As autoridades iranianas confirmaram esta quinta-feira (5 de março) ter lançado ataques contra o quartel-general das forças curdas iranianas no norte do Iraque, intensificando a pressão sobre as regiões curdas tanto no Irão como no Iraque. Esta terá sido a resposta às notícias de que a CIA terá estado a armar estes grupos e que o presidente dos EUA, Donald Trump quer, segundo avançou a CNN, que estes se juntem à luta contra o regime iraniano. A ideia, explicou uma das fontes ouvidas pela CNN, seria as milícias curdas enfrentarem as forças de segurança iranianas e as manterem ocupadas, para facilitar a saída às ruas dos iranianos desarmados nas principais cidades sem voltarem a ser massacrados pelo regime, como aconteceu durante os protestos de janeiro.A Reuters confirmou que a coligação curda-iraniana de grupos baseados na fronteira entre Irão e Iraque tem vindo a treinar para montar um ataque deste tipo, na esperança de enfraquecer as forças armadas iranianas. O governo regional do Curdistão iraquiano negou ontem qualquer envolvimento em planos para armar grupos curdos e enviá-los para o Irão. Nechirvan Barzani, o presidente daquela região semiautónoma, explicou que “não deve tornar-se parte de qualquer conflito ou escalada militar que prejudique a vida e a segurança dos nossos concidadãos”. E acrescentou: “A proteção da integridade territorial da região do Curdistão e das nossas conquistas constitucionais só pode ser alcançada através da unidade, coesão e responsabilidade nacional partilhada de todas as forças políticas e componentes do Curdistão”. Além da vasta autonomia de que gozam, desde a queda de Saddam Hussein que o presidente do Iraque é sempre um curdo. O próprio Trump terá estado em contacto nos últimos dias com os líderes curdos tanto no Irão como no Iraque. Segundo o site Axios, o presidente dos EUA ligou no domingo à liderança curda iraquiana para discutir a operação militar dos EUA no Irão e como os EUA e os curdos poderiam trabalhar juntos à medida que a guerra avança. Qualquer tentativa americana de armar os grupos curdos iranianos precisa do apoio dos curdos do Iraque para permitirem a passagem de armas pelo seu território, que serviria também como base para o lançamento de ataques. Apoio começou meses antes de ataques de EUA e IsraelO apoio da CIA aos curdos iranianos terá começado vários meses antes de EUA e Israel lançarem ataques contra o Irão, no passado dia 28 de fevereiro. Os grupos armados curdos têm milhares de operacionais que atuam na zona fronteiriça entre o Irão e o Iraque, sobretudo no Curdistão iraquiano, uma zona semi-autómona. Desde o início da guerra, vários destes grupos têm emitido comunicados a apelar à ação contra as forças armadas iranianas, deixando no ar que estas estariam iminentes. Na terça-feira, a Guarda Revolucionária confirmou ter lançado ataques com drones contra grupos curdos. Mas os próprios serviços secretos americanos têm alertado para os desafios de armar os grupos curdos iranianos. Isto porque estes não só não têm neste momento recursos necessários para apoiar uma revolta bem-sucedida contra o regime, como as divisões profundas, tensões históricas, divergências ideológicas e agendas concorrentes dificultarão uma ação consertada destes grupos.De origem indo-europeia, os curdos são um povo sem Estado. Estamos a falar de 25 a 35 milhões de pessoas que se espalham por uma zona de perto de meio milhão de quilómetros quadrados. O maior número vive na Turquia (cerca de 20% da população do país), representando no Iraque 15 a 20% dos habitantes, na Síria 15% e no Irão cerca de 10%. Descendentes dos Medos da antiga Pérsia, que criaram um império no século VII AC, os curdos são na maioria muçulmanos sunitas, mas a população curda tem tradições culturais, sociais, religiosas e políticas diversas, além de uma variedade de dialetos.A CNN recordava entretanto que a CIA tem um longo historial de trabalhar com as fações curdas iraquianas, incluindo durante a guerra do Iraque. “A agência tem atualmente um posto avançado no Curdistão iraquiano, localizado perto da fronteira com o Irão”, lê-se na notícia, que cita duas pessoas familiarizadas com o assunto. Os EUA também têm um consulado em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, e tropas americanas estão ali baseadas como parte da campanha anti-ISIS. As suas instalações foram ontem alvo de ataques iranianos. Muitos curdos esperavam que a colaboração com os americanos ajudasse aos seus sonhos de independência, mas esse não se concretizou. Os EUA também colaboraram com os curdos na Síria, na luta contra o Estado Islâmico para a qual os combatentes curdos foram essenciais. Mas em 2019, após uma conversa com o presidente turco, Recep Erdogan, Donald Trump decidiu retirar as suas forças do nordeste da Síria. Pouco depois, as tropas turcas, com apoio aéreo, invadiram a região e infligiram um duro golpe aos curdos que lutaram contra o EI. Os curdos estão agora também sob pressão do novo regime sírio. .Como é que os curdos sírios foram abandonados à sua sorte (de novo)