novas regras, como o presidente norte-americano já deu a entender, por exemplo, com a indicação de que deveria ser implementada uma meta de 5% do PIB em gastos com a Defesa dentro da NATO. Para Almut Möller, diretora de Assuntos Globais e Europeus, e do Departamento Europeu, propriamente dito, do European Policy Center, será crucial para a Europa “continuar a investir rigorosamente na Segurança europeia – financeira, militar, estratégica e política”, o que passa por uma estreita colaboração com o Reino Unido, mas também com a NATO, sendo que neste último caso deverá contribuir o próximo Livro Branco sobre a Defesa, elaborado pelo comissário desta área, Andrius Kubilius. “Isto será fundamental para enviar um sinal forte ao outro lado do Atlântico de que os europeus podem agir em conjunto”, sublinha a mesma especialista, notando que “globalmente, a UE precisa de estar preparada para o conflito com os EUA numa escala muito maior do que no passado, e terá de avaliar cuidadosamente como navegar nesta situação. E deve também preparar-se para os conflitos internos sobre os dossiers transatlânticos e encontrar uma forma de lidar com eles internamente para contrariar as tentativas dos EUA de dividir a Europa”.Cessar-fogo na UcrâniaDurante a campanha, Donald Trump disse várias vezes que iria pôr fim à guerra na Ucrânia no seu primeiro dia de mandato, mas ainda antes da tomada de posse alguns conselheiros do agora presidente dos Estados Unidos fizeram saber que este é um cenário que poderá levar meses ou mais a tornar-se realidade. No entanto, pouco depois de tomar posse, o republicano lançou o repto a Vladimir Putin para encontrar um acordo de paz com a Ucrânia, sob pena de a Rússia correr o risco de ser destruída.Numa espécie de toque para a realidade, Volodymyr Zelensky disse na terça-feira em Davos que “a Europa deve poder sentar-se à mesa para discutir a paz na Ucrânia”, algo que é atualmente incerto, uma vez que, notou o líder ucraniano, embora considere óbvio que “a Europa deve ter uma palavra a dizer, a questão é saber se Trump vai ter em conta a Europa ou se vai negociar apenas com a Rússia e a China”. Na opinião de Fabian Zuleeg, diretor executivo do EPC, a Europa deve começar por tentar garantir que qualquer acordo de cessar-fogo seja o mais favorável possível para a Ucrânia - pressionando para a devolução dos territórios ocupados, o uso de fundos russos para a reconstrução, acesso ao Mar Negro ou o regresso de prisioneiros de guerra e crianças raptadas - mas também considerar seriamente a entrada de Kiev na UE para evitar que a Rússia possa vetar o futuro do país no bloco. “Além disso, a Europa deveria estar disposta a colocar forças no terreno em caso de cessar-fogo; é a única forma de garantir que tal cessar-fogo se mantém”, prossegue o mesmo analista, acrescentando que “se um cessar-fogo imposto por Trump se tornar uma realidade, a Europa terá de fazer - e comprometer-se - mais e não menos. O conflito com a Rússia de Putin é inevitável; contudo, se a Europa agir, poderá pelo menos esperar evitar o pior: uma guerra em grande escala”.Tarifas comerciaisEmbora tenha deixado a Europa de fora do seu discurso de tomada de posse, não foi preciso esperar muito mais para Donald Trump vir a público dizer que “a União Europeia é muito má para nós. Tratam-nos muito mal. Não aceitam os nossos automóveis nem os nossos produtos agrícolas. De facto, não aceitam muita coisa”, acrescentando que, por isso, os 27 serão alvo de tarifas, mas sem adiantar pormenores. Durante a campanha, o republicano já tinha ameaçado com a imposição de tarifas à Europa, a menos que o bloco aumentasse as suas compras de petróleo e gás natural aos Estados Unidos. Sendo que a presidente da Comissão Europeia, em novembro, já tinha colocado essa possibilidade, nomeadamente em relação ao gás, para evitar novas tarifas de Washington e como uma forma de substituir o fornecimento de gás russo. Já esta semana, Ursula von der Leyen garantiu que a Europa está pronta para falar com a administração norte-americana, lembrando que os Estados Unidos são um importante parceiro comercial. “Seremos pragmáticos, mas manter-nos-emos firmes nos nossos princípios: defender os nossos interesses e respeitar os nossos valores”, disse em Davos a presidente da Comissão Europeia. De recordar que, segundo dados do Representante Comercial dos Estados Unidos relativos a 2023, o défice comercial dos EUA com a UE ascenderá a 131 mil milhões de dólares, e está concentrado na sua maioria em quatro países: Alemanha, França, Irlanda e Itália.E enquanto a Europa espera por medidas concretas da Casa Branca sobre este tema, Varg Folkman, analista do EPC especialista em política económica, nota que “ainda mais preocupantes para a UE são os potenciais efeitos da provável ofensiva de Trump contra a China”, pois “fechando o mercado dos EUA para os produtos chineses, mesmo aqueles que são redirecionados através de países terceiros como o Vietname e o México, deixará os produtores chineses com muitos produtos que podem muito bem ser exportados para a UE”, sendo que o bloco dos 27 já está a lidar com um fluxo de exportações chinesas de setores de tecnologia limpa como carros elétricos ou baterias.Política climáticaUma das muitas ordens executivas assinadas por Trump logo na segunda-feira estabelece a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, causando um sério revés nos esforços mundiais para combater o aquecimento global e isolando Washington nesta matéria dos seus aliados. O presidente americano já tinha feito o mesmo em 2017, uma decisão que foi revertida quatro anos depois por Joe Biden, também no seu primeiro dia em funções.Face a esta decisão, e outras que Trump já tomou e poderá vir a tomar, os Estados Unidos estão a retirar-se da luta contra as alterações climáticas, o que, para as analistas do European Policy Center Ana Berdzenishvili e Brooke Moore, significa que “a UE deve manter-se vigilante, monitorizando a evolução dos EUA e, ao mesmo tempo, elaborando respostas que estejam alinhadas com os seus objetivos climáticos, demonstrando através do Pacto Ecológico Europeu como a sustentabilidade, a prosperidade económica e a segurança andam de mãos dadas”. O problema aqui é que o chamado Green Deal, lançado por Ursula von der Leyen no seu primeiro mandato, está cada vez mais enfraquecido, em grande parte graças aos esforços da sua própria família política, o Partido Popular Europeu - ainda esta quarta-feira, perante os eurodeputados, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, referiu que “algumas” da normas ambientais que a UE introduziu nos últimos cinco anos são responsáveis pelos preços de energia “proibitivamente” elevados que temos hoje e que estão a prejudicar a competitividade do bloco face aos EUA e à China.“Redefinir o seu papel na ação climática global é uma tarefa crítica para a UE, paralelamente às suas prioridades geopolíticas e de segurança económica mais amplas. Isto começa internamente alinhando o progresso ambiental com a competitividade económica e a segurança, demonstrando a sua viabilidade. A UE deve alargar esta abordagem, estabelecendo parcerias verdes de valor acrescentado com os países em desenvolvimento e as potências médias, aumentando ao mesmo tempo o financiamento climático para aumentar a credibilidade”, notam as mesmas analistas.Extrema-direitaAo contrário dos líderes das instituições europeias, os três grupos de extrema-direita do Parlamento Europeu foram convidados e estiveram representados na investidura de Trump, nomeadamente através da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni (ECR), do líder do espanhol Vox, Santiago Abascal (Patriotas pela Europa), ou Tino Chrupalla, colíder do Alternativa para a Alemanha (Europa das Nações Soberanas).“Os convites para a tomada de posse indicam que os laços entre Trump e a extrema-direita deverão estreitar-se e manifestar-se de três formas durante os próximos quatro anos”, alertam Tabea Schaumann e Javier Carbonell, do programa de Política Europeia e Instituições do EPC. “Em primeiro lugar, os partidos de extrema-direita na Europa poderão ganhar visibilidade e plataformas, como ilustra a conversa de Musk com Alice Weidel, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD). Em segundo lugar, estas partes podem receber ajuda nas campanhas ou a nível financeiro”, prosseguem estes analistas, para quem a terceira possibilidade é a “mais preocupante” - “a provável exploração, por parte de Trump, de líderes ou governos de extrema-direita para bloquear as políticas da UE ou fazer avançar a sua agenda. Isto poderá passar por favorecer [o primeiro-ministro húngaro] Orbán ou Meloni como interlocutores sobre as instituições da UE e pressioná-los para exercerem o seu poder de veto”.Na opinião de Schaumann e Carbonell, “o impacto da vitória eleitoral de Trump nos EUA na extrema-direita da Europa já está a ganhar forma e provavelmente ganhará ainda mais terreno. A UE deve, por isso, preparar-se para o pior cenário e mitigar proativamente o seu impacto”, o que poderá passar, por exemplo, por “reformar as suas instituições e funções para evitar impasses, considerando propostas como a votação por maioria qualificada ou a criação de uma vanguarda governamental supranacional composta por alguns países europeus”.ana.meireles@dn.pt .Trump envia 1500 soldados adicionais para a fronteira com o México.Congresso dos EUA aprova lei de Trump lei que permite deter imigrantes suspeitos